quarta-feira, 22 de abril de 2015

Nos EUA, republicanos querem parecer líderes, Hillary quer parecer normal
Patrick Healy - NYT
Rick Wilking/Reuters
De um lado está um monte de republicanos tentando parecer presidencial. Do outro lado, está uma única democrata tentando parecer normal.
Há o senador Marco Rubio, republicano da Flórida, buscando parecer estadista em um comício, ao ingressar na corrida à Casa Branca em 2016. Há o governador de Wisconsin, Scott Walker, outro provável pré-candidato republicano, liderando uma missão comercial à Alemanha, França e Espanha. O senador Rand Paul de Kentucky vinha de uma viagem a cinco Estados em um jato fretado para iniciar sua campanha, e o ex-governador da Flórida, Jeb Bush, esteve no Estado de Ohio para apresentar sua agenda econômica para os líderes empresariais.
E há a democrata, Hillary Rodham Clinton, que caiu na estrada para se aproximar do eleitor, pedindo um burrito de frango em um Chipotle, em Toledo, Ohio.
Confiante de que seu domínio do palco mundial é conhecido –ei, sr. Walker, eu já visitei 112 países como secretária de Estado; me avise quando chegar a Togo– Clinton usou seu anúncio por vídeo para se posicionar como apenas uma dentre muitos americanos (mães, famílias, trabalhadores de fábricas, noivos gays) que se preparam para grandes mudanças. Com seus temas progressistas e uma lista de etnias, o vídeo parecia uma propaganda da Allstate vendendo seguro antirrepublicano.
Naquele dia, Clinton também tomou uma van para Iowa, fazendo paradas não anunciadas como uma americana comum, na esperança de impressionar (e, tomara, não assustar) outros viajantes com seu lado repentinamente acessível.
Não foi uma viagem típica americana: agentes do Serviço Secreto estavam dirigindo, dois assessores estavam onde Bill e Chelsea poderiam estar, e presumivelmente ninguém perguntou: "Já estamos chegando?" ou exigiu assistir a um DVD da Disney.
Então, em Iowa, Clinton realizou uma mesa redonda discreta com estudantes de uma faculdade comunitária para discutir seus futuros e esperanças, a certa altura demonstrando empatia por uma mulher jovem, que disse que sua irmã inválida se beneficiária de ensino o ano todo. A sugestão de Clinton de que apoiaria uma emenda constitucional para reforma do financiamento de campanha pareceu quase espontânea em comparação a suas tentativas de aproximação com os estudantes.
O surgimento da Hillary popular e de republicanos prontos para liderar claramente sinaliza o início das Primárias de Percepção, nas quais os candidatos buscam apagar seus lados negativos e persuadir os eleitores a vê-los de modo diferente.
"A sra. Clinton sabe que sua imagem é de elite, indiferente e desconectada do eleitor comum, enquanto republicanos como Rubio, Walker e Paul sabem que são vistos como não testados e não prontos para o topo", disse Richard Talef, o fundador da Log Cabin Republicans, um grupo de defesa gay e consultor de políticas públicas para grupos sem fins lucrativos. "A ironia é que cada lado está tentando fingir ser o outro. Os Clintons dinásticos estão fingindo ser pessoas comuns, enquanto os republicanos comuns estão fingindo ser poderosos líderes mundiais."
Steve Elmendorf, um estrategista democrata, disse que os pré-candidatos republicanos precisam superar o maior obstáculo para uma candidatura presidencial: "Convencer os eleitores de que estão à altura do cargo".
Ele acredita que Clinton já superou esse teste, dado seu retrospecto e experiência, e agora precisa se concentrar em sua conexão com as pessoas.
"O desafio dela é parecer menos presidencial e voltar a atenção dos eleitores à sua mensagem a respeito da economia da classe média", disse Elmendorf.
Mas a percepção pode afetar de modo diferente: o risco para todos os candidatos é poderem parecer falsos, dado que os eleitores contam com muita experiência em farejar a verdade nos políticos.
Mitt Romney buscou se conectar com amplos setores de americanos durante suas campanhas presidenciais de 2008 e 2012, mas muitos eleitores passaram a vê-lo como um homem rico com políticas que visavam ajudar pessoas como ele. Al Gore tentou adotar tons mais mundanos na esperança de atrair mais eleitores em 2000, enquanto Michael S. Dukakis, o estudioso dos estudiosos, quis parecer durão em questões de defesa ao andar em um tanque.
Clinton planeja evitar as cidades de Iowa em sua viagem inaugural de campanha nesta semana, se concentrando em cafés, campi satélite de faculdades comunitárias e empresas de propriedade familiar.
Apesar de Clinton contar no momento com todos os holofotes no campo democrata, uma dúzia de republicanos está disputando por atenção e buscando formas de serem levados a sério.
Rubio, em seu discurso inaugural buscou soar presidencial ao tocar em assuntos domésticos (impostos) e externos (o apoio a Israel). Mas ele também emoldurou suas aspirações à Casa Branca em torno de si mesmo –com muitas referências a "eu", "meu", "minha"– e não em torno dos americanos comuns, como Clinton fez em seu vídeo. Ele foi profundamente pessoal apenas ao falar de seus pais imigrantes, apesar de ter evitado qualquer discussão real sobre o sistema de imigração do país (que já o transformou em alvo da ira dos conservadores, quando tentou consertá-lo com um plano abrangente).
Rubio e a maioria de seus rivais republicanos estarão em New Hampshire neste fim de semana para um encontro estadual do partido, se misturando com grupos de autoridades eleitas e ativistas do partido para defender suas candidaturas. Até o momento, nenhum candidato se destacou acima dos demais.
"Minha cabeça me diz que Jeb Bush é o único republicano que parece presidencial a esta altura, mas meu coração hesita um pouco", disse Barry Wynn, um grande doador republicano da Carolina do Sul. "Eu ouvi algumas pessoas dizerem que quando escutam Bush pessoalmente, ele passa a imagem de presidencial. Mas ele e outros republicanos precisam melhorar caso queiram derrotar Hillary e sua mensagem 'eu sou como vocês'."

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