Amy Harmon - NYT
Em meio a relatos de vizinhos e colegas de classe, segundo os quais o atirador responsável pelo massacre em Newtown, no Estado norte-americano de Connecticut, tinha uma variante de autismo conhecida como Síndrome de Asperger, adultos portadores da doença e pais de crianças já diagnosticadas têm lutado contra o que eles temem que possa ser uma crescente impressão associada à violência premeditada.
Indivíduos com transtornos relacionados ao autismo (ou do espectro do autismo, como também são chamados), que muitas vezes são vítimas de bullying na escola e no trabalho, frequentemente sofrem de depressão e ansiedade e têm pensamentos suicidas. Um mediador que se reuniu com os pais de Adam Lanza, o atirador, durante seu processo de divórcio disse à Associated Press que o casal havia dito que a condição de seu filho havia sido diagnosticada como síndrome de Asperger.
Mas especialistas dizem não haver nenhuma evidência de que esse tipo de paciente seja mais propenso a cometer crimes violentos do que indivíduos de outros grupos.
"As agressões relacionadas aos transtornos do espectro do autismo quase nunca são direcionadas a pessoas de fora da família ou a cuidadores próximos, e quase nunca são planejadas nem envolvem armas", disse a Dra. Catherine Lord, diretora do Centro de Autismo e Desenvolvimento Cerebral do hospital New York-Presbyterian. "Todos os aspectos desse caso são mais comuns em outras populações do que entre autistas".
Lord disse que, em um estudo ainda não publicado realizado a partir dos dados de monitoramento de várias centenas de adultos com autismo coletados durante os últimos cinco anos, ela e seus colegas pesquisadores não detectaram o uso de armas. Entre os mais de 1.000 adolescentes e crianças mais velhas que participaram desse estudo, apenas 2% tinham usado algum tipo de ferramenta de forma agressiva para ameaçar pessoas que não faziam parte de suas famílias, segundo relatos dos pais. Esse percentual é menor do que o total obtido em um grupo de controle. A mesma conclusão se repetiu após a análise de outro conjunto de dados realizada no fim de semana passado a pedido do "The New York Times".
Mas algumas das mensagens do Twitter, algumas reportagens e alguns posts divulgados online após o massacre que horrorizou o país não têm refletido essa imagem do autismo.
"Tente curar a doença real, que é o autismo, e não a N.R.A (National Rifle Association, a Associação Nacional dos Rifles)", uma pessoa escreveu no Twitter na noite de domingo, em resposta aos pedidos por leis mais rígidas para o controle de armas.
"Alguma coisa está faltando no cérebro, a capacidade de empatia para estabelecer conexões sociais, o que deixa a pessoa que sofre dessa condição mais propensa à depressão grave e à ansiedade", disse um psicólogo no programa "Piers Morgan Tonight", da rede de TV CNN.
Em uma defesa amplamente divulgada sobre os poderes de empatia de seu filho de 11 anos de idade, que foi diagnosticado com Asperger, Emily Willingham, autora de um blog sobre ciência, escreveu que "ele não suporta ver pessoas abrindo nozes, pois, como ele se acha meio parecido com uma noz, ele sente a mesma dor que as nozes sentiriam".
No blog político Daily Kos, um blogueiro que se identificou como portador da síndrome de Asperger, se disse preocupado com a possibilidade de as ações de Lanza, 20 – que matou 20 crianças e sete adultos, incluindo a mãe, e foi descrito por um colega de classe como uma pessoa "quase sem nenhuma reação emocional" –, passarem a determinar como as "pessoas com esta deficiência serão definidas no imaginário popular".
Sua própria ausência de reações emocionais, explicou ele, não significa que ele não tenha sentimentos.
"Nossas emoções não aparecem naturalmente em nossos rostos", escreveu ele. "Esta é, talvez, a parte mais frustrante da experiência de se ter Asperger, pois as pessoas pensam que você não está sentindo nada, quando, na verdade, você pode estar sentindo emoções ainda mais forte do que elas".
As raízes do autismo, condição relacionada ao desenvolvimento e caracterizada pela redução da capacidade de relacionamento social, pela dificuldade de comunicação e por padrões repetitivos de comportamento, não são bem compreendidas. Mas a doença consiste de um problema no processamento das informações sociais, e não de uma incapacidade intrínseca de sentir empatia, que está na base da doença, disseram especialistas.
"As repetidas notícias divulgadas pela mídia sobre um possível diagnóstico de síndrome de Asperger implicam em uma ligação entre a doença e o crime hediondo cometido pelo atirador", disse Lori S. Shery, presidente da Asperger Syndrome Education Network (Rede de Educação sobre a Síndrome de Asperger), grupo de defesa de interesses de Nova Jersey. "Da mesma forma, eles poderiam ter dito: ‘Adam Lanza, 20, tinha cabelo castanho’".
De acordo com as mais recentes estimativas dos Centros para o Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos, uma em cada 88 crianças norte-americanas tem um transtorno relacionado ao autismo, cujos sintomas variam em gravidade. Durante um tempo, parecia quase uma moda ser diagnosticado com a síndrome de Asperger ou com autismo de alto funcionamento – condição na qual os indivíduos têm habilidades de linguagem e inteligência normais ou acima da média, mas têm dificuldade para identificar regras sociais, como o momento mais adequado para fazer contato visual ou para formular uma pergunta durante uma conversa, e para intuir os sentimentos dos outros.
Alguns jovens adultos portadores da condição se descrevem orgulhosamente como "aspies". Temple Grandin, renomado cientista que estuda animais e tem a condição, foi interpretado por Claire Danes em uma cinebiografia apresentada pela HBO em 2010. Craig Newmark, fundador da Craigslist, chegou a especular que se encaixaria no diagnóstico. E diagnósticos feitos por amadores frequentemente identificaram como "aspies" Bill Gates e Sheldon Cooper, físico teórico que é o astro da série "The Big Bang Theory", da rede de TV CBS.
O termo, segundo informou a "New York Magazine" em uma edição recente, surgiu para descrever qualquer um que é "um híbrido obscuro entre um nerd e uma pessoa indiferente".
Mas, se houve um abrandamento do estigma relacionado às pessoas com autismo em um mundo que valoriza muito a sociabilidade, os defensores do autismo se preocupam com a possibilidade de os indivíduos que não apresentam reações emocionais agora terem mais um motivo para não divulgar sua condição a professores, empregadores e membros da comunidade – o que, muitas vezes, é o primeiro passo para a sensibilização e a obtenção de adaptações úteis para o dia a dia dessas pessoas.
"Quando eu digo a alguém que tenho uma doença do espectro do autismo, sempre há o temor de que eles me julguem de forma negativa por causa disso", disse Alex Plank, fundador do WrongPlanet.net, site no qual muitos indivíduos com síndrome de Asperger têm despejado suas preocupações nos últimos dias. "Felizmente, as pessoas pensam em ‘Temple Grandin’ ou até mesmo em ‘Bill Gates’ e fazem uma conexão em suas cabeças. Eu odiaria que alguém pensasse em ‘Adam Lanza’".
Alguns dos usuários que postaram comentários no site de Plank refletiram o conhecimento dos "insiders" sobre como é viver com um transtorno do espectro do autismo: um perguntou por que o sistema público de ensino não disponibilizou a Lanza um programa de "transição para a vida adulta" até os 21 anos de idade, conforme é exigido por lei federal nos EUA.
Um jovem disse estar preocupado com o fato de que iria passar o Natal com parentes distantes que poderiam ter desenvolvido novos preconceitos sobre o autismo. Outros usaram o site para expressar um sentimento que substituiu todos os outros.
"Palavras não podem expressar a profundidade da dor que eu sinto por aqueles que foram deixados para trás e que tem que suportar sua perda", escreveu Lee Anderson, 20, de Cookeville, Tennessee, cujo perfil no WrongPlanet lista seu diagnóstico como "Tem Asperger" e sua ocupação como "Estudante que frequenta aulas em casa e jogador de paintball".
"Eu gostaria que houvesse uma maneira melhor para que eu pudesse ajudar".
Indivíduos com transtornos relacionados ao autismo (ou do espectro do autismo, como também são chamados), que muitas vezes são vítimas de bullying na escola e no trabalho, frequentemente sofrem de depressão e ansiedade e têm pensamentos suicidas. Um mediador que se reuniu com os pais de Adam Lanza, o atirador, durante seu processo de divórcio disse à Associated Press que o casal havia dito que a condição de seu filho havia sido diagnosticada como síndrome de Asperger.
Mas especialistas dizem não haver nenhuma evidência de que esse tipo de paciente seja mais propenso a cometer crimes violentos do que indivíduos de outros grupos.
"As agressões relacionadas aos transtornos do espectro do autismo quase nunca são direcionadas a pessoas de fora da família ou a cuidadores próximos, e quase nunca são planejadas nem envolvem armas", disse a Dra. Catherine Lord, diretora do Centro de Autismo e Desenvolvimento Cerebral do hospital New York-Presbyterian. "Todos os aspectos desse caso são mais comuns em outras populações do que entre autistas".
Lord disse que, em um estudo ainda não publicado realizado a partir dos dados de monitoramento de várias centenas de adultos com autismo coletados durante os últimos cinco anos, ela e seus colegas pesquisadores não detectaram o uso de armas. Entre os mais de 1.000 adolescentes e crianças mais velhas que participaram desse estudo, apenas 2% tinham usado algum tipo de ferramenta de forma agressiva para ameaçar pessoas que não faziam parte de suas famílias, segundo relatos dos pais. Esse percentual é menor do que o total obtido em um grupo de controle. A mesma conclusão se repetiu após a análise de outro conjunto de dados realizada no fim de semana passado a pedido do "The New York Times".
Mas algumas das mensagens do Twitter, algumas reportagens e alguns posts divulgados online após o massacre que horrorizou o país não têm refletido essa imagem do autismo.
"Tente curar a doença real, que é o autismo, e não a N.R.A (National Rifle Association, a Associação Nacional dos Rifles)", uma pessoa escreveu no Twitter na noite de domingo, em resposta aos pedidos por leis mais rígidas para o controle de armas.
"Alguma coisa está faltando no cérebro, a capacidade de empatia para estabelecer conexões sociais, o que deixa a pessoa que sofre dessa condição mais propensa à depressão grave e à ansiedade", disse um psicólogo no programa "Piers Morgan Tonight", da rede de TV CNN.
Em uma defesa amplamente divulgada sobre os poderes de empatia de seu filho de 11 anos de idade, que foi diagnosticado com Asperger, Emily Willingham, autora de um blog sobre ciência, escreveu que "ele não suporta ver pessoas abrindo nozes, pois, como ele se acha meio parecido com uma noz, ele sente a mesma dor que as nozes sentiriam".
No blog político Daily Kos, um blogueiro que se identificou como portador da síndrome de Asperger, se disse preocupado com a possibilidade de as ações de Lanza, 20 – que matou 20 crianças e sete adultos, incluindo a mãe, e foi descrito por um colega de classe como uma pessoa "quase sem nenhuma reação emocional" –, passarem a determinar como as "pessoas com esta deficiência serão definidas no imaginário popular".
Sua própria ausência de reações emocionais, explicou ele, não significa que ele não tenha sentimentos.
"Nossas emoções não aparecem naturalmente em nossos rostos", escreveu ele. "Esta é, talvez, a parte mais frustrante da experiência de se ter Asperger, pois as pessoas pensam que você não está sentindo nada, quando, na verdade, você pode estar sentindo emoções ainda mais forte do que elas".
As raízes do autismo, condição relacionada ao desenvolvimento e caracterizada pela redução da capacidade de relacionamento social, pela dificuldade de comunicação e por padrões repetitivos de comportamento, não são bem compreendidas. Mas a doença consiste de um problema no processamento das informações sociais, e não de uma incapacidade intrínseca de sentir empatia, que está na base da doença, disseram especialistas.
"As repetidas notícias divulgadas pela mídia sobre um possível diagnóstico de síndrome de Asperger implicam em uma ligação entre a doença e o crime hediondo cometido pelo atirador", disse Lori S. Shery, presidente da Asperger Syndrome Education Network (Rede de Educação sobre a Síndrome de Asperger), grupo de defesa de interesses de Nova Jersey. "Da mesma forma, eles poderiam ter dito: ‘Adam Lanza, 20, tinha cabelo castanho’".
De acordo com as mais recentes estimativas dos Centros para o Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos, uma em cada 88 crianças norte-americanas tem um transtorno relacionado ao autismo, cujos sintomas variam em gravidade. Durante um tempo, parecia quase uma moda ser diagnosticado com a síndrome de Asperger ou com autismo de alto funcionamento – condição na qual os indivíduos têm habilidades de linguagem e inteligência normais ou acima da média, mas têm dificuldade para identificar regras sociais, como o momento mais adequado para fazer contato visual ou para formular uma pergunta durante uma conversa, e para intuir os sentimentos dos outros.
Alguns jovens adultos portadores da condição se descrevem orgulhosamente como "aspies". Temple Grandin, renomado cientista que estuda animais e tem a condição, foi interpretado por Claire Danes em uma cinebiografia apresentada pela HBO em 2010. Craig Newmark, fundador da Craigslist, chegou a especular que se encaixaria no diagnóstico. E diagnósticos feitos por amadores frequentemente identificaram como "aspies" Bill Gates e Sheldon Cooper, físico teórico que é o astro da série "The Big Bang Theory", da rede de TV CBS.
O termo, segundo informou a "New York Magazine" em uma edição recente, surgiu para descrever qualquer um que é "um híbrido obscuro entre um nerd e uma pessoa indiferente".
Mas, se houve um abrandamento do estigma relacionado às pessoas com autismo em um mundo que valoriza muito a sociabilidade, os defensores do autismo se preocupam com a possibilidade de os indivíduos que não apresentam reações emocionais agora terem mais um motivo para não divulgar sua condição a professores, empregadores e membros da comunidade – o que, muitas vezes, é o primeiro passo para a sensibilização e a obtenção de adaptações úteis para o dia a dia dessas pessoas.
"Quando eu digo a alguém que tenho uma doença do espectro do autismo, sempre há o temor de que eles me julguem de forma negativa por causa disso", disse Alex Plank, fundador do WrongPlanet.net, site no qual muitos indivíduos com síndrome de Asperger têm despejado suas preocupações nos últimos dias. "Felizmente, as pessoas pensam em ‘Temple Grandin’ ou até mesmo em ‘Bill Gates’ e fazem uma conexão em suas cabeças. Eu odiaria que alguém pensasse em ‘Adam Lanza’".
Alguns dos usuários que postaram comentários no site de Plank refletiram o conhecimento dos "insiders" sobre como é viver com um transtorno do espectro do autismo: um perguntou por que o sistema público de ensino não disponibilizou a Lanza um programa de "transição para a vida adulta" até os 21 anos de idade, conforme é exigido por lei federal nos EUA.
Um jovem disse estar preocupado com o fato de que iria passar o Natal com parentes distantes que poderiam ter desenvolvido novos preconceitos sobre o autismo. Outros usaram o site para expressar um sentimento que substituiu todos os outros.
"Palavras não podem expressar a profundidade da dor que eu sinto por aqueles que foram deixados para trás e que tem que suportar sua perda", escreveu Lee Anderson, 20, de Cookeville, Tennessee, cujo perfil no WrongPlanet lista seu diagnóstico como "Tem Asperger" e sua ocupação como "Estudante que frequenta aulas em casa e jogador de paintball".
"Eu gostaria que houvesse uma maneira melhor para que eu pudesse ajudar".
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