quarta-feira, 30 de julho de 2014

Banco Central, dr. Jekyll e Mr. Hyde 
MARCELO CURADO - GAZETA DO POVO - PR 
A existência de coordenação na política econômica é um dos elementos mais importantes para uma boa gestão na área. Por exemplo, se o problema a ser enfrentado num determinado momento é o nível elevado de inflação, o Banco Central e o Ministério da Fazenda devem agir de modo coordenado para atingir esse objetivo. Numa situação como esta, cabe ao Banco Central reduzir a liquidez e ampliar a taxa de juros; e, ao Ministério da Fazenda, aplicar uma política fiscal contracionista, reduzindo, por exemplo, os gastos do governo.
Problemas de coordenação na gestão da política econômica não são raros no Brasil. Na gestão de Lula os conflitos entre as políticas mais conservadoras do Banco Central e a heterodoxia do Ministério da Fazenda foram amplamente relatados. No entanto, as medidas anunciadas pelo Banco Central, alterando as regras do depósito compulsório e para as reservas dos bancos, colocam o tema da coordenação da política econômica em outro patamar. Para entender o problema, é necessário regressar um pouco no tempo.
Entre julho de 2011 e abril de 2013, o Banco Central, mesmo num contexto de inflação acima do centro da meta, implementou uma política de redução da taxa de juros a qualquer preço. O resultado desse equívoco é bem conhecido. Hoje operamos com a inflação colada no teto da meta. A situação só não é pior em função da ingerência sobre os preços administrados. Em 2013, a variação de 5,91% no IPCA resultou de uma elevação de 7,3% nos chamados preços livres e de 1,52% nos preços monitorados.
Ao perceber o equívoco, o Banco Central mudou de rumo e passou novamente a executar uma política de aperto monetário através da ampliação da taxa Selic. A última ata do Comitê de Política Monetária evidencia a preocupação da instituição com a inflação e sua resistência à queda. Neste contexto, a ampliação da liquidez é uma medida equivocada sob vários ângulos de análise. O mais evidente é que, ao fazê-la, o BC age no sentido contrário da política de manutenção de um patamar elevado para a taxa Selic.
O Banco Central justifica que precisa estimular a atividade econômica por meio da ampliação do crédito. De fato, a medida pode ter um impacto positivo sobre as decisões de consumo, ampliando ainda mais o já temerário nível de endividamento das famílias. Acreditar que o problema do baixo investimento será solucionado com ampliações no crédito é outro equívoco. Não há falta de crédito para a realização de investimentos. O problema é de outra natureza. A expectativa de lucros dos empresários encontra-se deprimida, fruto da deterioração do estado de confiança geral da economia. Em grande medida, este cenário é o reflexo da confusa política econômica administrada pelo Banco Central, mas especialmente pelo Ministério da Fazenda na gestão Dilma.
Em última análise, a medida é mais um capítulo da infeliz gestão da política econômica de Dilma e o “samba de uma nota só” do estímulo à demanda. As medidas anunciadas colocam a discussão sobre coordenação da política econômica em outro patamar: o da incongruência das medidas tomadas pelo mesma instituição. Tal como no romance O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, o Banco Central assume uma espécie de dupla personalidade, ora buscando agradar àqueles que se preocupam com a inflação, ora preocupado em agradar àqueles que acreditam que falta demanda e que é necessário estimular os gastos no sistema. O resultado desta bipolaridade é o aumento da incerteza e a perda de credibilidade na gestão da política econômica.

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