segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mesmo diante da crise, os EUA ainda possuem capacidade inesgotável de reinvenção
IHT 
Com os Estados Unidos funcionando com um deficit enorme, os rendimentos dos "99%" congelados, o precipício fiscal se aproximando rapidamente, a severa dependência do país em relação ao financiamento externo da China, e o impasse Washington como uma condição política recorrente, pode parecer um momento estranho para estar otimista em relação aos EUA. Mas estou.
A principal razão é a grande mudança já em curso na política energética e do petróleo. A mudança tem sido menosprezada. Ela pode ser resumida numa única frase enterrada num estudo de 166 páginas, que acaba de ser publicado pelo Conselho Nacional de Inteligência dos EUA: "Em 2020, os EUA poderão emergir como um grande exportador de energia."
Isso é daqui a apenas oito anos e, sim, você leu certo, exportador de energia, e não importador. Segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA, os Estados Unidos importam cerca de oito milhões de barris de petróleo bruto por dia, então a reviravolta prevista é dramática. A essas importações, principalmente as do Oriente Médio, estão atreladas formas de dependência política e oportunismo que há muito cobram um preço dos Estados Unidos.
Diversos desenvolvimentos estão por trás desta mudança geoestratégica iminente. O primeiro é o advento do petróleo e gás natural de xisto possível graças a novas tecnologias. O segundo é o aumento da produção de petróleo nas operações em águas profundas. Em algum momento entre 2020 e 2030, espera-se que essas novas fontes juntas quase dobrem a produção nacional de petróleo dos EUA, que atualmente está entre seis e sete milhões de barris por dia.
Combine isso com o aumento da quilometragem para carros e uma mudança nos caminhões para baratear o gás natural liquefeito e um cenário antes inimaginável se torna realidade: os Estados Unidos anulam a sua necessidade de importar petróleo. Eliminar a necessidade, é claro, não significa, necessariamente, eliminar as importações completamente, mas significa uma mudança no poder de negociação norte-americano.
"Este é um processo transformador", disse-me Amy Myers Jaffe, diretora-executivo de energia e sustentabilidade na Universidade da Califórnia, Davis. "Nós nos vemos cada vez mais como esta nação enfraquecida depende de eventos distantes. Mas à medida que nos tornamos independentes energeticamente, nossa relação com nosso próprio poder e nossa liberdade de movimento mudarão – e com ele a nossa política externa, de maneiras difíceis de prever. O petróleo se torna uma questão diferente quando deixa de ser um problema."
Em outras palavras, pense no mundo antes do primeiro choque do petróleo de 1973 para ter alguma noção do que está acontecendo. No Oriente Médio, a equação muda quando a China se torna mais dependente de um fornecimento constante de petróleo e mais preocupada economicamente com a região do que os Estados Unidos.
Agora, como observa Jaffe, a China pode funcionar sabendo que a instabilidade do Oriente Médio custa mais caro aos Estados Unidos. Se o problema do Irã se agravar, por exemplo, tudo bem para ela. Mas diante dos Estados Unidos energeticamente independente, à medida que suas próprias necessidades de energia e custos aumentam, Pequim pode muito bem ser cutucada para adotar uma avaliação estratégica diferente.
Além disso, se os preços do petróleo caírem ao longo do tempo, o que parece plausível, o poder e a influência de países como Irã e Arábia Saudita diminuirão.
Várias advertências são apropriadas às circunstâncias. Primeiro, a produção de petróleo e gás do xisto depende do fraturamento hidráulico, cujo impacto ambiental causa desconforto público. Não se sabe o quanto isso pode atrasar o desenvolvimento.
Segundo, a mudança de poder do Ocidente para as potências emergentes da Ásia durante as próximas décadas é inexorável. Assim, a independência energética para os Estados Unidos não vai alterar a sua necessidade de operar num mundo interdependente desprovido de qualquer poder hegemônico. Terceiro, os países como Arábia Saudita e Venezuela têm operações de refino de grande porte nos Estados Unidos, portanto os laços de petróleo com eles são intrincados e dificilmente desatados.
Ainda assim, as perspectivas econômicas e de autoimagem de um Estados Unidos independente energeticamente crescerão um pouco. Como o estudo do Conselho Nacional de Inteligência diz: "A perspectiva de preços de energia significativamente menores terão efeitos positivos em cadeia para a economia dos EUA, encorajando as empresas a tirarem proveito dos preços mais baixos da energia para abrirem filiais ou se mudarem para os EUA". Já há sinais significativos de transferência da indústria manufatureira para os Estados Unidos, atraída em parte pela energia barata. O conselho estima que até 3 milhões de empregos sejam criados até 2030.
Jaffe, que recentemente se mudou do Texas para a Califórnia, tem notado uma outra tendência importante: a rápida união do que ela chama de "mundo da aplicação e mundo da energia". Esta fusão está criando, através de tecnologias inovadoras, enormes possibilidades de economizar energia. A Chevron, com sede na Califórnia, já desenvolveu um grande negócio de eficiência energética exatamente através desta simbiose.
Então, se você precisa de consolo, olhe alguns anos para além do precipício e veja uns Estados Unidos cuja capacidade de reinvenção está longe de ser esgotada. Se isso não for o suficiente para levantar as nuvens, reflita sobre as tendências demográficas. A idade média prevista nos Estados Unidos em 2030, é de 39 anos – contra 43 na China, 44 na Rússia, 49 na Alemanha e 52 no Japão. Mais pessoas em idade de trabalhar usando energia mais barata significam vantagem para os EUA.
Na minha coluna da semana passada sobre a ansiedade e a compulsão de compartilhar as coisas nas mídias sociais, eu dei a entender que foi estimulado a escrever sobre o assunto depois de ler dois comentários no meu Twitter. Na verdade, ambos eram de um site chamado oversharers.com, que eu consultei na minha pesquisa. Um comentário foi um tweet, o outro um post do Facebook, e ambos foram escritos em 2010. Eu deveria esclarecido a fonte dos comentários.
Tradutor: Eloise De Vylder

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