Roger Cohen - IHT
O presidente Mohammed Mursi do Egito cometeu um grande erro. Seus motivos podem ter sido honrados – estou inclinado a dar-lhe o benefício da dúvida –, mas o erro é grave e precisa ser corrigido.
Sua tomada, por decreto, do poder quase absoluto, colocando-o acima da supervisão judicial, lembra a famosa frase do diplomata francês Talleyrand: "Pior do que um crime, foi um erro."Mursi diz que sua medida é temporária – um meio de tirar rapidamente o Egito de seu limbo pós-revolucionário – mas "temporário" não é uma palavra com credibilidade numa nação onde os poderes ditatoriais “emergenciais” do presidente deposto Hosni Mubarak duraram décadas.
A Constituição do Estado árabe mais importante – que abriga quase 25% dos árabes do mundo, a prova de fogo das liberdades prometidas pela Primavera Árabe – não pode ser imposta por uma Assembleia Constituinte que perdeu cerca de um quarto de seus 100 membros, principalmente os liberais e as mulheres que saíram em protesto. Agora ela se resume a um corpo desacreditado dominado por partidos de inspiração islâmica.
Não quando os juízes do país (quem teriam de supervisionar um eventual referendo de um projeto de constituição) entraram em greve e Mursi através de sua pressa conseguiu uma façanha política singular: unir as facções liberais seculares ineficazes e divididas do Egito em protestos massivos nas ruas para pedir que o decreto seja revogado. Um tweet de Mohamed El Baradei, o egípcio vencedor do Prêmio Nobel, comparando Mursi com um novo faraó teve eco.
Mursi precisa apertar o botão de reiniciar. A política democrática é trabalhosa; pergunte ao presidente Barack Obama. Ele não pode evitar a difícil negociação política num Egito onde ganhou a eleição presidencial deste ano com 51,7% dos votos. Os outros 48,3% não podem ser ignorados. No mínimo, seu decreto deve ser desfeito e a Assembleia Constituinte deve ter restituída a credibilidade que só a inclusão pode conferir.
Eu disse que estava inclinado a dar o benefício da dúvida a Mursi quanto a seus motivos. Ele sabe que a ditadura não vai decolar no novo Egito. Ele manobrou os militares, ajudou em Gaza, foi corajoso no Irã e na Síria.
Ele é um produto da cultura da Irmandade Muçulmana que, como resultado da repressão feroz, se inclinou na direção do conspiratório e do secreto. Havia inimigos por toda parte.
É fácil ver como, com uma decisão judicial ameaçando dissolver a Assembleia Constituinte no domingo (25), Mursi teria se convencido de um golpe no velho-regime para minar a vontade popular e colocar o Egito de volta ao início de sua transição.
O problema é que ele não tentou resolver o problema se aproximando dos demais. Ele se fechou num casulo absolutista.
Numa entrevista recente no Cairo, Essam Soltan, um advogado importante que era membro da Irmandade e saiu para formar o seu próprio partido, disse-me: “Mursi representa a vontade do povo. Mas você deve se lembrar que ele vem de um movimento que foi reprimido durante 60 anos. Isso produz doenças; generalizações selvagens como ver todo mundo como inimigo da religião.
"Ideias e interesses humanos devem ser a base para discussão, e não a religião. Mas a esquerda e os liberais também têm problemas. Seus pensamentos vêm de fora e não de dentro de um sistema democrático egípcio.”
O Egito percorreu um longo caminho: generais treinados nos EUA saudaram o presidente livremente eleito da Irmandade e uma nação orgulhosa surgiu de um profundo e paralisante congelamento político. Mas as conquistas são frágeis.
Mursi e sua oposição liberal fariam bem em lembrar das palavras de Benjamin Franklin ao sair da Convenção Constitucional na Filadélfia, e ser questionado sobre qual sistema de governo havia sido adotado: “Uma república, se vocês conseguirem mantê-la.”
Manter a liberdade recém-descoberta do Egito exigirá coragem e compromisso. Mursi precisa corrigir seu erro. Os liberais devem concordar e aceitar o compromisso.
O projeto de Constituição tem problemas, mas não são insuperáveis. Desde que escrevi sobre isso no mês passado, uma cláusula controversa que dizia que homens e mulheres tinham direitos iguais "desde que isso não entre em conflito com as decisões da sharia islâmica" foi descartada. Isto é importante.
Um compromisso amplo aludindo os "princípios" da lei islâmica como eixo norteador, como na atual Constituição, parece ter sido atingido no início deste mês, mas se desintegrou à medida que os islamitas tentaram apressar o esboço do documento, cuja concentração de poder na presidência é preocupante.
Apressar um documento dessa importância não é uma opção. O Egito vai se dividir, o investimento vai secar e a inquietação vai continuar. Mursi precisa superar suas suspeitas de Irmandade para forjar uma assembleia constitucional com credibilidade, incluindo oponentes liberais que, como os republicanos no Congresso, agora devem expressar o patriotismo através do pragmatismo.
Um Egito livre, o primeiro, vale a pena manter. Ele poderia ser um agente central de mudança numa região que precisa desesperadamente de um novo pensamento.
Tradutor: Eloise De Vylder
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