Influências de Putin
Gilles Lapouge - O Estado de S.Paulo
Vladimir Putin continua a fazer os ocidentais de tolos.
Os reduziu a espectadores, condenados a contar o número de balas por
cima da sua cabeça e às vezes a gritar de medo ou de admiração, como
fazem as crianças levadas para assistir a uma queima de fogos.
Um dia acreditam que Putin mobilizará seus tanques e consumar sua
vitória. Noutro ele estende a mão, ruge para os pró-russos de Donbasse e
diz que a única coisa importante será a eleição presidencial na Ucrânia
dia 25. Os ocidentais alegram-se, mas então Putin vai à Crimeia, onde
organiza um triunfo "à la romana", com velhos e gordos generais, peito
repleto de medalhas e navios de guerra em fila no Mar Negro.
Nas chancelarias, repete-se que Putin é um "jogador de xadrez". Isso é
falso. Um jogador de xadrez respeita regras. Putin fabrica as suas. Por
isso é escorregadio como uma enguia - uma enguia imoral, mas uma
enguia.
Nas bibliotecas, examinam-se os tratados clássicos de estratégia. A
primeira ideia foi estudar Napoleão, mas não há nada mais enganador.
Napoleão foi um gênio especializado em canhões, sangue e a guerra
absoluta. Ele alimentará a obra do maior teórico ocidental de
estratégia, Carl von Clausewitz, defensor da guerra total.
Clausewitz portanto não serve. Então foi exumada a obra de outro
estrategista, o chinês Sun Tsu, que viveu cinco séculos antes de Cristo.
Em sua célebre obra A Arte da Guerra, Sun Tsu afirma que a habilidade
suprema do soldado é "vencer sem combater". De fato, Putin manifestou
uma prudência extrema nas provocações. Colocou 40 mil homens a 100
quilômetros da fronteira da Ucrânia. E 15 mil soldados apenas nos 10
quilômetros próximos da fronteira.
Caças russos jamais sobrevoaram o espaço aéreo ucraniano, mas
passaram pela tangente como dizem os pilotos. Quando os americanos
anunciaram o envio para a Polônia de quatro guarnições de soldados,
Moscou respondeu mobilizando um batalhão de paraquedistas no enclave
russo da ex-Leningrado, entre a Polônia e a Lituânia. A estratégia deu
certo. Putin não apenas se apoderou, de passagem, da Crimeia, mas
também, depois de alguns dias, fragilizou a unidade da Ucrânia.
Isso também deu resultado em termos de opinião pública. A chanceler
Angela Merkel uniu-se à França para exigir novas sanções, mas a
população resiste. Apenas um em cada três alemães aprova um reforço das
sanções contra a Rússia. E 39% dos alemães preferem a negociação. E face
à habilidade de Putin, para 51% dos alemães o Ocidente não tem sangue
frio e forças para conter o avanço russo.
Pelo menos no momento, a Rússia aplica literalmente os conselhos
estratégicos de Sun Tsu, incluindo o preceito com base sobre o qual o
chinês resumiu a sua doutrina: "A arte da guerra é a arte do engano".
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
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