sexta-feira, 16 de maio de 2014

Imigração irregular para Europa triplica com conflitos na Ásia e Europa
L. Abelha e J. Casqueiro - El País
Borja Suarez/Reuters
Imigrante se cobre com cobertor da Cruz Vermelha no porto de Arguineguín, na ilha de Gran Canária, uma das maiores das Ilhas Canárias. Ele foi interceptado próximo ao arquipélago espanhol Imigrante se cobre com cobertor da Cruz Vermelha no porto de Arguineguín, na ilha de Gran Canária, uma das maiores das Ilhas Canárias. Ele foi interceptado próximo ao arquipélago espanhol
A África e o Oriente Médio batem às portas da Europa em busca de um futuro melhor. A pressão migratória nas fronteiras comunitárias aumentou fortemente este ano, com números que são mais que o triplo dos de 2013. O número de pessoas detectadas nas fronteiras de maneira irregular subiu para 42 mil entre janeiro e abril deste ano, segundo dados da Frontex, a agência europeia de controle de fronteiras. Dessa forma, os fluxos se aproximam do nível recorde registrado em 2011, com as revoltas da Primavera Árabe. No ano todo chegaram ao clube comunitário mais de 140 mil pessoas.
A UE investe tempo e dinheiro para reforçar suas portas de entrada, mas as turbulências do exterior tornam praticamente insignificantes as tentativas de conter o êxodo. É o que demonstram os dados sobre a origem desses imigrantes. Cerca de 25 mil, mais da metade dos interceptados, partiram da Líbia, um autêntico ralo pela ausência de Estado que controle os movimentos.
Os números, apresentados ontem a um grupo de jornalistas em Bruxelas, são preliminares e pouco prolixos, mas permitem constatar a força com que crescem os fluxos migratórios nos últimos meses. Os números da Frontex incluem todas as entradas por fronteiras marítimas e terrestres detectadas pelas forças de segurança dos países comunitários, que fornecem a informação.
Alguns dias depois da última tragédia de Lampedusa, que deixou pelo menos 17 mortos e mais de 200 resgatados às portas da Europa, o avanço da Frontex atribui à Itália a pior parte do panorama. A chamada rota do Mediterrâneo central - barcos que partem principalmente da Líbia com estrangeiros procedentes do Chifre da África - concentra mais da metade dos irregulares detectados até abril, explicam na agência europeia.
Muito inferior é o impacto na rota que leva diretamente à Espanha, a do Mediterrâneo ocidental. Pouco mais de 2.200 pessoas tentaram entrar por Ceuta e Melilla, cifra que é o triplo do mesmo período do ano passado, mas que continua sendo pouco significativa na foto global. Apesar de tudo, o dado mostra uma notável aceleração em relação a 2013, quando as entradas por esta via cresceram 7%.
A procedência dos que tentam cruzar para o outro lado do mundo reflete com nitidez a origem dos problemas. A Síria se transforma no maior emissor de imigrantes irregulares desse registro - a Frontex não explica mais a informação, à espera do relatório definitivo -, seguida de países subsaarianos. Enquanto o Afeganistão, durante muitos anos principal foco de estrangeiros, retrocede.
Além de fatores externos, alguns especialistas apontam a intervenção europeia como um fator que determina os fluxos. Depois do naufrágio de Lampedusa que sacudiu a Europa no ano passado, a Itália decidiu estabelecer uma missão naval de vigilância de fronteiras e salvamento de imigrantes. "É um debate difícil. É uma obrigação humanitária salvá-los, mas em curto prazo essa missão atua como um fator que estimula as saídas. Se os imigrantes sabem que serão salvos, podem correr o risco", argumenta Elizabeth Collett, diretora para a Europa da organização Migration Policy Institute.
Embora seja trágico, a fome, o medo da guerra e outras dificuldades empurram muitos a arriscar-se. Depois de detectá-los no mar, as autoridades devem conduzir os imigrantes a solo europeu, onde têm a possibilidade de pedir asilo e esperar - em centros de internamento especiais - que se resolva seu pedido. Se não o solicitarem ou não cumprirem os requisitos, serão deportados, mas o processo é complexo, especialmente se não existir acordo de retorno com o país de origem. A maioria, além disso, se recusa a informar sua procedência, especialmente na Espanha. A metade dos que se dirigem à fronteira espanhola é de nacionalidade desconhecida.
Para evitar perigosos cruzamentos de fronteiras, essa especialista propõe potencializar os chamados reassentamentos, que permitem que os que precisam fugir de seu país organizem a viagem legalmente, com ajuda da agência da ONU para os refugiados (Acnur). Mas essa fórmula é pouco utilizada na UE. "É uma decisão muito política. Alguns dirigentes têm medo do debate público. E além disso não sabem onde termina o assentamento", raciocina Collett.
O mapa elaborado pelo Observatório de Deslocamentos Internos (IDMC) da Noruega, apresentado também ontem em Genebra com o apoio da Acnur, mostra uma alarmante faixa vermelha muito bem delimitada no centro da África. O IDMC monitora esses movimentos forçados em todo o mundo com dados oferecidos pelos governos, as ONGs e as agências da ONU. Em 1998 foram registrados 19,3 milhões de deslocamentos. A tendência desde então sempre foi de alta. Em dezembro de 2013 chegaram a ser constatados 33,3 milhões, um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior.
Das pessoas deslocadas em 2013 de seus países por razões de violência, intimidação das minorias, menores e mulheres e conflitos, 63% surgiram de diferentes pontos da Síria, Colômbia, Nigéria, República Democrática do Congo e Sudão. Neste exercício se incluem pela primeira vez dados sobre a Nigéria, com 3,3 milhões de cidadãos obrigados a abandonar seu hábitat. Nesse caso, destaca-se a colaboração de seu governo ao facilitar esse trabalho, ao contrário do que ocorre na Síria, onde as autoridades boicotam a ajuda humanitária internacional e ocorrem sequestros de estrangeiros.
Tanto Jan Egeland, secretário-geral do órgão norueguês, como António Guterres, o alto comissário da Acnur, destacaram o caráter preocupante dos números e da tendência para alertar que algo está sendo muito mal feito na hora de enfrentar esse problema, para o qual se reclama uma solução solidária.
Especificamente em 2013 tiveram de deixar suas casas um total de 8,2 milhões de pessoas, 1,6 milhão a mais que em 2012, com uma fuga que se concentrou quase 43% na Síria. Só 2% (cerca de 108 mil pessoas) habitam em campos de refugiados nas fronteiras com a Turquia. O relatório qualifica a crise na Síria, em guerra interna desde 2011, "como a maior e a que evolui mais rápido no mundo".
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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