quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Na Espanha, ter emprego já não garente recebimento de salário
Suzanne Daley - NYT                    
  • Andres Kudacki/AP
    Manifestantes espanhóis protestam nas ruas de Madri contra as medidas de austeridadeManifestantes espanhóis protestam nas ruas de Madri contra as medidas de austeridade
Nos últimos dois anos, Ana Maria Molina Cuevas, 36, trabalhou cinco turnos por semana em uma fábrica de cerâmica localizada na periferia de Valência, pintando azulejos à mão com rolo. Mas, no final de cada mês, ela muitas vezes não recebia seu salário.
Ainda assim, ela continuou indo trabalhar todos os dias e tentou manter sua frustração sob controle. Se eu largar meu emprego, ela pensou, provavelmente nunca receberei meu dinheiro. E, além disso, onde ela encontraria outro emprego? No mês passado, ela tinha apenas cerca de US$ 130 (R$ 268) em sua conta bancária – e devia uma parcela do financiamento imobiliário.
"Nos dias em recebemos o salário", disse ela na casa onde mora com seu marido deficiente e sua filhinha, "é como se o sol nascesse três vezes. É um dia de alegria".
Ana Maria, para quem a fábrica deve aproximadamente US$ 13 mil (R$ 26,8 mil), não está sozinha. Ser pago pelo trabalho realizado não é mais uma coisa que se pode dar como certa na Espanha, num momento em que o país luta para enfrentar o quarto ano de crise econômica. Com os governos regionais e municipais do país profundamente endividados, até mesmo motoristas de ônibus e atendentes da área de saúde, que dependem do dinheiro do governo para receber seus salários, nem sempre são pagos no final do mês.  
Mas poucos trabalhadores que estão nessa situação acreditam ter outra escolha além de segurar a barra – e nenhum deles quis identificar seus empregadores, pois sentem que, assim, estão protegendo tanto as empresas quanto seus empregos. Esses trabalhadores tentam administrar suas vidas com os salários que recebem ocasionalmente e com os pagamentos parciais realizados em datas aleatórias – e nunca têm certeza se algum dia vão conseguir receber a quantia total que as empresas lhes devem. A taxa de desemprego da Espanha, de mais de 25%, é a mais elevada da zona do euro e, apesar das reformas trabalhistas adotadas pelo governo, ela continuou a subindo mês após mês.
"Antes da crise, um trabalhador podia deixar passar um mês (sem receber) e, depois, mudar de emprego", disse José Francisco Perez, advogado que representa os trabalhadores que não estão recebendo seus salários na região de Valencia. "Agora, isso simplesmente não é uma opção. Atualmente, as pessoas não têm para onde ir e estão com medo. Elas até têm medo de reclamar".
Ninguém está monitorando os dados referentes a trabalhadores como Ana Maria. Mas um indício sobre o número total de pessoas sem salário pode ser observado nos tribunais, que ficaram abarrotados de pessoas tentando recuperar os pagamentos atrasados recorrendo a um fundo do governo (uma espécie de reserva técnica, como a das seguradoras), que visa conceder aos trabalhadores determinada quantia quando as empresas não pagam os salários.
Em Valência, a terceira maior cidade da Espanha, a taxa de desemprego está em 28,1%, e os tribunais estão tão sobrecarregados que os trâmites processuais, que costumavam levar de três a seis meses e agora levam de três a quatro anos.
Desde o início da crise, em 2008, o fundo do governo pagou a quase 1 milhão de trabalhadores de todo o país salários atrasados ou indenizações por demissão sem justa causa. Em 2007, esse mesmo fundo beneficiou 70 mil trabalhadores. Este ano, o fundo deverá auxiliar mais de 250 mil pessoas – e especialistas dizem que o total de beneficiados seria muito maior se não fosse o excesso de processos nos tribunais.
Muitas vezes, os trabalhadores que não estão sendo remunerados, como Ana Maria, funcionária de uma empresa que atualmente se encontra em processo de falência, esperam que seu trabalho seja capaz de manter companhias em dificuldade funcionando no longo prazo. O seguro-desemprego e outros benefícios são concedidos aos desempregados pelo período máximo de apenas dois anos, ressaltam essas pessoas – e elas se perguntam o que farão depois que os pagamentos cessarem por completo. Mas, enquanto isso, esse trabalhadores não podem sequer solicitar o seguro-desemprego e outros benefícios. E nenhuma manobra orçamentária que venham a fazer é capaz de cobrir a falta total de pagamentos.
Beatriz Morales Garcia, 31, disse que não conseguia se lembrar da última vez que fez compras para si mesma. Alguns anos atrás, ela e seu marido, Daniel Chiva, 34, pensavam ter garantido um padrão de vida confortável – ele trabalhando como motorista de ônibus, e ela como terapeuta em um centro de reabilitação para pessoas com deficiência mental. O trabalho dele é financiado pela cidade de Valência e o dela, pelo governo regional de Valência.
Eles nunca tiveram a expectativa de receber salários muito altos. Mas parecia razoável contar com um salário confiável para poder assumir um financiamento imobiliário e pensar em ter mais filhos. No ano passado, no entanto, ambos tiveram problemas para receber seus salários. Ela tem 6.000 euros a receber (R$ 16,4 mil). Eles cortaram todo o tipo de despesa que puderam imaginar. O casal abriu mão de seu telefone fixo e de sua conexão com a internet. Eles não estacionam mais seu carro em uma garagem nem pagam para ter um plano de saúde extra. Chiva até mesmo deixou de lado o café que costumava tomar em uma cafeteria antes de seus turnos noturnos. Ainda assim, a ansiedade é constante.
"Há noites em que não consigo dormir", disse ele. "Também há momentos em que eu falo comigo mesmo na rua, em voz alta. Tem sido terrível, terrível".
Beatriz diz que é especialmente difícil assistir outras mães no parque com seus filhos enquanto ela precisa deixar seu bebê em casa para ir ao trabalho, sem ter certeza se um dia receberá seus salários atrasados.
"Estamos trabalhando oito horas por dia e estamos sofrendo mais do que as pessoas que não estão trabalhando", disse ela.
Os salários do casal têm se mostrado tão irregulares que eles estão tendo dificuldade até mesmo para controlar o quanto lhes devem, uma vez que pequenos pagamentos pingam esporadicamente em sua conta bancária.
O governo regional não aborda as reais dimensões do problema quando recebe perguntas por escrito. Em vez disso, as autoridades divulgaram um comunicado por meio do qual afirmam estarem fazendo o seu melhor para quitar as dívidas com os trabalhadores. "Estamos conscientes das dificuldades enfrentadas por muitas associações e muitos fornecedores causadas pelo atraso nos pagamentos por parte da administração pública", disse o comunicado. A região de Valência, segundo o comunicado, está trabalhando para "superar a crise o mais rapidamente possível" e entende que "pagar os salários contribui para movimentar a economia".
Muitas vezes, a paciência dos trabalhadores não tem compensado – mais de 300 mil empresas faliram na Espanha ao longo dos últimos anos.
Em uma manhã recente, os trabalhadores começaram a fazer fila diante dos escritórios do fundo do governo em Valência – mesmo antes de o departamento abrir suas portas. O clima era sombrio. A maioria dos trabalhadores iria receber apenas uma fração do que lhes era devido. Recentemente, o governo reduziu o reembolso máximo a US$ 1.700 (R$ 3.500) por mês pelo período de quatro meses – e não mais durante cinco meses.
Muitos dos que aguardavam na fila criticavam sua própria decisão de continuar trabalhando, pois sentiam que seus empregadores haviam tirado vantagem deles. Alguns mal podiam conter sua fúria. Vários trabalhadores da construção civil disseram que viveram um tempo dentro de um canteiro de obras, trabalhando de 12 a 16 horas por dia, pois a construtora havia garantido que se eles antecipassem o término de uma construção garantiriam seu pagamento. Mas não foi o que aconteceu.
"Eu sei que eu nunca vou receber o que me devem", disse Tudo Vrendicu, 38, que se mudou da Romênia para a Espanha há quase uma década e trabalhou "gratuitamente" na obra mencionada acima durante meses. Às vezes, ele recebia apenas US$ 65 (R$ 134) de seu chefe. "Nós viemos para cá para ter uma vida melhor, mas isso é um pesadelo".
Não está claro quantos trabalhadores estão sendo explorados por empregadores sem escrúpulos. Funcionários do fundo do governo, que pretende recuperar das empresas o dinheiro pago aos trabalhadores que não estão recebendo salários, disseram que simplesmente não levam em consideração a questão da exploração dos funcionários pelos patrões. No entanto, esse tipo de prática atormenta muitos trabalhadores que não estão recebendo salários.
Cristobal Hernandez, chefe de cozinha de um hotel de 750 quartos localizado na cidade turística de Benidorm, ao sul de Valência, diz que o hotel está com as reservas esgotadas, mas que os funcionários ainda têm salários a receber. Segundo ele, a mesma coisa está acontecendo na maioria dos outros grandes hotéis da cidade.
"Nós continuamos tentando entender o que está acontecendo", disse ele. "Onde está o dinheiro? Achamos que ele pode estar sendo canalizado para manter os outros negócios do proprietário".
Hernandez diz que os funcionários do hotel ameaçaram recentemente levar a história para a imprensa – ameaça que lhes garantiu o pagamento de parte de seus salários atrasados. Mas, segundo ele, nenhum dos funcionários estava particularmente ansioso em levar adiante essa ameaça por medo de que a divulgação acabasse com os negócios do hotel também com seus empregos. Hernandez pediu para que o nome do hotel não fosse divulgado por esse motivo. "Esta é a nossa fonte de renda", disse ele.
Alguns empregadores dizem estar fazendo o seu melhor, mas afirmam que seus clientes geralmente pagam com atraso ou nem pagam o que devem. Outros dizem que têm se esforçado muito para pagar seus funcionários. Um deles, que não se identificou por não querer expor os problemas financeiros da sua empresa imobiliária, disse que sua família havia vendido uma casa de praia e uma vaga em uma garagem para pagar as comissões dos empregados antecipadamente este ano.
"Sabemos que todos os nossos funcionários têm suas próprias obrigações: financiamentos imobiliários, famílias", disse ele. "Pagar os salários na data certa é sagrado, é um ato de fé".
Alguns defensores dos trabalhadores temem que o atraso dos tribunais esteja dando a empregadores abusivos uma alavancagem extra. Os trabalhadores ficam por mais tempo em seus empregos porque sabem que, se desistirem e recorrerem à Justiça, não conseguirão arranjar dinheiro tão cedo. "As empresas compreendem toda essa situação", disse Perez, para quem alguns trabalhadores são simplesmente pressionados a aceitar menos do que lhes é devido. "É uma vergonha".
Recentemente, em entrevista concedida em sua casa, Ana Maria disse que, algumas vezes, usou seu cartão de crédito para quitar seu financiamento imobiliário. Mas ela se considera mais sortuda do que a maioria das pessoas. Pelo menos, sua família foi capaz de lhe emprestar dinheiro quando ela precisou – pelo menos até agora.
Ainda assim, ela tem que lutar contra a raiva que sente ao passar tantas horas trabalhando sem ganhar nada em troca. "Eu tento não deixar isso me afetar e, no geral, não quero transmitir essa amargura para a minha família", disse ela. "Isso não vai nos alimentar".
(Tradução: Cláudia Gonçalves)

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