Obama chega ao Oriente Médio com a missão de restabelecer a confiança nos EUA
Caryle Murphy Os sauditas estão mais ameaçados por um ataque externo ou por agitação doméstica?
Quando o presidente Obama chegar aqui na sexta-feira (28), ele encontrará o principal produtor de petróleo do mundo incerto a respeito de sua direção interna, aturdido pelos levantes regionais e profundamente desiludido com a confiabilidade de Washington, seu antigo parceiro estratégico.
Nos últimos três anos, dissidentes, defensores de direitos humanos e críticos da corrupção –tanto islamitas quanto seculares– estão se manifestando cada vez mais, especialmente nas redes sociais. Um exemplo surpreendente ocorreu em julho do ano passado, quando uma declaração online contradisse a posição oficial saudita apoiando o golpe egípcio que derrubou o presidente Mohammed Mursi, condenando o golpe. Em resposta, o governo está se tornando cada vez mais repressivo, enviando ativistas conhecidos, como Abdullah al-Hamed e Mohammed al-Qahtani, os fundadores da Associação Saudita de Direitos Civis e Políticos, para a prisão por uma década. E em 7 de março, ele soltou uma bomba ao designar a Irmandade Muçulmana –que tem milhares de simpatizantes sauditas e raízes no reino que remontam a mais de 50 anos– como uma organização terrorista. A ordem também proibiu a discussão do ateísmo e muitas formas de expressão pública, incluindo declarações online. A resposta previsível foi medo. Cliques de mouse se espalharam pelo reino, enquanto os usuários do Twitter apagavam a imagem com quatro dedos representando apoio à Irmandade no Egito e aos seus seguidores mortos. Esses desdobramentos levantam uma questão justa, dadas as vendas recentes de armas americanas para a Arábia Saudita, no valor de mais de US$ 45 bilhões: a Arábia Saudita está mais ameaçada a longo prazo por um ataque militar externo ou por distúrbios domésticos? Washington prefere sussurrar suas críticas no ouvido do rei em vez de repreender publicamente sua aliada. Para o ativista islâmico Mohsen al-Awajy, isso sinaliza que "os americanos se importam com a família real e são muito ignorantes em relação ao povo saudita. Os direitos humanos estão no nível mais baixo na Arábia Saudita, mas eles não falam nada a respeito". Um cenário de pesadelo para Washington, que poderia provocar uma grande ruptura nas relações americano-sauditas, seria ter que escolher entre a família real e cidadãos rebeldes. Esse cenário não é improvável nos próximos anos. Mas seria tolice ser complacente. E para proteger seu futuro doméstico a longo prazo, o governo saudita precisa mais urgentemente tratar das questões que têm gerado principalmente muita conversa e pouca ação. Ele precisa refrear o status de acima da lei e as expectativas financeiras de uma família real crescente; substituir o senso de direito a benefícios, criado por um Estado de bem-estar social baseado no petróleo, por uma ética forte de trabalho; combater a corrupção e mobilizar a burocracia preguiçosa, indisciplinada, em reformas econômicas e educacionais que criem empregos em uma economia diversificada, competitiva globalmente. Finalmente, a monarquia absoluta da Arábia Saudita faria bem em prestar atenção a duas mensagens-chave dos levantes que sacudiram o Oriente Médio: transições às pressas de ditaduras para democracias superficiais geram caos e mais pesar para os habitantes da região, que já sofrem há muito tempo; e problemas com raízes profundas que não são resolvidos levam a consequências imprevisíveis. A Arábia Saudita deveria implantar o que ela, até o momento, se recusa até mesmo a contemplar: uma divisão de poder gradual e genuína com o povo. Isso não precisa ser uma democracia da forma como é praticada no Ocidente. Mas deveria permitir aos sauditas uma participação genuína na tomada de decisão transparente e a liberdade para construir uma sociedade civil independente, justa e criativa. Em outras palavras, uma sociedade modelo para o mundo muçulmano do século 21.
(Caryle Murphy é autora de "A Kingdom's Future: Saudi Arabia Through the Eyes of Its Twentysomethings". Sua viagem mais recente à Arábia Saudita foi financiada pelo Centro Pulitzer para Reportagens de Crise.)
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