sábado, 20 de outubro de 2012

Ciganos partem para a Alemanha em busca de melhores condições
Jörg Diehl - Der Spiegel
Buscando uma vida e um futuro melhores para seus filhos, centenas de milhares de ciganos vieram para a Alemanha nos últimos anos. Eles esperam fugir da pobreza e da marginalização que experimentam em seus países de origem, mas permanecem forasteiros também em seu novo lar. Os problemas resultantes estão mantendo policiais e assistentes sociais ocupados.
Os dois pais e seus quatro filhos se amontoam juntos em um sofá. A sala é vazia e úmida, com paredes descascando e tapetes sujos no chão. Esse supostamente é o início do futuro melhor que Radu e Ilena (esses não são seus verdadeiros nomes) estavam sonhando quando tomaram um ônibus há quatro semanas na Romênia. Agora eles assistem apaticamente um documentário sobre animais passando em um canal de televisão alemão. A primeira coisa que Radu diz é: “Não há problemas, tudo está bom”.
Como muitas pessoas que fazem a longa jornada até a Alemanha, a família de Iasi deseja apenas não se destacar ou causar problemas. Nos últimos anos, dezenas de milhares de romenos e búlgaros vieram para a região do Ruhr alemã, no populoso Estado de Renânia do Norte-Vestfália, e o número continua crescendo. A maioria deles é de ciganos fugindo das condições miseráveis e perspectivas desoladoras em sua terra natal, pagando cerca de 100 euros por pessoa por uma passagem para a Alemanha. Mas assim que chegam, eles percebem rapidamente que a suposta Terra Prometida não é tão receptiva quanto esperavam.
Como cidadãos da União Europeia, romenos e búlgaros podem residir legalmente na Alemanha –mas ter um emprego regular não é permitido, porque as leis trabalhistas estipulam que não podem realizar um trabalho que possa ser realizado por um alemão. O que resta são trabalhos por dia que pagam 3 ou 4 euros por hora, o que relega os homens a canteiros de obras, enquanto muitas mulheres acabam na prostituição. Entretanto, eles recebem benefícios sociais para seus filhos. Radu e Ilena recebem 773 euros por mês, em comparação aos 110 euros que Radu ganharia como operador de guindaste na Romênia.
"Trabalho bom"
A disparidade de riqueza por toda a UE leva muitos que não têm nada a perder em casa a irem para o exterior. Muitos são analfabetos e não têm chance no mercado de trabalho alemão, apesar de ansiarem por uma vida melhor em seu novo lar. Radu diz que um amigo lhe disse que havia muito “trabalho bom” na Alemanha, onde seus filhos poderiam frequentar a escola e talvez até mesmo ter um futuro.
A tendência representa uma “migração da pobreza”, diz Ralf Jäger, ministro do Interior do Estado de Renânia do Norte-Vestfália. “Os ciganos na Romênia e Bulgária vivem em condições tão miseráveis em seus países de origem que acabam vindo para a Alemanha”, ele disse para a “Spiegel Online”. Mas a UE deveria fazer um esforço para assegurar uma melhora das condições de vida para os ciganos em seus países de origem, ele diz, acrescentando que mais deveria ser feito para “acabar com a discriminação das minorias”.
A Renânia do Norte-Vestfália também está lutando para lidar com o afluxo de requerentes de asilo, muitos deles também ciganos, mas de países que não são membros da UE, como a Macedônia e a Sérvia. Alguns políticos alemães conservadores atribuem isso ao recente aumento dos benefícios do bem-estar social para refugiados. Mas o que diferencia esses imigrantes dos que vêm de países da UE é que eles têm pouca esperança de permanecerem na Alemanha por muito tempo. De fato, a maioria é ameaçada de deportação.
Aumento da criminalidade
Enquanto isso, entre aqueles que são autorizados a permanecer –mas absurdamente, não conseguem empregos apropriados– a criminalidade parece estar em ascensão. A polícia em Duisburg acredita que há uma casa em particular onde vivem várias crianças, que são enviadas diariamente em grupos para roubar coisas. Segundo o Ministério do Interior estadual, arrombamentos e roubos em caixas eletrônicos aumentaram acentuadamente, o que é atribuído em grande parte aos imigrantes do sul da Europa. “Nós levamos o problema muito a sério”, diz Jäger. “Mas esse problema não pode ser resolvido apenas pela polícia.”
Um documento de uma investigação em andamento contra três mulheres romenas ilustra a tendência. “Por pelo menos um ano, a vigilância em Duisburg (e também nacionalmente) mostra que grupos romenos (aparentemente clãs familiares) estão cometendo crimes organizados em uma escala alarmante”, ele diz. A maioria dos crimes envolve roubo de carteiras e de mercadorias em lojas, mas também há casos de fraude, onde os perpetradores se fingem de surdos ou inválidos enquanto pedem esmolas, e então roubam a carteira ou celular das vítimas distraídas. O líder do clã envia principalmente mulheres jovens para realização dessas atividades “regionais”.
Uma das poucas organizações que lidam com a situação dos ciganos em Duisburg é a Associação para Apoio Voltado ao Futuro (ZOF, na sigla em alemão), que ajuda as famílias de imigrantes a se integrarem. Um dos assistentes sociais do grupo, Murat Yasar, descreve um telefonema que ele recebeu recentemente, no qual uma mulher implorou por ajuda para sua sobrinha de 16 anos, que estava sendo fisicamente intimidada por seu pai para roubar e se prostituir. Mas quando a ajuda chegou, ela não estava mais lá.
“Ela provavelmente foi levada de volta para a Romênia”, diz Yasar, que espera que o governo se envolva mais na questão dos imigrantes. “Se os deixarmos por sua própria conta, eles se transformarão nos criminosos de amanhã”, ele diz, apontando para os quatro filhos de Radu e Ilena. “Eles não têm outras opções.”
Atualmente há centenas de crianças ciganas na área que não estão comparecendo à escola, enquanto as que vão raramente falam alemão.
A tensão fundamental entre ricos e pobres na Europa parece estar se cristalizando no distrito de Rheinhausen em Duisburg, onde cidadãos começaram a colher assinaturas para iniciativas contra os imigrantes, devido ao lixo e barulho que criam. Os romenos também são atacados, segundo um documento do Ministério do Interior estadual. “Aparentemente, bandos organizados de valentões foram enviados para mudar as condições impopulares”, diz um comissário de polícia. Os policiais em ronda já ouviram declarações “bastante perturbadoras”, ele diz. Os ciganos se queixam de que não são atendidos nas lojas de famílias turcas, e que seus filhos são regularmente agredidos. “Se não trabalharmos contra isso, nós teremos rapidamente um debate geral sobre os estrangeiros”, ele acrescenta.
Apesar dos problemas, Radu e Ilena querem permanecer na Alemanha. Elas já procuram por escolas para seus filhos e esperam deixar de dormir no sofá de um amigo e mudar para seu próprio apartamento. Então eles sentirão que realmente chegaram ao seu novo lar, eles dizem.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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