Nossas limitações
João Bosco Leal*
João Bosco Leal*
Freud disse: "A morte é o alvo de tudo que vive"
e, portanto, ficar velho e cheio de rugas é o natural. É impossível ser
eternamente jovem, pois a vida passa a cada segundo; em poucas horas
mais um dia já se foi e que restou dele foram apenas lembranças, boas ou
ruins, mas só.
Assim,
não adianta mentir ou enganar-se com toques e retoques, pois a cada
instante estamos mesmo, cronologicamente, envelhecendo e isso vem
ocorrendo desde o nosso nascimento. O que sempre nos restará, é viver
cada dia e um futuro incerto, se houver.
Com
essa consciência, a virada de páginas ou fases é fundamental para que o
passado se torne apenas passado e não nos machuque com as dores que já
não poderão ser curadas e, por isso, devem ser deixadas em sua época.
Outro dia li algo hilário, mas bastante realista, de um homem que disse à sua esposa: "me use, estou acabando".
O mesmo ocorre com tudo o que estiver à nossa volta: estará acabando e
por isso devemos viver, intensamente, todas as nossas amizades, paixões,
amores e tudo o que for possível, pois também serão finitas.
Há
poucos dias, fiz uma viagem de moto de aproximadamente três mil e
quinhentos quilômetros entre a ida e a volta e, anos atrás, já havia
realizado outra em que, juntamente com minha esposa à época percorremos,
durante vinte e oito dias, praticamente o triplo desta distância por
quatro países.
Entretanto,
nesta, percebi nitidamente a diferença que fisicamente estes seis anos
entre uma e outra me provocaram. Fiz a primeira com uma disposição
incomparável em relação a esta. Agora, ao final de cada dia, estava
exausto e só queria chegar ao hotel, tomar um banho e dormir.
Lembro-me
perfeitamente que no último dia da primeira, percorremos duzentos
quilômetros a mais que o previsto só para concluí-la, pois estávamos com
disposição para tal e chegamos ainda bastante dispostos.
Em
uma rede social onde vinha postando fotos sobre a viagem que agora
realizava, li um comentário de minha filha sobre isso, dizendo que,
apesar de feliz por ver o pai fazendo o que gosta, estava com "o coração
na boca". Ela se referia ao fato de eu já haver sofrido um acidente de
moto que me levou a diversas cirurgias e para a cama por dois anos. Meu
filho também já fizera diversos comentários insinuando que eu certamente
poderia optar por um hobby menos arriscado.
Era
o que precisava para despertar em mim uma série de questionamentos
sobre aquela minha aventura. Meu tempo de viajar de moto acabara e eu
não havia reconhecido isto. Estava causando preocupações em meus filhos e
- tinha de reconhecer - meu corpo já não tinha a mesma destreza e
disposição quanto na viagem anterior.
Muitos
dizem que moto foi feita para cair, que é perigosa e etc..., mas nada
disso havia me chamado tanto a atenção como o fato de ver meus filhos
preocupados com a possibilidade da repetição de algo que já havia
ocorrido e que, realmente, havia sido difícil para todos nós.
Pensando
nisso, parei na maior cidade por onde estávamos passando e lá deixei
minha moto em consignação para venda, fazendo os mil quilômetros
restantes da viagem de avião. Foi uma decisão dolorosa, triste porque
gostava muito de viajar de moto, mas assim, virava uma página da vida
que eu não percebera que acabara e quando se escreve sua história em uma
página já finda, corre-se o risco de torná-la um rabisco
incompreensível para o próprio autor.
Reconhecer suas capacidades e limitações é o pré-requisito para a longevidade, a felicidade e a paz.
*Jornalista e empresário www.joaoboscoleal.com.br
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