Alberto Nisman, morto em Buenos Aires
Nisman
tinha se convertido numa pedra no sapato do debilitado governo de
Cristina Kirchner, ao denunciá-la como cúmplice na tentativa de
encobrimento dos iranianos responsáveis pelo atentado contra a sede da
AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), ocorrido em Buenos Aires
em 1994, e que vitimou 85 pessoas, tendo deixado 300 feridos.
O
atentado, ao que tudo consta, foi uma vingança do governo dos aiatolás,
pelo fato de a Argentina ter suspendido na época o acordo de
transferência de tecnologia nuclear ao Irã. Nisman e a sua equipe
investigaram durante dez anos esse ato terrorista e chegaram à seguinte
conclusão: o governo de Cristina Kirchner decidiu acobertar os
terroristas iranianos responsáveis pelo crime, em decorrência de um
pacto negociado com o Irã, que traria benefícios econômicos para a
Argentina. O governo dos aiatolás ofereceria petróleo em troca de
cereais que a Argentina exportaria para aquele país. A opinião pública
argentina não engoliu as esfarrapadas razões da presidente divulgadas
pelas redes sociais, segundo as quais Nisman teria sido assassinado por
membros descontentes do serviço secreto argentino, que estariam
interessados em desestabilizar o governo da presidente. Isso após ela
ter afirmado, imediatamente depois de ter aparecido o cadáver de Nisman,
que o promotor tinha se suicidado.
As vítimas
imediatas das trapalhadas do governo argentino foram duas: a verdade e a
democracia. Ficou claro o descontento da opinião pública no comovido
discurso que um amigo do promotor, o filósofo Santiago Kovadloff,
pronunciou durante o enterro de Nisman e que foi publicado pelo jornal La Nación:
“Não
podemos estar bem porque ser testemunha e participante, ao mesmo tempo,
desta atmosfera e desta tragédia e ter 72 anos, como tenho eu, é estar
abrumado por uma eternidade neste dia em que a Argentina vive à mercê do
delito, com instituições frágeis e que nos impedem sentir que o país
tenha aprendido com a experiência. A sensação de insegurança, não apenas
do risco da individualidade, mas a orfandade de um país, e a
incapacidade que temos de aprender com a experiência. Tudo isso gera uma
atmosfera que vai unida à persistência que temos e que devemos ter e
que a dignidade nos exige. Mas ficamos entregues a uma sensação de
perda, de repetição infinita. Não me sinto bem. A Argentina não tem
rumo”.
Gozado como as palavras de Kovadloff poderiam ser repetidas, ipsis litteris,
pelos brasileiros que assistimos, inermes, aos desdobramentos do samba
do Petrolão, nessas idas e vindas de delações premiadas e de prisões de
empresários e funcionários públicos corruptos. Após o Mensalão,
pensávamos que já tínhamos visto os capítulos mais fortes desse BBB de
safadezas em que se converteu a política do nosso país, desgovernado
nestes doze anos de domínio petralha. Mas não. Sempre tem uma nova
história cabeluda a ser revelada, num crescendo macabro que aumenta de
cadência, como a batucada de caveiras e esqueletos que genialmente
Saint-Saëns conseguiu inserir na sua magnífica composição. […]
Nem tudo
está perdido. Temos, como na Argentina, funcionários públicos
irreprocháveis que cumprem a contento com a sua missão. Lembro dois
dignos magistrados: o ministro Joaquim Barbosa, que conseguiu levar o
julgamento do Mensalão a bom termo, e o juiz Sérgio Moro que, em
Curitiba, brilha na sua luta por desvendar todos os segredos do
Petrolão, em que pesem as ameaças de que tem sido objeto. São estrelas
que se alçam nesse breu de incertezas e de sordidez em que os populismos
fizeram chafurdar a democracia no Brasil e na Argentina. No país
vizinho, em que pesem as frustrações e as angústias do momento, brilham
as luzes do promotor Nisman e dos seus colaboradores. […]
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