William F. Laurance - TINYT
Bruno Kelly/Reuters
Se você quiser entender como os economistas e os ecologistas veem o
mundo de modo diferente, basta lhes perguntar sobre as estradas. Muitos
economistas adoram as estradas; eles as consideram uma das maneiras mais
eficientes em relação ao custo de incentivar o crescimento econômico e
fornecer benefícios sociais. Mas as estradas realmente assustam os
ecologistas - especialmente as que penetram regiões silvestres, reservas
naturais e remanescentes de ecossistemas raros. Por quê? Nessas
circunstâncias, as estradas muitas vezes abrem uma caixa de Pandora de
problemas ambientais.
Na Amazônia, 95% de toda a destruição da floresta ocorrem no raio de 5 quilômetros de uma estrada. A rodovia BR-163, que corta o coração da Amazônia, é visível à noite - até da Lua - como uma faixa de milhares de quilômetros de incêndios na floresta. Na bacia do Congo, um surto de construção de estradas por madeireiras industriais promoveu inadvertidamente um influxo maciço de caçadores e uma chacina épica de elefantes da floresta, mortos por suas valiosas presas de marfim. Na última década, dois terços de todos os elefantes das florestas foram capturados ou mortos a tiros.
As estradas são apenas uma parte do problema. Para qualquer lugar que se olhe, novas infraestruturas proliferam nos últimos lugares naturais da Terra, muitas vezes provocando sérios danos ambientais. A barragem de Balbina, no Brasil, inundou 240 mil hectares de floresta tropical - uma área maior que Buenos Aires. Há planos de construção de outras 150 grandes represas na Amazônia - cada uma das quais inundará grandes extensões de floresta e exigirá novas redes de estradas para a construção das barragens e das linhas de energia.
Pelo menos igualmente assustadora do ponto de vista ambiental é a avalanche contemporânea de projetos de mineração e extração de combustível fóssil. A África experimenta atualmente um frenesi de investimentos estrangeiros em mineração; somente a China despeja mais de US$ 100 bilhões por ano em projetos de mineração no continente. Investidores da Índia, do Brasil, do Canadá e da Austrália não ficam longe. Entre outras coisas, esses investimentos fornecem um impulso econômico vital para 29 grandes "corredores de desenvolvimento" que vão cortar a África subsaariana, abrindo muitas áreas virgens e semivirgens a uma série de novas pressões humanas.
Mas muitos economistas aplaudiriam essas tendências. O mundo em desenvolvimento está simplesmente se desenvolvendo, dizem eles, e devemos apoiá-lo. A recente promessa das nações mais ricas do mundo, o G-20, de investir incríveis US$ 60 a 70 trilhões em novas infraestruturas em todo o mundo nos próximos 15 anos - mais que duplicando o valor líquido da infraestrutura global - simplesmente reflete uma nova ordem mundial emergente.
Mas é realmente tão simples? Eu diria que vamos enfrentar muitas opções difíceis pela frente, e que os custos da explosão de infraestrutura em muitos casos irão superar suas vantagens. Por um lado, os benefícios da nova infraestrutura muitas vezes não têm distribuição equitativa. Alguns ficam fabulosamente ricos com esses projetos e muitos outros são deixados para trás. O influxo de capital estrangeiro para projetos de infraestrutura muitas vezes alimenta a inflação, que impacta de modo desproporcional os "homens comuns" que lutam apenas para sobreviver. No Panamá, por exemplo, a atualização de US$ 6 bilhões do Canal do Panamá enriqueceu alguns, mas deixou muitos lutando para pagar o aluguel ou colocar comida sobre a mesa.
Também há muitos custos escondidos nos megadesenvolvimentos em áreas selvagens e semisselvagens. A biodiversidade pode sofrer muito, a poluição do ar e da água pode disparar e as emissões de gases do efeito estufa aumentam. Basta tentar respirar o ar sufocante no Sudeste Asiático ou no leste da China ou na Amazônia durante a temporada de queimadas para ver como as pessoas sofrem um sério impacto. Em Sumatra, Indonésia, mais de 50 mil pessoas tiveram de ser tratadas de problemas respiratórios no ano passado, e mais de 200 escolas foram fechadas.
Não é fácil deter esse tsunami moderno. Os defensores dos grandes projetos de infraestrutura muitas vezes são poderosos, ricos e têm conexões políticas. Em 2002, quase fui expulso do Brasil por afirmar que o programa "Avança Brasil", do governo - um esquema de US$ 40 bilhões para recortar a Amazônia com dezenas de novas estradas, barragens, linhas de transmissão, gasodutos e outras obras de infraestrutura -, teria enormes custos ambientais. Mesmo depois de depor diante do Congresso brasileiro, fui tão atacado pelos defensores do projeto que a "Folha de S.Paulo", o principal jornal do Brasil, finalmente se manifestou: "Basta - parem de tentar matar o mensageiro".
O que alarma muitos dos que se preocupam com a explosão do desenvolvimento é a mera magnitude da ilegalidade envolvida. Na Amazônia brasileira, por exemplo, minha equipe de pesquisa descobriu que para cada quilômetro de estrada legal havia 3 quilômetros de estradas ilegais. A competição é galopante. Redes de madeireiros ilegais - envolvendo centenas de milhões de dólares em madeira roubada - foram identificadas e em alguns casos, presos. Licitações fraudadas, propinas e comissões são comuns nos projetos de barragens e energia da Amazônia. Em 2005, a freira americana Dorothy Stang foi assassinada por dois pistoleiros contratados, por defender o meio ambiente e os pequenos proprietários de terra que eram contra os barões do gado que roubam as terras. Stang é apenas uma de centenas de mártires ambientais que morreram em todo o mundo nos últimos anos.
Mas outra tendência assustadora foi o crescimento incrível do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB na sigla em inglês), dominado pelos chineses, e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil (BNDES). Depois de anos de críticas, os grandes bancos de desenvolvimento - como o Banco Mundial e os Bancos de Desenvolvimento Asiático, Africano e Interamericano - incorporaram gradualmente uma série de salvaguardas ambientais e sociais. Estas estão longe de perfeitas, mas certamente são melhores que nada. Mas o AIIB e o BNDES dão muito menos ênfase a essas salvaguardas. Sua voracidade tornou-se um grande fator de mudança de jogo para a infraestrutura global.
Quais são as soluções? Para começar, acho que precisamos urgentemente identificar os projetos mais danosos em todo o mundo e fazer uma pressão real para detê-los. No alto de minha lista pessoal está Ladia Galaska - uma rede de estradas de 400 quilômetros no norte de Sumatra, na Indonésia, que abrirá para caçadores e madeireiros ilegais o último lugar na Terra onde ainda coexistem tigres, orangotangos, elefantes e rinocerontes. Outro exemplo importante é a proposta Rodovia do Serengeti, na Tanzânia - que colocaria em perigo uma das maiores migrações de vida silvestre do mundo.
De maneira mais geral, precisamos lutar para manter as estradas fora das áreas de vida silvestre - "evitar o primeiro corte". O desmatamento é como um tumor; quando começa, tende a se espalhar. Por exemplo, a primeira rodovia pavimentada na Amazônia, concluída nos anos 1970, começou como um corte fino pela floresta tropical. Hoje é uma faixa de 400 quilômetros de largura de florestas destruídas em toda a Amazônia oriental.
Há muito mais que pode ser feito. Precisamos promover projetos "offshore" em áreas silvestres onde trabalhadores acessam os locais por helicóptero ou pelos rios, em vez de construir novas estradas. Precisamos pressionar o AIIB e o BNDES para reforçar sua atuação - não apenas impondo salvaguardas superficiais, mas sendo muito mais seletivos nos projetos que apoiam. É contraproducente para países como Grã-Bretanha, Nova Zelândia e Austrália aderir ao AIIB, a menos que possam trabalhar assiduamente para convencê-lo a moderar suas políticas agressivas; de outro modo, estarão apenas aumentando a credibilidade de uma instituição que não a merece.
Também precisamos de um zoneamento do uso da terra mais ativo, e do regime da lei, especialmente em áreas de fronteira vulneráveis. E precisamos aumentar a consciência global sobre os perigos realmente sem precedentes que enfrentam muitos dos ecossistemas mais ricos biologicamente e mais importantes ambientalmente do mundo.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Na Amazônia, 95% de toda a destruição da floresta ocorrem no raio de 5 quilômetros de uma estrada. A rodovia BR-163, que corta o coração da Amazônia, é visível à noite - até da Lua - como uma faixa de milhares de quilômetros de incêndios na floresta. Na bacia do Congo, um surto de construção de estradas por madeireiras industriais promoveu inadvertidamente um influxo maciço de caçadores e uma chacina épica de elefantes da floresta, mortos por suas valiosas presas de marfim. Na última década, dois terços de todos os elefantes das florestas foram capturados ou mortos a tiros.
As estradas são apenas uma parte do problema. Para qualquer lugar que se olhe, novas infraestruturas proliferam nos últimos lugares naturais da Terra, muitas vezes provocando sérios danos ambientais. A barragem de Balbina, no Brasil, inundou 240 mil hectares de floresta tropical - uma área maior que Buenos Aires. Há planos de construção de outras 150 grandes represas na Amazônia - cada uma das quais inundará grandes extensões de floresta e exigirá novas redes de estradas para a construção das barragens e das linhas de energia.
Pelo menos igualmente assustadora do ponto de vista ambiental é a avalanche contemporânea de projetos de mineração e extração de combustível fóssil. A África experimenta atualmente um frenesi de investimentos estrangeiros em mineração; somente a China despeja mais de US$ 100 bilhões por ano em projetos de mineração no continente. Investidores da Índia, do Brasil, do Canadá e da Austrália não ficam longe. Entre outras coisas, esses investimentos fornecem um impulso econômico vital para 29 grandes "corredores de desenvolvimento" que vão cortar a África subsaariana, abrindo muitas áreas virgens e semivirgens a uma série de novas pressões humanas.
Mas muitos economistas aplaudiriam essas tendências. O mundo em desenvolvimento está simplesmente se desenvolvendo, dizem eles, e devemos apoiá-lo. A recente promessa das nações mais ricas do mundo, o G-20, de investir incríveis US$ 60 a 70 trilhões em novas infraestruturas em todo o mundo nos próximos 15 anos - mais que duplicando o valor líquido da infraestrutura global - simplesmente reflete uma nova ordem mundial emergente.
Mas é realmente tão simples? Eu diria que vamos enfrentar muitas opções difíceis pela frente, e que os custos da explosão de infraestrutura em muitos casos irão superar suas vantagens. Por um lado, os benefícios da nova infraestrutura muitas vezes não têm distribuição equitativa. Alguns ficam fabulosamente ricos com esses projetos e muitos outros são deixados para trás. O influxo de capital estrangeiro para projetos de infraestrutura muitas vezes alimenta a inflação, que impacta de modo desproporcional os "homens comuns" que lutam apenas para sobreviver. No Panamá, por exemplo, a atualização de US$ 6 bilhões do Canal do Panamá enriqueceu alguns, mas deixou muitos lutando para pagar o aluguel ou colocar comida sobre a mesa.
Também há muitos custos escondidos nos megadesenvolvimentos em áreas selvagens e semisselvagens. A biodiversidade pode sofrer muito, a poluição do ar e da água pode disparar e as emissões de gases do efeito estufa aumentam. Basta tentar respirar o ar sufocante no Sudeste Asiático ou no leste da China ou na Amazônia durante a temporada de queimadas para ver como as pessoas sofrem um sério impacto. Em Sumatra, Indonésia, mais de 50 mil pessoas tiveram de ser tratadas de problemas respiratórios no ano passado, e mais de 200 escolas foram fechadas.
Não é fácil deter esse tsunami moderno. Os defensores dos grandes projetos de infraestrutura muitas vezes são poderosos, ricos e têm conexões políticas. Em 2002, quase fui expulso do Brasil por afirmar que o programa "Avança Brasil", do governo - um esquema de US$ 40 bilhões para recortar a Amazônia com dezenas de novas estradas, barragens, linhas de transmissão, gasodutos e outras obras de infraestrutura -, teria enormes custos ambientais. Mesmo depois de depor diante do Congresso brasileiro, fui tão atacado pelos defensores do projeto que a "Folha de S.Paulo", o principal jornal do Brasil, finalmente se manifestou: "Basta - parem de tentar matar o mensageiro".
O que alarma muitos dos que se preocupam com a explosão do desenvolvimento é a mera magnitude da ilegalidade envolvida. Na Amazônia brasileira, por exemplo, minha equipe de pesquisa descobriu que para cada quilômetro de estrada legal havia 3 quilômetros de estradas ilegais. A competição é galopante. Redes de madeireiros ilegais - envolvendo centenas de milhões de dólares em madeira roubada - foram identificadas e em alguns casos, presos. Licitações fraudadas, propinas e comissões são comuns nos projetos de barragens e energia da Amazônia. Em 2005, a freira americana Dorothy Stang foi assassinada por dois pistoleiros contratados, por defender o meio ambiente e os pequenos proprietários de terra que eram contra os barões do gado que roubam as terras. Stang é apenas uma de centenas de mártires ambientais que morreram em todo o mundo nos últimos anos.
Mas outra tendência assustadora foi o crescimento incrível do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB na sigla em inglês), dominado pelos chineses, e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil (BNDES). Depois de anos de críticas, os grandes bancos de desenvolvimento - como o Banco Mundial e os Bancos de Desenvolvimento Asiático, Africano e Interamericano - incorporaram gradualmente uma série de salvaguardas ambientais e sociais. Estas estão longe de perfeitas, mas certamente são melhores que nada. Mas o AIIB e o BNDES dão muito menos ênfase a essas salvaguardas. Sua voracidade tornou-se um grande fator de mudança de jogo para a infraestrutura global.
Quais são as soluções? Para começar, acho que precisamos urgentemente identificar os projetos mais danosos em todo o mundo e fazer uma pressão real para detê-los. No alto de minha lista pessoal está Ladia Galaska - uma rede de estradas de 400 quilômetros no norte de Sumatra, na Indonésia, que abrirá para caçadores e madeireiros ilegais o último lugar na Terra onde ainda coexistem tigres, orangotangos, elefantes e rinocerontes. Outro exemplo importante é a proposta Rodovia do Serengeti, na Tanzânia - que colocaria em perigo uma das maiores migrações de vida silvestre do mundo.
De maneira mais geral, precisamos lutar para manter as estradas fora das áreas de vida silvestre - "evitar o primeiro corte". O desmatamento é como um tumor; quando começa, tende a se espalhar. Por exemplo, a primeira rodovia pavimentada na Amazônia, concluída nos anos 1970, começou como um corte fino pela floresta tropical. Hoje é uma faixa de 400 quilômetros de largura de florestas destruídas em toda a Amazônia oriental.
Há muito mais que pode ser feito. Precisamos promover projetos "offshore" em áreas silvestres onde trabalhadores acessam os locais por helicóptero ou pelos rios, em vez de construir novas estradas. Precisamos pressionar o AIIB e o BNDES para reforçar sua atuação - não apenas impondo salvaguardas superficiais, mas sendo muito mais seletivos nos projetos que apoiam. É contraproducente para países como Grã-Bretanha, Nova Zelândia e Austrália aderir ao AIIB, a menos que possam trabalhar assiduamente para convencê-lo a moderar suas políticas agressivas; de outro modo, estarão apenas aumentando a credibilidade de uma instituição que não a merece.
Também precisamos de um zoneamento do uso da terra mais ativo, e do regime da lei, especialmente em áreas de fronteira vulneráveis. E precisamos aumentar a consciência global sobre os perigos realmente sem precedentes que enfrentam muitos dos ecossistemas mais ricos biologicamente e mais importantes ambientalmente do mundo.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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