sexta-feira, 28 de março de 2014

Obama chega ao Oriente Médio com a missão de restabelecer a confiança nos EUA
Caryle Murphy 
Os sauditas estão mais ameaçados por um ataque externo ou por agitação doméstica?
Quando o presidente Obama chegar aqui na sexta-feira (28), ele encontrará o principal produtor de petróleo do mundo incerto a respeito de sua direção interna, aturdido pelos levantes regionais e profundamente desiludido com a confiabilidade de Washington, seu antigo parceiro estratégico.
A missão dele de restaurar a confiança não será fácil –não apenas devido às diferentes abordagens para a turbulência no Oriente Médio, mas também por causa dos desafios domésticos enquanto a Arábia Saudita faz a transição para uma sociedade menos isolada e mais complicada. De fora, o país aparenta ser um oásis de calma. Mas, sua confiança foi severamente abalada à medida que a velha ordem árabe autoritária se desintegrou, apenas para ser substituída por tensões sectárias, guerras civis e grupos islamitas mais assertivos, que olham de forma desconfiada para as monarquias. O consentimento de Washington à derrubada em 2011 do presidente do Egito, Hosni Mubarak, sua relutância em armar os rebeldes sírios e sua resposta tépida ao golpe militar de 2013 no Egito, que depôs seu primeiro líder democraticamente eleito –um golpe endossado de todo o coração por Riad–, tudo isso turvou a relação bilateral. Assim como seu governo, muitos sauditas comuns estão perplexos com o que veem como políticas incompetentes dos Estados Unidos. A maioria permanece notadamente pró-americana e, sempre de modo educado, pede desculpas antes de declarar que perdeu a fé no líder americano, descrito de modo variado como "ineficaz" e "viciado em tomar a decisão errada". Eles estão mais irritados com a tentativa de diálogo iniciada por Washington com Teerã, o principal rival regional de Riad. Os sauditas deveriam estar aliviados, pois o sucesso significaria uma aceitação pelo Irã em abandonar suas ambições por armas nucleares. Mas, esse benefício potencial é ofuscado pelos temores dos sauditas do que poderia acontecer um dia depois de o Irã assinar um pacto nuclear: os Estados Unidos se afastarem da região, permitindo ao Irã xiita encorajar as comunidades xiitas no mundo árabe governado predominantemente pelos sunitas. Se o presidente pudesse escapar dos palácios de seus anfitriões, ele vislumbraria outra realidade quase tão importante quanto para o relacionamento americano-saudita: que este país, cuja população nativa deverá ultrapassar mais de 28 milhões até 2030, está passando por uma transformação abrangente. Ele poderia ver as novas e elegantes vias elevadas da capital, seus arranha-céus e os planos para seu primeiro sistema de metrô. Ele poderia ver um tweet ou vídeo no YouTube ridicularizando um príncipe ou clérigo religioso. Os supermercados e lojas de lingerie seriam paradas improváveis, de forma que ele não veria outra evolução recente: caixas e vendedores do sexo feminino. As mudanças são incômodas para muitos sauditas e ainda mais para aqueles no topo. Atualmente, ao se sentarem sob das fotos quase ubíquas de seu rei, os sauditas dizem estar preocupados com uma potencial disputa pela sucessão dentro da família real. Como explicou um professor universitário, "nós não podemos prever o futuro, o que significa que não há estabilidade, o que significa que não nos sentimos seguros".
Nos últimos três anos, dissidentes, defensores de direitos humanos e críticos da corrupção –tanto islamitas quanto seculares– estão se manifestando cada vez mais, especialmente nas redes sociais. Um exemplo surpreendente ocorreu em julho do ano passado, quando uma declaração online contradisse a posição oficial saudita apoiando o golpe egípcio que derrubou o presidente Mohammed Mursi, condenando o golpe. Em resposta, o governo está se tornando cada vez mais repressivo, enviando ativistas conhecidos, como Abdullah al-Hamed e Mohammed al-Qahtani, os fundadores da Associação Saudita de Direitos Civis e Políticos, para a prisão por uma década. E em 7 de março, ele soltou uma bomba ao designar a Irmandade Muçulmana –que tem milhares de simpatizantes sauditas e raízes no reino que remontam a mais de 50 anos– como uma organização terrorista. A ordem também proibiu a discussão do ateísmo e muitas formas de expressão pública, incluindo declarações online. A resposta previsível foi medo. Cliques de mouse se espalharam pelo reino, enquanto os usuários do Twitter apagavam a imagem com quatro dedos representando apoio à Irmandade no Egito e aos seus seguidores mortos. Esses desdobramentos levantam uma questão justa, dadas as vendas recentes de armas americanas para a Arábia Saudita, no valor de mais de US$ 45 bilhões: a Arábia Saudita está mais ameaçada a longo prazo por um ataque militar externo ou por distúrbios domésticos? Washington prefere sussurrar suas críticas no ouvido do rei em vez de repreender publicamente sua aliada. Para o ativista islâmico Mohsen al-Awajy, isso sinaliza que "os americanos se importam com a família real e são muito ignorantes em relação ao povo saudita. Os direitos humanos estão no nível mais baixo na Arábia Saudita, mas eles não falam nada a respeito". Um cenário de pesadelo para Washington, que poderia provocar uma grande ruptura nas relações americano-sauditas, seria ter que escolher entre a família real e cidadãos rebeldes. Esse cenário não é improvável nos próximos anos. Mas seria tolice ser complacente. E para proteger seu futuro doméstico a longo prazo, o governo saudita precisa mais urgentemente tratar das questões que têm gerado principalmente muita conversa e pouca ação. Ele precisa refrear o status de acima da lei e as expectativas financeiras de uma família real crescente; substituir o senso de direito a benefícios, criado por um Estado de bem-estar social baseado no petróleo, por uma ética forte de trabalho; combater a corrupção e mobilizar a burocracia preguiçosa, indisciplinada, em reformas econômicas e educacionais que criem empregos em uma economia diversificada, competitiva globalmente. Finalmente, a monarquia absoluta da Arábia Saudita faria bem em prestar atenção a duas mensagens-chave dos levantes que sacudiram o Oriente Médio: transições às pressas de ditaduras para democracias superficiais geram caos e mais pesar para os habitantes da região, que já sofrem há muito tempo; e problemas com raízes profundas que não são resolvidos levam a consequências imprevisíveis. A Arábia Saudita deveria implantar o que ela, até o momento, se recusa até mesmo a contemplar: uma divisão de poder gradual e genuína com o povo. Isso não precisa ser uma democracia da forma como é praticada no Ocidente. Mas deveria permitir aos sauditas uma participação genuína na tomada de decisão transparente e a liberdade para construir uma sociedade civil independente, justa e criativa. Em outras palavras, uma sociedade modelo para o mundo muçulmano do século 21.
(Caryle Murphy é autora de "A Kingdom's Future: Saudi Arabia Through the Eyes of Its Twentysomethings". Sua viagem mais recente à Arábia Saudita foi financiada pelo Centro Pulitzer para Reportagens de Crise.)
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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