sexta-feira, 16 de maio de 2014

Vândalos vetnamitas miram fábricas chinesas, mas atingem outros países 
Chau Doan e Thomas Fuller - NYT
VNExpress/AFPTrabalhadores vietnamitas queimam fábrica em Binh Duong, durante protesto contra instalação uma plataforma petrolífera chinesa em águas disputadas Trabalhadores vietnamitas queimam fábrica em Binh Duong, durante protesto contra instalação uma plataforma petrolífera chinesa em águas disputadas
As empresas estrangeiras no Vietnã passaram a quarta-feira (14) avaliando os danos às suas fábricas, após os protestos de milhares de trabalhadores vietnamitas em uma área industrial no sul do país.
Os distúrbios, os piores na história recente vietnamita e que ocorreram na noite de terça-feira, começaram como protestos pela instalação pela China de uma plataforma de petróleo em águas disputadas além da costa do Vietnã. Mas a situação saiu de controle e resultou em violência, e a grande maioria das fábricas danificadas era de propriedade de empresas de Taiwan e da Coreia do Sul, não da China.
"Foram muitos os estragos", disse Chen Bor-show, o diretor-geral do Escritório Econômico e Cultural de Taipé, em Ho Chi Minh, o consulado de fato de Taiwan na cidade. Chen disse que cerca de 200 empresas foram afetadas.
O "YTN", o canal de notícias sul-coreano, noticiou que cerca de 50 empresas sul-coreanas foram atacadas pela multidão. Cinco funcionários das fábricas ficaram levemente feridos e um foi hospitalizado com um ferimento na perna, noticiou o canal.
Cerca de 19 mil trabalhadores estiveram envolvidos nos protestos na terça-feira, disse Tran Van Nam, o vice-presidente da província de Binh Duong, onde ocorreu a violência. Ele foi citado pelo "VNExpress", um site de notícias online vietnamita.
A embaixada chinesa em Hanói emitiu uma nota na quarta-feira pedindo aos chineses que vivem no Vietnã que "evitem saídas desnecessárias". Um funcionário da Chutex Garment Factory, no norte de Ho Chi Minh, disse que entre 8 mil e 10 mil trabalhadores estiveram envolvidos no quebra-quebra em sua fábrica.
"Eles incendiaram o escritório", disse o funcionário, que concordou em falar apenas sob a condição de anonimato. Os manifestantes "botaram fogo em tudo, todos os materiais, computadores, máquinas". Unidades da polícia e dos bombeiros chegaram à fábrica e dispersaram os manifestantes, ele disse. Na quarta-feira, a polícia "capturou" entre 15 e 20 homens que tentavam saquear o local, ele disse.
A fábrica da Chutex, localizada no Parque Industrial Song Than 2, em Binh Duong, é descrito em seu site como uma das maiores exportadoras de peças de vestuário do Vietnã. A Chutex Intermational, sua proprietária, foi fundada por um executivo de vestuário de Taiwan. Não se sabe por que os manifestantes visaram uma fábrica ligada a Taiwan. Agências de notícias em Hong Kong disseram que pode ser que os trabalhadores não sabiam distinguir entre a China e Taiwan, uma ilha autônoma que também reivindica território no Mar do Sul da China.
O Ministério das Relações Exteriores de Taiwan condenou os distúrbios. Em uma declaração, ele pediu aos manifestantes que "tenham autocontrole, não se comportem irracionalmente, danifiquem equipamentos de fábricas taiwanesas ou ameacem a segurança de empresários taiwaneses, o que poderia prejudicar a disposição de Taiwan de investir e prejudicar as relações há muito amistosas entre os povos de Taiwan e do Vietnã".
A Yue Yuen, uma empresa com sede em Taiwan que fabrica muitos dos calçados vendidos com as marcas Nike e Adidas, disse ter dado o dia de folga aos seus funcionários nas fábricas no Vietnã na quarta-feira, e que está aguardando para decidir se as reabrirá na quinta-feira, apesar de suas fábricas não terem sido danificadas e nenhum de seus trabalhadores ter sido ferido. Jerry Shum, o chefe de relações dos investidores da empresa, disse que a Yue Yuen espera que a calma retorne rapidamente aos distritos industriais no Vietnã e acredita que ainda é possível atingir as metas de produção deste mês.
As ações da empresa, negociadas na bolsa de valores de Hong Kong, caíram 4,95% nos negócios de quarta-feira. A Yue Yuen produziu 313 milhões de pares de calçados no ano passado, um terço deles no Vietnã, e costuma ser descrita como a maior fabricante de calçados do mundo, apesar de não haver um ranking internacional oficial.
Uma reportagem na terça-feira no site do jornal estatal "Tuoi Tre" disse que centenas de trabalhadores de várias empresas realizaram um protesto na noite de segunda-feira, contra a decisão da China neste mês de instalar uma plataforma de petróleo em uma área disputada do Mar do Sul da China. A reportagem disse que os trabalhadores marcharam na direção do Parque Industrial Vietnã-Cingapura 1, também na província de Binh Duong, Essa reportagem, que não mencionava violência, permaneceu online na quarta-feira.
Uma declaração do Parque Industrial Vietnã-Cingapura, na quarta-feira, disse que os protestos contra a China tiveram início na segunda-feira e que, na terça-feira, os manifestantes "visaram" empresas de propriedade ou administradas por "chineses ou imigrantes chineses trabalhando para outras empresas".
Os manifestantes tacaram fogo em três fábricas, mas não houve vítimas, disse a declaração. "A polícia local estava presente e assumiu a segurança de ambos os parques industriais", disse a declaração.
Um artigo no "Phoenix News", um jornal de Hong Kong, citou uma empresária descrita apenas como Yan, que disse que a zona industrial onde ela trabalhava parecia um "campo de batalha". Os taiwaneses na área fugiram para os hotéis, ela disse.
Uma reportagem na terça-feira, no site do jornal estatal vietnamita "Thanh Nien", relatou que o número de trabalhadores protestando no parque era de 6 mil. Mas na manhã de quarta-feira, a reportagem aparentemente foi removida.
O Ministério das Relações Exteriores de Cingapura chamou o embaixador do Vietnã na quarta-feira e fez com que sua embaixada em Hanói e consulado em Ho Chi Minh contatassem as autoridades vietnamitas, pedindo ao governo do Vietnã que "restaure a ordem urgentemente". O ministério disse que os protestos ocorreram em dois parques industriais nos quais entidades com sede em Cingapura investiram e que "várias empresas estrangeiras foram invadidas e incendiadas".
O Parque Industrial Vietnã-Cingapura diz em seu site que conta com cinco áreas no Vietnã, duas delas em Binh Duong. Ele diz que os parques criaram coletivamente mais de 140 mil empregos locais e atraíram quase 500 "clientes", com US$ 6,4 bilhões em investimentos e US$ 8 bilhões em exportações. A empresa foi criada em 1996 como um empreendimento cooperativo dos governos vietnamita e cingapuriano.
Manifestações ocorrem esporadicamente no Vietnã, geralmente por supostas tomadas de terras por empresas com laços estreitos com o governo autoritário de partido único. Também ocorrem greves periódicas contra as condições de trabalho nos parques industriais de propriedade de estrangeiros. Mas manifestações envolvendo milhares de pessoas são raras.
Não estava claro na quarta-feira se a atividade em Binh Duong foi autorizada pelo Estado ou se a polícia local mantinha os manifestantes totalmente sob controle.
A enorme plataforma de petróleo da China fica a 225 quilômetros da costa do Vietnã  e a aproximadamente 27 quilômetros de uma pequena ilha reivindicada por ambos os países.
Embarcações vietnamitas e chinesas colidiram várias vezes perto da plataforma.
Nesta semana, o secretário de Estado americano, John Kerry, disse ao seu par chinês, o ministro das Relações Exteriores, Wang Ti,  que a "instalação de uma plataforma de petróleo e de várias embarcações do governo em águas disputadas com o Vietnã era uma provocação", segundo um representante do Departamento de Estado americano.
Em uma coletiva de imprensa na terça-feira, o representante chamou a instalação da plataforma de petróleo de "uma ação unilateral que parece ser parte de um padrão mais amplo de comportamento chinês para promover suas reinvidicações de áreas disputadas de uma forma que, no nosso entender, mina a paz e a estabilidade na região".
Mas a agência de notícias estatal chinesa,"Xinhua", contestou a versão do Departamento de Estado da conversa de Kerry na terça-feira.
"Na verdade, o secretário de Estado americano Kerry não fez esses comentários durante a conversa por telefone", uma porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Hua Chunying, foi citada como tendo dito. Ela disse que Kerry não usou a palavra "provocação".
A mensagem de Kerry, disse a agência de notícias, foi de que os Estados Unidos não tomariam partido na disputa.
Reportagem de Chau Doan, em Hanói, e Thomas Fuller, em Bancoc (Tailândia). Reportagem adicional de Keith Bradsher, em Hong Kong (China); Choe Sang-hun, em Seul (Coreia do Sul); Austin Ramzy, em Taipé (Taiwan); e Mike Ives, em Hanói. Bree Feng contribuiu com pesquisa em Pequim (China).
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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