Rodrigo Constantino
“Os riscos da incompetência privada são limitados; os erros da incompetência pública, ilimitados.” (Roberto Campos)
Nós, brasileiros, vimos atônitos os
infindáveis escândalos envolvendo as empresas estatais nos últimos anos.
O “mensalão” teve começo com um caso de propina nos Correios, o
“petrolão” tinha naturalmente a Petrobrás como vítima e o BNDES, Banco
do Brasil e Caixa não ficaram imunes ao que o ministro Celso de Mello,
do STF, chamou de “formação de quadrilha” no seio do Estado brasileiro
na era lulopetista.
Mas será que o choque deveria ser tão
grande? Será que o abuso das empresas administradas pelo Estado é algo
inesperado, raro? Talvez a magnitude do esquema, a ousadia dos corruptos
e o alastramento da podridão possam assustar mesmo, mas não a essência
do problema. Ao menos não para quem esteja familiarizado com o
pensamento liberal, que teve em Roberto Campos um de seus maiores ícones
no Brasil.
Campos comprou essa briga décadas atrás,
praticamente sozinho no meio político, e o próprio termo pejorativo
“Petrossauro”, que cunhou para se referir à então idolatrada Petrobrás,
demonstra como ele já imaginava o potencial estrago com a empresa
gigantesca e paquidérmica nas mãos dos políticos. Enquanto quase todos
gritavam “o petróleo é nosso!”, Campos argumentava com lógica contra o
fetiche do nacionalismo estatizante. O tempo mostrou quem estava certo.
A revolta com os falsos nacionalistas
foi uma constante na vida de Campos. Entre os principais motivos, estava
justamente a criação da Petrobrás. Ele sempre defendeu a competição no
setor, por meio de empresas privadas, inclusive as de capital
estrangeiro. De onde vinha o dinheiro não o preocupava, mas sim ter uma
produção abundante do importante produto para beneficiar nossa
indústria. Eis o modelo americano, país onde o petróleo não poderia ser
mais estratégico!
Mas os devaneios nacionalistas falaram
sempre mais alto do que a lógica, e um monopólio estatal foi criado, com
enormes custos para a população, muitas vezes ignorados pela visão
míope que olha apenas um lado da moeda e se esquece dos custos de
oportunidade. Recordes de produção eram festejados sempre com muita
fanfarra, sem entrar no raciocínio de como seria com várias empresas
privadas competindo. Tanto Getúlio Vargas como Lula se deixaram
fotografar com as mãos sujas do “ouro negro”, em atos claramente
populistas. O populismo tem longa história em nosso país.
Por conta dessa briga intelectual que
comprou com os nacionalistas da esquerda e da direita, Campos foi
apelidado de “Bob Fields” e acusado de ser um “entreguista”. No fundo,
ele tinha apenas mais conhecimento econômico, um mapa de fundo teórico
infinitamente mais embasado e estava do lado certo da história, como o
sucesso das privatizações iniciadas por Margaret Thatcher comprova. Ele
sabia que o Estado jamais consegue ser um bom empresário, por conta dos
incentivos perversos em jogo. Cabe à iniciativa privada, num ambiente de
livre concorrência, liderar o progresso da nação.
Seu entendimento acerca do mercado era
preciso, e até hoje vemos que muitos ainda não foram capazes de
compreender tal conceito. O mercado “é apenas o lugar em que as pessoas
transacionam livremente entre si”, o que não é pouco, “porque no seu
espaço a interação competitiva entre os agentes econômicos equivale a um
plebiscito ininterrupto”. Os agentes podem rever a todo o momento suas
escolhas, assim como a medição quantitativa de suas preferências lhes
permite o cálculo racional. Os socialistas jamais assimilaram este fato.
Campos era mestre no poder de síntese:
“No meu dicionário, ‘socialista’ é o cara que alardeia intenções e
dispensa resultados, adora ser generoso com o dinheiro alheio, e prega
igualdade social, mas se considera mais igual que os outros”. Eles
sempre souberam “chacoalhar as árvores para apanhar no chão os frutos”. O
que não sabem é plantá-las. Nas suas palavras, “os esquerdistas,
contumazes idólatras do fracasso, recusam-se a admitir que as riquezas
são criadas pela diligência dos indivíduos e não pela clarividência do
Estado”.
A “mão invisível” de Adam Smith faz seu
“milagre” por meio do livre mercado porque cada indivíduo busca o que é
melhor para si, mas, nesse processo, precisa colocar o foco no outro,
nos clientes. O lucro advém do sucesso em atender bem a demanda, quando
não há privilégios ou subsídios estatais em jogo. As empresas privadas
buscam incessantemente a excelência para sobreviver e prosperar,
cortando custos desnecessários e investindo em produtividade. Os
funcionários mais competentes são promovidos, enquanto os ineficientes
são demitidos. O escrutínio dos sócios do capital garante esse
mecanismo, enquanto, nas estatais, o dinheiro é da “viúva”, ou seja, é
de todos, o mesmo que não ser de ninguém.
Mas nada disso era bem compreendido
pelos adversários de Campos, o que o deixava frustrado, pregando no
deserto. Acusavam o tal “neoliberalismo” pelos males que assolam nosso
país. O completo afastamento do modelo liberal, não obstante seu uso
como bode expiatório, era profundamente lamentado por Campos. Em sua
opinião, “o que certamente nunca houve no Brasil foi um choque liberal”.
O liberalismo econômico e o capitalismo não fracassaram na América
Latina, “apenas não deram o ar de sua graça”. Em resumo, “o Brasil está
tão distante do liberalismo – novo ou velho – como o planeta Terra da
constelação da Ursa Maior!”.
Roberto Campos foi um defensor do livre
mercado, das privatizações, do capitalismo, do império das leis
objetivas. Combateu o nacionalismo retrógrado, o planejamento estatal,
os impostos elevados e progressivos, a burocracia asfixiante, a
concentração de poder, o socialismo em geral. Viveu a angústia de ver as
ideias racionais serem desprezadas por políticos presos em uma
mentalidade ultrapassada, que chegou a parir um absurdo como a Lei da
Informática, criando reserva de mercado para produtores incompetentes e
condenando o Brasil ao atraso tecnológico. Lamentou, enquanto muitos
vibravam, a Constituição “besteirol” de 1988, que oferecia garantias
irrealistas, promessas utópicas, plantando as sementes das desgraças que
se seguiram.
Sofreu com as imensas oportunidades
perdidas, que mantiveram o Brasil longe de realizar seu potencial.
Poderia ser um tigre, mas agia como uma anta. E foi praticamente uma voz
isolada e abafada por um uníssono ensurdecedor de ideias esquerdistas.
Como ele mesmo reconheceu, “admitir o ‘liberalismo explícito’, num país
de cultura dirigista, é coisa tão esquisita como praticar sexo explícito
em público; não dá cadeia, mas gera patrulhamento ideológico”.
Infelizmente, muito pouco mudou desde
então. Na verdade, mudou: praticar sexo explícito em público passou a
ser visto como “moderninho” e “progressista”.
* Ensaio para o livro Lanterna na Proa, organizado por Paulo Rabello de Castro e Ives Gandra Martins em homenagem ao centenário de Roberto Campos.
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