Esbanjando dinheiro público
O Estado de S.Paulo
Além de não cumprir a contento, nem de longe, as suas
funções de legislar e fiscalizar os atos do Executivo, de ganhar bons
salários, de dispor de milionária verba para manter uma penca de
assessores, os vereadores da capital paulista ainda usam outros recursos
que a Câmara Municipal coloca à sua disposição para pagar despesas as
mais variadas, como se o contribuinte fosse obrigado a sustentar até
mesmo os seus gastos que nada têm a ver com o exercício do mandato.
Por meio da análise de 7.960 notas fiscais apresentadas no primeiro
ano da atual legislatura, reportagem do Estado mostra a sem-cerimônia
com que os vereadores utilizam a verba de gabinete, que neste ano chega a
R$ 226,5 mil para cada um deles (em 2013, foi de R$ 217,9 mil). Os
gastos vão de aluguel de carro pelo dobro do preço oferecido pela
Câmara, compra de brindes para agradar a eleitores e até de papel
higiênico para escritório político, além da contratação de advogados,
embora tenham à sua disposição 32 procuradores para cuidar de assuntos
ligados ao desempenho de seu mandato.
Isso é um escândalo, mas tem muito mais. Lavagem de carros de luxo
particulares, compra de material escolar - tais como giz de cera e tinta
guache - e de flores estão entre os recibos, com pedidos de reembolso,
apresentados por vereadores no ano passado. O vereador Rubens Calvo
(PMDB) pagou com dinheiro de sua verba de gabinete a lavagem por dez
vezes de sua BMW particular, ano 1994. Não importa que isto custe
relativamente pouco. Não agir assim é uma questão de princípio. Todos
esses gastos chegaram a R$ 9 milhões.
Outro exemplo da facilidade - e neste caso também da largueza - com
que se lança mão de dinheiro público é o do vereador Masataka Ota
(Pros), que pagou R$ 5,3 mil por mês pelo aluguel de um automóvel Toyota
Corolla. Ele deve ter achado acanhado para seu gosto o Fiat Linea que a
Câmara colocou à sua disposição, pela metade do preço - R$ 2,6 mil.
Ota ainda tem o desplante de argumentar que o valor pago pelo veículo
que escolheu está abaixo do praticado no mercado. Outros dez colegas
seus fizeram trocas semelhantes. O pior é que a prática não é proibida
pela Câmara. E a coisa não para aí. Os vereadores Aurélio Miguel (PSDB),
Edir Sales (PSD) e Dalton Silvano (PV) pagaram contas de telefone de
seus escritórios políticos com verba de gabinete. George Hato (PMDB) foi
ainda mais longe - usou os mesmos recursos para pagar material de
limpeza do escritório político de seu pai, o deputado estadual Jooji
Hato (PMDB).
Em alguns casos, como o de Hato, a despesa deverá ser reembolsada,
por determinação do presidente da Câmara, José Américo (PT). É muito
pouco. A Mesa da Câmara tem a obrigação de ir muito mais longe, tomando
medidas, como promete, para disciplinar esses gastos e coibir abusos. Os
vereadores parecem partir do princípio de que, tendo sido eleitos, têm o
direito de fazer o contribuinte pagar todas as suas despesas - das
grandes até as miúdas. Nada escapa. Além dos exemplos apontados, há
também as despesas com correspondência, fotocópias e serviços gráficos,
como a impressão de boletins para dar informações aos eleitores sobre
suas atividades.
Esse último item chega a ser cômico, porque, além da votação de
matérias obrigatórias - como a do orçamento - e de poucas outras das
quais não conseguem escapar, como a revisão do Plano Diretor, atualmente
em tramitação, os vereadores passam a maior parte do tempo a cuidar de
assuntos menores, como dar nomes a ruas, e outros irrelevantes, como
distribuir títulos de cidadania.
Para garantir esse notável desempenho, os vereadores recebem muito
mais do que esses recursos que esbanjam com tanta desfaçatez. Além de um
bom salário, cada um conta com R$ 114,2 mil (no ano passado foram R$
106,4 mil) por mês para pagar até 18 assessores.
Uma cidade como São Paulo, às voltas ao mesmo tempo com enormes
problemas e escassez de recursos, não merece a triste e dispendiosa
sorte de contar com uma Câmara Municipal como essa.
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