quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Grupo de jovens revela decepção com falta de mudanças no Marrocos
Javier Casqueiro - El País 
Abdelhak Senna/AFP
Protestos tomaram as ruas de Rabat em fevereiro de 2011, em plena Primavera Árabe Protestos tomaram as ruas de Rabat em fevereiro de 2011, em plena Primavera Árabe
A última sexta-feira foi o quarto aniversário da explosão no Marrocos do movimento estudantil 20-F, que provocou com seus protestos de rua, em plena erupção da Primavera Árabe, uma convulsão inédita no país, a ponto de o rei Mohamed 6º anunciar uma ampla reforma da Constituição, já aprovada. Na sexta-feira não houve comemorações especiais na imprensa sobre o 20-F. O coletivo está desaparecido, exilado ou preso. Os meios de comunicação deram mais atenção, investigação e interesse ao fenômeno do Podemos na Espanha. Cerca de 50 jovens da elite de Rabat contaram a "El País" os motivos de sua decepção: têm medo de represálias se expressarem suas ideias e lamentam um retrocesso diante da crescente presença da religião no país.
Foi difícil começar a conversar com os membros do último ano do Colégio Espanhol de Rabat. E não por timidez. São cerca de 50 rapazes e garotas entre 17 e 18 anos, de uma escola que educa com os parâmetros, os professores e o sistema espanhol os filhos das classes dirigentes do Marrocos, prestes a darem o salto para a universidade e de votar nas eleições do ano que vem. Eles são preparados, falam idiomas e têm certo orgulho de classe.
Leila Hamed é das mais extrovertidas e claras. Mas depois suas mesmas críticas são repetidas de maneira quase enojada com o panorama atual por Omar Taoufik, Salim Khayat, Wail Boubekri e Lina Benamar.
O movimento 20-F já não diz nada para eles. Argumentam que foi inclusive uma iniciativa patrocinada pelas autoridades para apaziguar os ânimos exaltados naqueles dias e controlar melhor as manifestações. Abominam os meios de comunicação tradicionais marroquinos, porque estão controlados e não contribuem com relevância a seus debates, e recomendam o uso das redes sociais para inteirar-se de como canalizam hoje suas inquietações.
Estão muito mais a par do que propõe o Podemos, partido espanhol que é acompanhado com muita vigilância pelas autoridades no Marrocos devido a suas teses próximas da Frente Polisário sobre o Saara e por suas ideias de acabar com as cercas em Ceuta e Melilla, como se refletiu na última capa e ampla cobertura interna da revista "L'Observateur".
Na mesma sexta-feira, Abdellah Tourabi, diretor do semanário "Telquel", o de mais prestígio do Marrocos, censurava os partidos estabelecidos por, quatro anos depois, não terem sabido integrar essa nova seiva que apareceu com o 20-F em suas estruturas, para refrescar sua própria casta antiquada.
Os jovens do instituto espanhol resumem seu mal-estar atual com o país no fato de que as reformas então anunciadas, ao calor do 20-F, mas também da instabilidade dos países vizinhos, foram freadas e provocaram um parêntese estranho. "Nós temos preparo, sabemos pensar, não temos que assumir tudo o que nos dizem oficialmente, mas nos falta muito espírito crítico", queixa-se Lina. Não estão indignados nem aglutinados em um coletivo ou partido. Pensam em saídas individuais. Alguns professores universitários marroquinos admitiram que esse mesmo ambiente inconformista da juventude marroquina os surpreende neste momento em suas aulas.
Seus companheiros o assumem sem pudor, e Omar, Wail e Salim admitem também que, para eles, é mais fácil expressar seus anseios para colegas espanhóis e outros amigos estrangeiros do que para qualquer um em seu país: por medo. "Aqui, se você disser algo que possa não ser adequado, não se sabe o que pode lhe acontecer e aos seus amigos", confessam vários deles. Esse clima transmite a eles uma opressão que leva a maioria a afirmar que seu sonho é emigrar, para trabalhar e viver. Alguns, entretanto, explicam que pretendem continuar vivendo em seu país e assim ajudar em seu desenvolvimento.
Reconhecem que também não podem manter esse tipo de conversa em geral com seus pais em casa, porque não os entendem e porque confiam mais em sua própria fé. "No Marrocos, temos um problema com a religião, está cada vez mais presente e contamina tudo." Referem-se assim aos retrocessos em alguns aspectos das liberdades, aos progressos nulos em relação ao aborto clandestino, às maiores restrições, por exemplo, na venda oficial de álcool ou à situação das mulheres e o maior uso do véu no dia a dia.
"Mas você, Wail, cumpre os preceitos do Ramadã?"
"Bem, essa é outra história, que se refere à minha vida privada."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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