Manifestações desrespeitam direitos individuais
Milhões têm sido
atormentados por grupos organizados que, sob diversos pretextos, fecham
vias essenciais diante da passividade do poder público
O Globo
Faz quase um ano que as
principais cidades brasileiras convivem com manifestações de rua. Muito
natural num regime democrático, em que uma das características é a
garantia à liberdade de expressão. Mas não é simples assim.
Em
junho do ano passado, o país viu surgir um movimento de características
especiais: fermentado nas redes sociais na internet, sem ligações com
sindicatos, à margem do comando da cúpula de partidos como o PT e suas
máquinas de fazer mobilizações políticas.
Em algumas passeatas,
bandeiras e faixas de partidos foram proibidos. Ficava entendido que se
tratava de uma erupção social suprapartidária causada pelo cansaço de
cidadãos de diversos extratos sociais diante do descaso do poder público
com serviços essenciais — educação, saúde e transporte.
Houve
simpatia com o gesto. Mas, não muito tempo depois, os manifestantes de
junho foram banidos das ruas por sindicalistas e militantes partidários.
Grupos de vândalos passaram a se aproveitar para promover depredações,
até que dois deles assassinaram, no Rio, o cinegrafista da Bandeirantes,
Santiago Andrade.
Há meses, cidades como Rio e São Paulo são
forçadas a incorporar a seu cotidiano uma infinidade de manifestações de
rua, algumas muito violentas. Incendiar ônibus passou a ser perigosa
rotina, sempre em prejuízo da maioria da população, a que se utiliza do
transporte coletivo.
A vida de milhões pessoas tem sido
atormentada por grupos organizados que, sob os mais diversos pretextos,
fecham vias essenciais. A PM, por sua vez, evita agir com violência — o
que não é mal —, porém, como falta um protocolo de operação pelo qual
direitos individuais sejam protegidos, sem excessos policiais, tudo
continua na mesma. E quaisquer 50 pessoas podem paralisar amplas áreas
de Rio, São Paulo ou qualquer outra cidade, em prejuízo, por exemplo, do
atendimento de emergência à população, pois ambulâncias, patrulhas e
bombeiros também são apanhados pelos enormes engarrafamentos.
É
de extrema oportunidade, então, um insuspeito manifesto lançado por
professores e pesquisadores universitários — entre eles, Alba Zaluar e
Simon Schwartzman — em que é exigido do poder público que “preserve o
direito de ir e vir a todos aos cidadãos, não apenas aos grupos de
manifestantes”. É criticada a passividade das autoridades diante da
situação. O documento alerta que o efeito deste absoluto desregramento é
o descrédito das próprias manifestações — “isso não é democracia, mas
prepara sua destruição”.
Já passou, portanto, da hora de os
governos agirem. Basta exigirem o cumprimento do que já estabelece a
legislação, inclusive a Constituição. Falta decisão política para se
fazer o óbvio.
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