quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Escândalos e Judiciário ativo revelam boicote das instituições
O sucesso de Michel Temer para barrar a segunda denúncia criminal contra ele é apenas uma parte da história de como a Câmara dos Deputados definiu o futuro do país na sessão desta quarta (25).
As batalhas para definir os vencedores e derrotados de cada novo escândalo têm deixado marcas na política nacional com o potencial de entregar uma terra arrasada para as eleições de 2018.
De um lado defendeu-se uma versão extrema de um golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff e de outro lado uma versão de que o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot perseguiu Temer de maneira delinquente e irresponsável.
Nos dois discursos há uma tentativa de enfraquecer as instituições, de retirá-las da história para tentar convencer o público de que a política brasileira não é nada mais do que uma guerra aberta, disfarçada de Estado Democrático de Direito.
Ao insistirem que não há regras e instituições para mediar os conflitos entre as diferentes visões de mundo na sociedade, reforçam a percepção de que todos partilham dessa premissa e que, portanto, o mais racional seria a cada grupo assegurar sua sobrevivência no curtíssimo prazo, sem se importar com os demais.
Ao profetizarem o colapso das instituições, nossos parlamentares se tornam protagonistas desse processo.
Se os agentes políticos optam em peso por não respeitar e valorizar as instituições e suas regras, não há ambiente mínimo para estabelecer a cooperação competitiva que caracteriza regimes democráticos saudáveis.
Fora desse ambiente, vencidos não têm motivo para respeitar sua derrota, tendo incentivos para obter os fins desejados por outros meios: manipulação ou força bruta. Essas são ideias correntes na literatura democrática.
Essa política de terra arrasada não começou e nem termina na votação sobre a segunda denúncia contra Temer. É um processo em curso há anos, no qual o Supremo Tribunal Federal também teve contribuição crucial.
Em meio à crise política, o Supremo optou por flexibilizar regras existentes ou simplesmente criar novas para gerenciar situações excepcionais.
A cada passo dado nesse sentido se resolvia o problema do dia para sacrificar o respeito às regras, aos precedentes, à isonomia e à consistência no futuro. Com isso, o Supremo se tornou artífice da derrocada de sua própria autoridade ao longo dos casos Delcídio do Amaral, Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Luiz Inácio Lula da Silva, Moreira Franco, Aécio Neves, dentre outros.
Dizer que se trata de uma crise institucional não é exatamente equivocado, mas enganoso. A crise é de sabotagem das instituições e foi executada por um Executivo e Legislativo envolvidos profundamente em escândalos de corrupção e um Judiciário que optou por participar do conflito político ao invés de preservar a integridade das regras existentes para tanto.
Os principais agentes da República se abraçaram em uma espiral descendente, insistindo em enfraquecer a cada dia, com atos e palavras, as instituições.
Nesse dilema não há solução heroica, revolucionária ou implementável da noite para o dia. A única saída possível depende um pacto de reformas lentas e graduais.

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