quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Indústria da música na França teme "catástrofe cultural" após atentados
Michel Guerrin - Le Monde
Miguel Medina/AFP
29.nov.2015 - Pessoas deixam flores na entrada da casa de shows Bataclan, em Paris29.nov.2015 - Pessoas deixam flores na entrada da casa de shows Bataclan, em Paris
Desde os atentados de 13 de novembro, a cultura tem sido como um enfermo cuja temperatura precisa ser tirada todos os dias. Se o público está voltando a sair, é sinal de que ele pretende voltar a viver como antes. Se não está, é porque a indústria está ameaçada. Os médicos tentam se mostrar tranquilos. Museus, teatros e cinemas estão voltando a ter seus frequentadores. E os shows? Depende. Digamos que as casas que recebem subsídios estão se saindo muito melhor que as salas privadas, e a música clássica melhor que o rock.
Stéphane Lissiner, diretor da Ópera de Paris, explica: "O público que assistirá à 'Danação de Fausto' na Ópera em dezembro não tem nada a ver com aquele que vai ver um show de rock no La Cigale. As pessoas imaginam que a vítima dos atentados seja jovem, fã de rock. Vi no rosto dos jovens bailarinos da ópera, dos jovens cantores, dos jovens técnicos. Eles eram os mais marcados."
Marcado também estava o rosto dos membros do Prodiss que deram uma coletiva de imprensa no dia 24 de novembro, em Paris. Esse sindicato do setor musical reúne produtores de shows, diretores de salas e de festivais, muitos da cena do rock. Suas vozes eram graves, seus rostos pareciam emaciados e suas palavras eram hesitantes. Ou às vezes fortes. Como as de Angelo Gopee, que profetiza "uma catástrofe cultural", e explica: "Não para a minha produtora, mas para o setor musical na França". Angelo Gopee é diretor-geral do Live Nation France, que está produzindo os shows do U2 e da Madonna, em Bercy, no início de dezembro
Uma catástrofe? A explicação é que esse já é um setor traumatizado, que precisa ao mesmo tempo tranquilizar suas equipes e seu público. Além disso, as reservas para os próximos shows estão preocupantes, que tiveram 80% de queda durante a semana seguinte aos atentados, e 50% na segunda semana. Na segunda-feira (30) saberemos como será a terceira. "Vamos recuperar o atraso. Mas em quanto tempo? Ninguém sabe", diz Daniel Colling, diretor das salas Zénith de Paris e de Nantes.

Pais reticentes

Provavelmente demorará mais do que após os atentados de janeiro, o que complica para o Trans Musicales de Rennes, primeiro grande festival de rock pós-atentados, que acontecerá entre os dias 2 e 6 de dezembro. "Normalmente, as vendas estariam subindo neste momento; agora estão subindo, mas hesitantes", constata Béatrice Macé. "O Trans atrai muita gente entre 18 e 25 anos, cujos ingressos são pagos pelos pais, que devem estar reticentes", explica a diretora do festival.
Daniel Colling adora esses jovens de 18 a 25 anos e os conhece muito bem. É o público de rock mais dinâmico e o mais interessante também, "pois é a idade em que os gostos e as convicções estão sendo formados, em que as personalidades afirmam valores, se identificam com as bandas e as acompanham durante anos". Daniel Colling quer acreditar que vai conseguir segurar esses jovens. "Porque a vida sempre vence". Neste momento, ele está respondendo a vários e-mails de famílias com perguntas sobre a segurança de suas salas. Ele chegou a ir até Nantes para tranquilizar o público.

"Ameaçado de extinção"

Os diretores das casas de shows não pretendem colocar soldados armados na entrada, mas em compensação dobraram o pessoal de recepção, tornaram as revistas serão mais longas e instalaram detectores de metais. "Quem deve administrar, e como, 60 pessoas ou 600 que estão esperando do lado de fora?", diz Sébastien Vidal, diretor artístico do clube de jazz Le Duc des Lombards, em Paris. "Estamos dialogando com o departamento de polícia. Também estamos estudando o que fizeram países que enfrentam esse problema, como Israel."
Daniel Colling calculou que os agentes extras convocados para o Zénith de Paris desde os atentados e até o final do ano custarão 3.500 euros por show, ou seja, 140 mil euros (R$ 560 mil), que ele cobrará dos produtores que estão alugando sua sala. É algo que preocupa o Prodiss. Muitas empresas musicais não conseguirão absorver a queda da venda de ingresos, os cancelamentos de shows e o custo da segurança que deve ser instalada, por serem pequenas demais.
Dos 350 membros do Prodiss, 75% possuem um faturamento inferior a 1 milhão de euros. Somente 6% dos shows na França em um ano ocorreram em uma casa com mais de 1.500 lugares. Angelo Gopee acrescenta que "60% das receitas com bilheteria para 2014 vieram de casas com menos de 200 lugares". Além disso, o mês de dezembro poderá ser devagar, sendo que em geral ele costuma ser rentável, uma vez que "30% dos ingressos do ano são vendidos como presente de Natal", diz Angelo Gopee.
Centenas de produtores ou donos de pequenas casas criam à sua maneira uma vida cultural intensa. Eles dão chances a jovens artistas e revelam novos nomes. É essa rede do território que está "ameaçada de extinção", segundo Sébastien Vidal, que, além do Duc des Lombards produz também o festival de jazz de Nice, e que a cada ano dá trabalho a 1.200 músicos. Até Angelo Gopee concorda: se não ajudarmos esas pequenas salas, estaremos nos encaminando para uma "catástrofe".
Segundo o Prodiss, é preciso injetar 50 milhões de euros (R$ 200 milhões) no setor musical para que ele consiga escapar da tormenta. O número, pronunciado tão próximo dos atentados, provoca constrangimento mesmo entre aqueles que o formularam. Além disso, o Prodiss considera criar um fundo de ajuda às vítimas, que receberia um euro de cada ingresso de show vendido até dezembro.
No entanto, deveriam esperar até o fim do ano para fazer as contas, pois além de ser pouco provável que o Estado pague a conta, estamos diante de um setor musical que já parece doente há muito tempo, está enlutado há pouco e tentando salvar sua pele em silêncio.
Homenagens pelo mundo às vítimas dos atentados em Paris, na França
27.nov.2015 - Sutiãs com as cores da bandeira francesa são colocados em uma varanda em Marselha, França. O presidente francês, François Hollande, pediu aos cidadãos do país que coloquem bandeiras francesas na frente de suas casas para prestar homenagem às vítimas dos atentados da sexta-feira 13 - Jean-Paul Pelissier/Reuters

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