quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

As armas de fogo não garantem segurança
Joe Nocera - NYT
No dia 3 de maio de 1980, uma menina de 13 anos chamada Cari Lightner foi morta por um motorista embriagado. Um alcoólatra empedernido, ele tinha três condenações anteriores por dirigir bêbado. Ele tinha acabado de sair de um bar, depois de três dias de bebedeira.
Semanas depois, a mãe de Cari, Candy Lightner, fundou o grupo Madd, das iniciais em inglês para mães contra motoristas alcoolizados. Em todo o país, as mães, cansadas com a falta de vontade dos políticos de tomar qualquer atitude sobre o problema, reuniram-se na organização. Em poucos anos, o Madd tinha persuadido o presidente Ronald Reagan a defender a idade mínima nacional de 21 anos para beber e aprovado legislações estaduais endurecendo as penas para quem dirigisse embriagado. Talvez o mais importante tenha sido o fato do grupo Madd ter tornado tabu um comportamento perigoso que por muito tempo foi aceitável.
Eu estava fora da cidade na sexta-feira (14), quando ocorreu o massacre de Newtown, Connecticut, e só consegui me conectar com meus entes queridos por telefone. Minha noiva chorava incontrolavelmente: "Não consigo imaginar o que seria deixar Mackie na escola e nunca mais revê-lo", disse ela, referindo-se ao seu filho de dois anos. Minha filha já crescida também chorava.
Ouvindo-as –e vendo como essa matança horrível de crianças e seus professores atingiu fortemente o país- não pude evitar de lembrar do Madd. Seu sucesso ocorreu porque suas fundadoras exploraram uma fonte de revolta que vinha se acumulando silenciosamente – como a atual revolta em torno dos recentes tiroteios. Mas também ocorreu porque as mães deram um rosto humano para as consequências da inação política: seus próprios filhos. Como você supera algo assim?
Tristemente, graças aos tiros na escola fundamental na sexta-feira, as crianças agora estão inexoravelmente ligadas a esse tipo de massacre que já se tornou por demais comum. No domingo, na vigília em Newtown, o presidente Barack Obama explicitamente descreveu a legislação de armas como um fracasso em proteger as crianças. Não tenho dúvidas que as observações deles foram sinceras, mas também foram politicamente astutas. Raramente a Associação Nacional de Rifles ficou tão silenciosa.
Um argumento absurdo que alguns extremistas de armas já estão defendendo é que, em vez de enrijecer as leis de armas, devemos ir na direção oposta e nos armar mais. Desta forma, podemos massacrar o malvado antes que ele nos pegue.
Em Michigan, um projeto de lei para permitir que as pessoas levem armas escondidas para escolas públicas, creches e igrejas foi aprovado pela Câmara e está esperando a sanção do governador do Estado, o republicano Rick Snyder. Na mais recente edição da "The Atlantic", Jeffrey Goldberg argumenta que o país está tão "saturado" de armas –cerca de 300 milhões- que não faz sentido tentar controlar a posse de armas. Além disso, diz ele, "as pessoas devem poder se defender". Um congressista texano, Louie Gohmert, alegou que se a diretora da Escola Fundamental de Sandy Hook simplesmente "tivesse um M4 no escritório dela", ela poderia ter detido Adam Lanza, o atirador de Newtown.
Mas a experiência de outros países mostra que o argumento é uma mentira. Na Austrália, em 1996, um homem matou 35 pessoas em um surto de uma tarde. A Austrália logo mudou sua legislação de porte de armas relaxada e sancionou duras leis, incluindo medidas de bom senso como cartas de recomendação para pessoas que quiserem adquirir uma arma e a exigência de um cofre preso a uma parede ou piso para guardá-la. Ainda há muitos caçadores na Austrália, mas desde então não houve outra chacina.
A África do Sul talvez seja um exemplo ainda melhor. Por muitos anos, a África do Sul foi um país tão mergulhado em armas quanto os EUA. Eu tenho um amigo, Greg Frank, gerente de fundos de investimento em Charlottesville, que morava em Johannesburgo durante uma época em que estava tão afligida por crimes que as pessoas sentiam a necessidade de terem armas para se protegerem. Greg também tinha uma arma: "Eu usei a desculpa que eu precisava dela para me proteger".
As armas não deixaram ninguém mais seguro. As pessoas assaltadas no sinal vermelho raramente tinham tempo de puxar suas armas. E o fato que tantas casas tinham armas tornou-se um incentivo para os bandidos invadirem as casas, fazerem reféns e exigirem que o cofre com as armas fosse aberto. "Todo mundo conhecia alguém que tinha familiares ou amigos que passaram por um assalto à mão armada", disse ele.
Por fim, diz ele, as pessoas se cansaram. Em 2004, as leis mudaram e passaram a exigir um licenciamento anual, cartas de recomendação e outras medidas para evitar que as armas fossem parar nas mãos erradas. Também houve um apelo para a entrega voluntária de armas.
"Eu levei minha arma para a delegacia", lembra-se Frank. "O guarda que a recebeu escreveu o número de série, pegou minha identidade e eu fui embora. Foi uma transformação, como se um enorme peso tivesse saído dos meus ombros".
Para nós também será, quando finalmente nos tornarmos sérios no sentido de deter a violência armada.
Tradutor: Deborah Weinberg

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