Tomada da Crimeia traz de volta o linguajar da Guerra Fria
Alan Cowell- INYT A tomada da Crimeia trouxe de volta a velha imagem da Rússia como adversária, assim como pedidos de reforços ao longo do Reno.
Checkpoint Charlie. Cortina de Ferro. O Muro. Apenas antigos guerreiros da Guerra Fria ou fãs dos primeiros romances de Le Carré anseiam pelos tempos da divisão da Europa, quando torres de vigilância e arame farpado dividiam um continente e uma barreira de concreto separava esta cidade –cicatrizes da disputa entre Oriente e Ocidente.
Mas, os líderes do continente não têm a determinação, nem os meios, para retomarem uma batalha uma vez apoiada pela ameaça de destruição nuclear mutuamente assegurada. Apesar da Otan ter se expandido entre os países que já estiveram sob controle de Moscou, ela também reduziu as forças que antes mobilizava para enfrentar o Exército Vermelho. Em nenhum outro lugar isso é mais evidente do que na Alemanha, onde a presença de tropas ocidentais posicionadas para manter a paz e o status quo depois da Segunda Guerra Mundial caiu drasticamente. A redistribuição reduziu a presença militar norte-americana na Europa para 67 mil soldados, uma fração dos quase 280 mil militares do Exército dos Estados Unidos na Europa em 1962. As tropas britânicas, antes abrigadas de modo tão aconchegante que mantinham seu próprio clube de pesca nas colinas Eifel, têm uma grande redução de sua presença na Alemanha prevista para 2015 e uma retirada completa até 2020, como parte dos cortes de gastos em defesa. O número delas já caiu de 50 mil para 20 mil. Logo, o que poderia resultar da mais recente ameaça militar? "Os dinossauros da Guerra Fria que ainda circulam pelos corredores e colunas editoriais de Londres e Washington parecem quase ansiando pelas certezas viris de 1945-1989", escreveu o colunista Simon Jenkins, no jornal "The Guardian", de Londres. "A Rússia precisa 'pagar um alto preço' pela Crimeia, nem que apenas para que os guerreiros da Guerra Fria se sintam bem."
O cálculo pode ajudar a explicar por que a chanceler Angela Merkel está entre os líderes europeus mais cautelosos em formular uma resposta do Ocidente a Putin. Mais que a maioria, os alemães sabem por sua história dos riscos de desmanchar a colcha de retalhos de fronteiras que mantém o continente unido. Eles também estão cientes das sensibilidades legadas pelo choque de impérios, como se a Guerra Fria tivesse apenas colocado uma folha de parreira ideológica sobre uma disputa bem mais antiga. "Eu temo que a tentativa ilegal de alterar fronteiras reconhecidas em nossa vizinhança europeia 25 anos após o fim da Guerra Fria abrirá uma caixa de Pandora", disse o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier. Pode ser questionado se a conversa de uma nova Guerra Fria deveria ser uma surpresa após a série de disputas entre Moscou e o Ocidente, da prisão do grupo de protesto Pussy Riot até a guerra na Síria. Há quase sete anos, os reflexos da diplomacia da Guerra Fria ressurgiram após o assassinato em Londres do delator russo Alexander V. Litvinenko, que provocaram expulsões diplomáticas na mesma moeda, evocativas de uma era anterior. Depois, as autoridades britânicas, curvando-se ao poder financeiro e diplomático de Moscou, sufocaram a campanha da viúva dele por uma revelação pública completa das circunstâncias em torno da morte de Litvinenko –um triunfo da conveniência sobre a justiça. Esse pode ter sido o momento em que a determinação do Ocidente pareceu ceder. Segundo as leis das consequências indesejadas, o debate foi reaberto nesta semana, quando Donald Anderson, um legislador da Câmara Alta, disse que podia haver uma "centelha de plausibilidade" na noção de que o Reino Unido deveria evitar uma briga com a Rússia em torno do caso Litvinenko. Após a anexação da Crimeia, ele disse, "tudo isso se foi e agora a justiça deve ser feita".
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