Nacionalistas causam 'terremoto político' em Paris
Vitória da extrema direita de Marine Le Pen, na eleição de
domingo para o Parlamento Europeu, abala base de partidos tradicionais
da França
COLLETTE DAVIDSON - CHRISTIAN SCIENCE MONITOR/O Estado de S.Paulo
Depois que a extrema direita da França, representada
pelo partido Frente Nacional (FN), contrário à imigração, obteve uma
vitória histórica nas eleições europeias de domingo, sua tarefa agora se
voltou para a dissolução da Assembleia francesa e a criação de uma
aliança com os eurocéticos. O Partido Socialista, do presidente François
Hollande, define o resultado como um "terremoto político".
Pouco depois de as pesquisas de boca de urna anteciparem sua vitória,
a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, já se mostrava desafiadora.
Com as estimativas preliminares que davam à FN uma liderança
confortável, com 25%, em comparação aos 20,6% da União por um Movimento
Popular (UMP), de centro-direita, e aos 14,2% do Partido Socialista,
Marine afirmou que o povo francês falara em alto e bom som.
"Nosso povo quer uma política feita pelos franceses, para os
franceses e com os franceses. Ele não quer mais ser liderado de fora nem
se submeter a leis de fora", declarou ela na sede do seu partido, no
bairro de Nanterre, nos arredores de Paris.
"Nós devemos construir outra Europa, uma Europa livre, formada por
nações soberanas e na qual a cooperação seja decidida livremente. Essa é
uma rejeição maciça à União Europeia", afirmou Marine, pedindo ao
presidente Hollande a dissolução da Assembleia Nacional. "O que poderá
fazer o presidente após tamanha rejeição?", questionou.
A vitória da Frente Nacional provocou uma tempestade de comentários,
além de um choque nos partidos de oposição. Embora as pesquisas de
opinião do início do mês mostrassem a FN assumindo a liderança nas
eleições europeias, alguns observadores ficaram surpresos quando viram
isso ocorrer de fato.
O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, definiu os resultados como
"um grave momento para a França". "Rejeitar os outros não é do feitio
dos franceses e não é essa a imagem que queremos para a França", disse
Valls, referindo-se à posição da FN em relação à imigração.
Os resultado do partido de Marine, no domingo, foi o melhor já obtido
pela FN em eleições, francesas ou europeias, e supera os da votação
presidencial de 2002 - quando o pai de Marine e ex-líder do partido,
Jean-Marie Le Pen, conseguiu ir ao segundo turno com cerca de 18% dos
votos.
Os números das eleições devem oferecer à FN uma representação
considerável no Parlamento Europeu, com algo entre 21 e 24 cadeiras, das
74 que a França tem direito - um aumento significativo em comparação às
3 que eles obtiveram em 2009. Ao mesmo tempo, a UMP deve conseguir
entre 18 e 21 cadeiras, enquanto os socialistas obterão de 13 a 15.
Troca de acusações. Apesar das numerosas viagens de
Valls a países vizinhos - incluindo Alemanha e Espanha - para mostrar o
real compromisso da França com a Europa, o Partido Socialista registrou
seus piores resultados na história das eleições.
Em 2009, quando obteve 16%, o resultado já foi considerado uma
"catástrofe". Alguns observadores indagam se o índice de 57% de
abstenção não teria contribuído para os magros resultados dos
socialistas.
Ao mesmo tempo, o líder da UMP, Jean-François Copé, foi culpado pelo
fracasso do seu partido. O prefeito de Bordeaux, Alain Juppé, da UMP,
pediu uma liderança mais "coletiva" e o adversário de Copé, o
ex-primeiro-ministro François Fillon, disse que o partido precisa agora
procurar as respostas no seu interior. Segundo Copé, os resultados foram
a prova da "enorme exasperação" do povo francês, que os atribui ao
governo do presidente Hollande.
Enquanto os dois principais partidos da França tentam analisar o que
deu errado, a FN agora procurará criar uma aliança pan-europeia com os
partidos de extrema direita.
Marine já dispõe da aprovação inicial do Partido Austríaco da
Liberdade e do Partido da Liberdade, da Holanda, mas precisará convencer
os parlamentares de pelo menos outros seis países para a formação de um
novo grupo.
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
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