Quem quer dinheiro?
Bernardo Mello Franco - FSP
BRASÍLIA - O autógrafo de Dilma Rousseff oficializou a primeira
contribuição dos políticos ao ajuste fiscal: triplicar a verba pública
destinada a eles mesmos, por meio de repasses do fundo partidário.
O governo previa gastar R$ 289,5 milhões com as legendas, valor
semelhante ao liberado nos últimos anos. O Congresso ignorou a crise e
elevou a despesa para R$ 867,5 milhões. Com a base parlamentar em
frangalhos e a popularidade na lona, Dilma sancionou a mudança. O
jamegão mostra, ao mesmo tempo, a fraqueza política da presidente e a
dificuldade que ela ainda terá para aprovar suas medidas de arrocho.
O aumento do repasse aos partidos desmoraliza o discurso de austeridade
do governo. Após prometer uma "pátria educadora" e tesourar R$ 7 bilhões
da educação, Dilma dá sinal verde à farra do fundo.
É como se a presidente vestisse o terno do apresentador Silvio Santos e
saísse atirando aviõezinhos de dinheiro para o ar. A diferença é que as
verdinhas, em vez de alegrar as "colegas de auditório", engordarão os
bolsos dos dirigentes partidários.
Vai sobrar para todo mundo, inclusive para quem não tem voto. Sem uma
única cadeira no Congresso, PCB, PSTU, PCO e PPL levarão R$ 1,4 milhão
cada um. Outras oito siglas nanicas, com até três deputados, dividirão
um bolo de R$ 51,4 milhões. Embora a economia esteja parada, criar
partido político continua a ser um bom negócio no Brasil.
A emenda que turbinou o fundo partidário foi apresentada pelo senador
Romero Jucá, do PMDB. Ele afirmou que é o "início da discussão do
financiamento público das campanhas", mas se esqueceu de dizer que em
2015 não haverá eleições.
O fim das doações privadas é uma ideia interessante, mas não deve ser
decidida com uma canetada no Orçamento. Por enquanto, os políticos ficam
com o melhor dos mundos: aumentaram os repasses do Tesouro e
continuarão a passar o chapéu entre bancos e empreiteiras.
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