Macha Séry - Le Monde
Uma reportagem? Não, "uma pequena viagem por uma mancha de sangue". Eis como Pierre Mac Orlan (1882-1970), enviado ao Reino Unido pelo "Le Journal", no final de julho de 1934, classificava sua investigação sobre a descoberta do tronco de uma mulher grávida em um guarda-volumes da estação ferroviária de Brighton, cujas pernas foram encontradas no dia seguinte na estação de King's Cross, em Londres. O autor de "Quai des Brumes" (1927), como se sabe, era um andarilho criativo, partidário do fantástico social em virtude do qual "um assassinato é um ato particularmente criador de fantasmas".
Ademais, ele se via mais
como "um escritor em viagem de estudos" do que como jornalista. Ele não
possuía nenhuma das qualidades de um detetive, como ele contava a seus
leitores. "Confesso que tenho uma indulgência que não me permitiria
descobrir um assassino entre uma multidão, ainda que esse homem levasse a
perversidade a ponto de pedir sua prisão".
Em vez de consultar os laudos e tentar arrancar indiscrições da polícia britânica, ele andava ao léu, passando de um encontro para outro, ouvindo conversas em bares. Evidentemente, ele gostava de ouvir os rumores, o que ele chamava de "o mundo pitoresco dos exegetas do povo". "O mistério do baú número 1", que dá título à série de artigos publicados entre 31 de julho e 6 de agosto (10/18, coleção "Grandes Repórteres", 1984), nunca foi solucionado. Mas os policiais da Scotland Yard, ajudados por seus colegas de Brighton, desentocaram outra lebre: um terceiro baú.
Alertados sobre o desaparecimento de uma mulher de 42 anos, eles resolveram olhar com mais atenção para seu amante, o chamado Tony Mancini, conhecido também como Jack Notyre, "obscuro gigolô de olhar fascinante", "vulgo Don Juan", para usar os termos de Mac Orlan. Recoberto por fotos de mulheres nuas, seu quarto no subsolo do número 52 da Kemp Street, em um bairro certinho de Brighton, recendia a um cheiro insuportável que incomodava os outros moradores. Dentro de um baú coberto com um pano que servia de mesinha de centro, jazia havia dois meses o cadáver decomposto de Violette Kaye, dançarina e prostituta ocasional.
Paixão
Seu amante de 26 anos foi preso, mas negou todas as acusações. Ele alegava ter ele mesmo encontrado a vítima morta em sua casa e, por medo de ser acusado devido a seu histórico criminal por roubo e vadiagem, havia transportado o corpo em um carrinho de mão para escondê-lo em sua casa. Nesse caso, quem seria o verdadeiro responsável? O detento da prisão de Lewes diz não saber. Que ligação haveria entre os dois assassinatos? Segundo a opinião popular, a "segunda vítima foi sacrificada porque sabia demais sobre o assassinato da namorada de Jack Notyre". Pura conjectura.
O romancista de boina escocesa prometeu para si mesmo reavivar a vítima, "a ex-garota da trupe de Mrs. Kate Carney, ex-esposa do minerador galês de Ponypridd e, por fim, a 'good bad girl' errante", desiludida amorosamente desde que sucumbiu aos encantos de seu cafetão. Na tranquila estação balneária que serve de local de férias para os londrinos, ele deixou sua imaginação voar, forjando diálogos e brigas entre os dois amantes. Pierre Mac Orlan comparava o garçom de café e gigolô ao "Love o'Women", um herói de Rudyard Kipling. "Ele sabia criar o cenário banal e furioso daquilo que se chama popularmente de paixão".
Mancini, um bandido de terceira categoria que frequentava salões de jogos, era um tipo meio briguento. Ele lembrava os personagens suspeitos dos relatos de Mac Orlan, malfeitores, legionários, flibusteiros.
Teoria
Mas como escrever sem informações em primeira mão? Por acaso, o escritor encontrou uma espécie de alter ego em um pub, apreciador de cerveja e de romances policiais, disposto tanto a desabafar quanto a matar sua sede. Ele dizia ter elaborado uma teoria sobre o crime, que teria sido cometido por "um desses seres malditos inventados, pode-se dizer, por um excesso de civilização". Durante uma violenta noite em uma mansão isolada, esse sádico teria matado as duas mulheres. Mancini, que as teria levado, foi só seu cúmplice". "O plano romanesco de M.B., meu amigo, me parecia bem sedutor. Minha profissão de escritor tendia a me dar coisas com um aspecto de acordo com meu interesse.
Pierre Mac Orlan, que considerava que "os repórteres talvez sejam os melhores romancistas dessa época rica em aventuras, em forças e em pesadelos", como ele disse a Mussolini em 1925 durante uma entrevista publicada no "L'Intransigeant", nem sempre mostrou essa desenvoltura. Em março de 1932, ele assinou um estudo sobre a miséria observada nas ruas e nos albergues berlinenses.
É verdade que lhe faltavam análise política e perspectiva histórica. Mas seu olhar as compensava. Em Brighton, no ano 1934, ele se divertiu, substituindo os fatos pelas impressões, e as certezas pelas recriações. Simenon reconheceu sua dívida para com aquele que ele encontrou na redação da publicação semanal "Détective". "Você é um grande cara, caro Mac Orlan, Todo mundo concorda com isso e o considera como um dos raros caras que, simples e gentilmente, ensinam os outros a olharem ao seu redor com um olhar diferente. Então nós lhe devemos um tanto."
A reportagem de Mac Orlan, na qual ele se inspirou para seu romance policial "Le Tueur numéro 2" ("O assassino número 2", 1935), se encerrou com um concerto religioso dado por soldados do Exército da Salvação. O julgamento de Tony Mancini começou no dia 10 de dezembro de 1934. Um grafologista confirmou que a letra da carta enviada por Violette à sua irmã, na qual ela informava estar partido para o exterior, batia com a de Tony Mancini. Uma testemunha declarou ter visto o casal brigando em um bar na véspera do desaparecimento de Violette, e uma outra que Mancini lhe pedira para fornecer um álibi.
Contrariando todas as expectativas, frustrando todos os prognósticos dos bookmakers de Brighton, o suspeito foi absolvido, graças a um célebre advogado que argumentou que esses indícios só provavam uma coisa: o homem temia ser acusado injustamente. Ele confessou ser culpado em 1976, a um jornalista do "News of the World". Ele teria matado sua amante com uma martelada durante uma briga violenta. Quanto à mulher do baú número 1, ela jamais foi identificada.
Em vez de consultar os laudos e tentar arrancar indiscrições da polícia britânica, ele andava ao léu, passando de um encontro para outro, ouvindo conversas em bares. Evidentemente, ele gostava de ouvir os rumores, o que ele chamava de "o mundo pitoresco dos exegetas do povo". "O mistério do baú número 1", que dá título à série de artigos publicados entre 31 de julho e 6 de agosto (10/18, coleção "Grandes Repórteres", 1984), nunca foi solucionado. Mas os policiais da Scotland Yard, ajudados por seus colegas de Brighton, desentocaram outra lebre: um terceiro baú.
Alertados sobre o desaparecimento de uma mulher de 42 anos, eles resolveram olhar com mais atenção para seu amante, o chamado Tony Mancini, conhecido também como Jack Notyre, "obscuro gigolô de olhar fascinante", "vulgo Don Juan", para usar os termos de Mac Orlan. Recoberto por fotos de mulheres nuas, seu quarto no subsolo do número 52 da Kemp Street, em um bairro certinho de Brighton, recendia a um cheiro insuportável que incomodava os outros moradores. Dentro de um baú coberto com um pano que servia de mesinha de centro, jazia havia dois meses o cadáver decomposto de Violette Kaye, dançarina e prostituta ocasional.
Paixão
Seu amante de 26 anos foi preso, mas negou todas as acusações. Ele alegava ter ele mesmo encontrado a vítima morta em sua casa e, por medo de ser acusado devido a seu histórico criminal por roubo e vadiagem, havia transportado o corpo em um carrinho de mão para escondê-lo em sua casa. Nesse caso, quem seria o verdadeiro responsável? O detento da prisão de Lewes diz não saber. Que ligação haveria entre os dois assassinatos? Segundo a opinião popular, a "segunda vítima foi sacrificada porque sabia demais sobre o assassinato da namorada de Jack Notyre". Pura conjectura.
O romancista de boina escocesa prometeu para si mesmo reavivar a vítima, "a ex-garota da trupe de Mrs. Kate Carney, ex-esposa do minerador galês de Ponypridd e, por fim, a 'good bad girl' errante", desiludida amorosamente desde que sucumbiu aos encantos de seu cafetão. Na tranquila estação balneária que serve de local de férias para os londrinos, ele deixou sua imaginação voar, forjando diálogos e brigas entre os dois amantes. Pierre Mac Orlan comparava o garçom de café e gigolô ao "Love o'Women", um herói de Rudyard Kipling. "Ele sabia criar o cenário banal e furioso daquilo que se chama popularmente de paixão".
Mancini, um bandido de terceira categoria que frequentava salões de jogos, era um tipo meio briguento. Ele lembrava os personagens suspeitos dos relatos de Mac Orlan, malfeitores, legionários, flibusteiros.
Teoria
Mas como escrever sem informações em primeira mão? Por acaso, o escritor encontrou uma espécie de alter ego em um pub, apreciador de cerveja e de romances policiais, disposto tanto a desabafar quanto a matar sua sede. Ele dizia ter elaborado uma teoria sobre o crime, que teria sido cometido por "um desses seres malditos inventados, pode-se dizer, por um excesso de civilização". Durante uma violenta noite em uma mansão isolada, esse sádico teria matado as duas mulheres. Mancini, que as teria levado, foi só seu cúmplice". "O plano romanesco de M.B., meu amigo, me parecia bem sedutor. Minha profissão de escritor tendia a me dar coisas com um aspecto de acordo com meu interesse.
Pierre Mac Orlan, que considerava que "os repórteres talvez sejam os melhores romancistas dessa época rica em aventuras, em forças e em pesadelos", como ele disse a Mussolini em 1925 durante uma entrevista publicada no "L'Intransigeant", nem sempre mostrou essa desenvoltura. Em março de 1932, ele assinou um estudo sobre a miséria observada nas ruas e nos albergues berlinenses.
É verdade que lhe faltavam análise política e perspectiva histórica. Mas seu olhar as compensava. Em Brighton, no ano 1934, ele se divertiu, substituindo os fatos pelas impressões, e as certezas pelas recriações. Simenon reconheceu sua dívida para com aquele que ele encontrou na redação da publicação semanal "Détective". "Você é um grande cara, caro Mac Orlan, Todo mundo concorda com isso e o considera como um dos raros caras que, simples e gentilmente, ensinam os outros a olharem ao seu redor com um olhar diferente. Então nós lhe devemos um tanto."
A reportagem de Mac Orlan, na qual ele se inspirou para seu romance policial "Le Tueur numéro 2" ("O assassino número 2", 1935), se encerrou com um concerto religioso dado por soldados do Exército da Salvação. O julgamento de Tony Mancini começou no dia 10 de dezembro de 1934. Um grafologista confirmou que a letra da carta enviada por Violette à sua irmã, na qual ela informava estar partido para o exterior, batia com a de Tony Mancini. Uma testemunha declarou ter visto o casal brigando em um bar na véspera do desaparecimento de Violette, e uma outra que Mancini lhe pedira para fornecer um álibi.
Contrariando todas as expectativas, frustrando todos os prognósticos dos bookmakers de Brighton, o suspeito foi absolvido, graças a um célebre advogado que argumentou que esses indícios só provavam uma coisa: o homem temia ser acusado injustamente. Ele confessou ser culpado em 1976, a um jornalista do "News of the World". Ele teria matado sua amante com uma martelada durante uma briga violenta. Quanto à mulher do baú número 1, ela jamais foi identificada.
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