Presidente abre caminho para o Exército dos EUA treinar rebeldes sírios moderados e anuncia fundo de US$ 5 bilhões para governos no Oriente Médio e norte da África
Cláudia Trevisan - O Estado de S. Paulo
WASHINGTON - O presidente dos EUA, Barack Obama, abriu caminho para o envolvimento do Exército americano no treinamento de rebeldes sírios "moderados" e anunciou a criação de um fundo de US$ 5 bilhões para fortalecer a capacidade de governos e "parceiros" no Oriente Médio e norte da África de combater o terrorismo. As medidas anunciadas por Obama na quarta-feira, 28, em Washington, são as bases de sua nova política externa.

Mike Groll/AP
Obama discursa na Academia Militar de West Point
Em sua visão, a cooperação é a melhor maneira de enfrentar a natureza
difusa que organizações terroristas passaram a ter depois das guerras
do Afeganistão e do Iraque, com o surgimento de células descentralizadas
da Al-Qaeda e outros grupos. Intervenções militares unilaterais, que
marcaram o período posterior aos atentados do 11 de Setembro, não são a
melhor maneira de combater essa nova face do terrorismo, disse Obama.
Parte da ajuda será destinada aos vizinhos da Síria, que enfrentam uma crise humana com a chegada de 9 milhões de refugiados da guerra civil e a multiplicação de grupos terroristas que combatem o regime de Bashar Assad.
Falando a formandos da Academia Militar de West Point, Obama não escondeu sua aversão ao uso unilateral da força. "Desde a 2.ª Guerra, alguns de nossos erros mais custosos vieram não de nossa contenção, mas de nossa disposição de entrar em aventuras militares sem pensar nas consequências."
Obama não descartou a hipótese de intervenções militares, mesmo que unilaterais, mas afirmou que elas só devem ser usadas quando houver ameaças à população americana, quando seu modo de vida estiver em risco e quando a segurança de seus aliados estiver em perigo.
No mundo do terrorismo difuso, o melhor caminho é fortalecer quem luta contra ele em seu próprio território. É nessa moldura que Obama pretende discutir com o Congresso caminhos para o Exército americano envolver-se no treinamento da oposição moderada da Síria.
Segundo Obama, essa nova manifestação do terrorismo reduz a possibilidade de um atentado maciço aos EUA semelhante ao do 11 de Setembro, mas amplia a vulnerabilidade de seus funcionários e representantes no exterior, ao mesmo tempo em que torna mais frequentes ataques como o realizado contra um shopping center em Nairóbi, no qual 67 pessoas morreram em setembro.
O objetivo de Obama era definir as diretrizes para o que vê como o exercício da liderança global dos EUA. Nele, o presidente fez a defesa da ordem mundial sob o comando americano depois da 2.ª Guerra e disse que o país deve se submeter às regras internacionais se pretende que elas sejam obedecidas pelos demais. "O que nos faz excepcionais não é nossa habilidade de ignorar normas internacionais ou o império da lei; é nossa disposição reafirmá-los com nossas ações."
A obediência a esses princípios exige o fechamento da prisão de Guantánamo, disse Obama, voltando à promessa de campanha de 2008 que não conseguiu cumprir em razão da oposição no Congresso. "Os valores americanos e nossa tradição legal não permitem a detenção indefinida de pessoas além de nossas fronteiras."
O desrespeito às regras internacionais mina a pretensão americana de liderar o mundo, reconheceu Obama, dizendo que o mesmo problema está presente nas ações da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês). "É por isso que estou impondo novas restrições a como o país coleta e usa inteligência - porque nós vamos ter menos parceiros e ser menos eficientes se a percepção de que vigiamos cidadãos comuns for dominante."
Nenhum comentário:
Postar um comentário