“O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam”. (Arnold Toynbee)
Rodrigo Constantino - VEJA
A esquerda costuma ser bastante
organizada e unida, enquanto os liberais, por definição, são mais
independentes e vivem isolados, cuidando da própria vida. Vemos,
portanto, uma difusão de certas inverdades por parte da esquerda, que
ficam sem muita contestação. O objetivo desse texto é desfazer algumas
delas, principalmente no que diz respeito ao alvo predileto deles: os
Estados Unidos.
Em primeiro lugar, vamos tentar
compreender o motivo dessa obsessão antiamericana. No passado recente,
num mundo bipolar, os Estados Unidos representavam o experimento
capitalista liberal, enquanto a União Soviética era o socialismo
planejado. Com a queda do segundo, ocorreu uma perda de identidade por
parte dos países socialistas, já que ele representava o denominador
comum desses povos. Atônitos, eles precisam encontrar um novo foco, que
passa a ser então o antiamericanismo.
Não recuperados da humilhação que foi a
queda da “cortina de ferro” e o aparecimento de suas cruéis atrocidades,
com mais de cem milhões de vítimas fatais no currículo, precisam tentar
“provar” que os Estados Unidos, e por conseguinte o capitalismo, também
falharam. Jamais vão perdoar os americanos pela vitória na Guerra Fria!
Nessa jornada passional, vale absolutamente tudo, desde mentiras
grosseiras, passando por propaganda enganosa maciça, sofismas, inversão
de causalidade ou ocultação de fatos. O objetivo é apenas um: condenar o
capitalismo liberal e seu maior ícone.
Vale aqui um alerta: os Estados Unidos
não representam o ideal dos liberais. Lá, o Estado é um Leviatã também,
que extorque quase 30% da riqueza privada em nome do bem-estar social.
Mas atualmente, é o que temos mais próximo do liberalismo, justamente a
causa de seu sucesso relativo.
O artigo tenta resumir o livro de
Jean-François Revel, renomado escritor que foi membro da Academia
Francesa. De tempos em tempos, apesar de a França ser um dos países mais
antiamericanos da Europa, surge um francês que faz uma avaliação isenta
de xenofobia. Aléxis de Tocqueville escreveu no século XIX seu clássico
A Democracia na América, excelente livro que destaca com
detalhes as diferenças básicas entre a França e os Estados Unidos. Revel
também utiliza bastante a comparação entre as nações. O que mais
impressiona no antiamericanismo não é a desinformação, já que a
quantidade de informação disponível sobre o tema é vasta. O que é
incrível nisso tudo é a vontade deliberada de estar desinformado.
Vejamos um primeiro exemplo, a Guerra do
Vietnã. Normalmente um dos assuntos mais citados para se criticar o
“império” americano – não sem boa dose de razão, mas que nunca ninguém
destaca as causas da guerra, atreladas aos fracassos militares da
França, que por não abrir mão da Indochina como colônia, acabou levando à
intervenção americana. Falam também do fato de a guerra ter matado
cerca de um milhão de pessoas ao longo de quase duas décadas, enquanto
omitem que o regime comunista de Ho Chi Minh, que lá se instalou quando
os americanos saíram, matou mais de três milhões. Camboja, que não
sofreu intervenção americana, viu cerca de um terço de sua população ser
dizimada pelo regime comunista, e isso não costuma ser lembrado. Não
lembram ainda que a ajuda americana na Coréia foi o que possibilitou a
sulista ser próspera e livre hoje, e não como sua irmã do norte. Os
Estados Unidos podem e devem ser condenados pelos erros no Vietnã, mas
reforço o apelo pela busca mais imparcial dos fatos, já que a paixão
pode cegar um homem.
Um dos pontos mais repetidos diz respeito
ao argumento marxista de que, para o rico ficar mais rico, o pobre tem
que ficar mais pobre. Logo, como os americanos prosperaram
economicamente, conclui-se automaticamente que o mundo pagou o preço.
Esse absurdo pode ser refutado com a mais singela observação empírica,
mas a falsidade nunca impediu um ponto de vista de prosperar, quando
sustentado pela ideologia e protegido pela ignorância.
Gostando ou não, a verdade é que a
superpotência americana resulta em parte da vontade e criatividade de
seu povo, e em parte pelos fracassos acumulados do resto do mundo.
Afinal, foram os europeus que tornaram o século XX o mais negro da
história, provocando duas guerras mundiais e regimes totalitários
assassinos. Foram as nações européias, assim como Japão e China, que
tentaram conquistar outros países. O papel dos Estados Unidos foi
justamente o de salvar o mundo das garras de Stalin e Hitler, e
depois ajudar na reconstrução financeira européia com o Plano Marshall.
Mas, paradoxalmente, são os americanos os acusados de “império
colonizador”. Logo eles, que restauraram a democracia na Alemanha e no
Japão, e que compraram terras como a Louisiana e o Alaska.
O antiamericanismo é repleto de
contradições. Ora falam que o livre comércio é o veículo de exploração
americana, ora acusam o embargo de Cuba pela sua miséria. O embargo nada
mais é do que a proibição de empresas americanas negociarem com a ilha,
atitude bastante razoável dado o calote cubano em 1986 e seus mísseis
apontados para a Flórida no passado. A Europa reclama do protecionismo
de alguns setores nos Estados Unidos, como aço e agricultura, ao mesmo
tempo em que garante muito mais subsídios agrícolas em seus quintais. O
Bovè, um dos maiores beneficiados dessa ausência de competição leal, é o
maior crítico da globalização, e é recebido no Fórum Social Mundial com
honrarias, justamente pelos que mais sofrem com esses subsídios
paternalistas. Criticam violentamente a globalização, mas suas
ideologias totalitárias esquerdistas sempre tentaram avançar
internacionalmente. O que detestam não é a globalização em si, mas a
globalização liberal e democrática. E o mais engraçado é que esses
jovens, com coquetéis Molotov em mãos, se intitulam “pacifistas”.
Outra acusação comum é o aparente
alargamento da distância entre ricos e pobres. Deixando claro que para
alguém ficar mais rico não é necessário que outro fique mais pobre, não
vamos confundir também a distância entre eles com o nível absoluto de
vida das pessoas. Na Índia, apenas para dar um exemplo, a produção de
gêneros alimentícios multiplicou-se por dez em poucos anos, o que
permitiu o fim da fome em massa. Esse ganho absoluto deveria ser
louvável, mas parece que o ser humano olha apenas para a grama mais
verde do vizinho. Vários indicadores mostram facilmente como a qualidade
de vida dos pobres melhorou nos últimos séculos, com inúmeros avanços
graças a carona no progresso dos ricos. Se isso não é relevante, é
porque estamos lidando com um dos sentimentos mais mesquinhos da
humanidade: a inveja.
Como não reconhecer a evidência clara de
que vários países, como México, Canadá, Taiwan, Coréia e Cingapura,
melhoraram de vida rapidamente com o comércio com os americanos,
normalmente maiores compradores de seus produtos? Os americanos importam
cerca de US$ 800 bilhões a mais do que exportam todo ano. Até mesmo a
Europa depende dos Estados Unidos para crescer e gerar empregos. Muitos
mundo afora dependem praticamente do sucesso de uma nação, mas a
criticam o tempo todo. E se ainda temos tanta miséria pelo mundo, como
na África e países da América Latina, isso nada tem a ver com os
americanos, mas sim com o fato de essas nações terem adotado um modelo
socialista com receita de coletivização de terras e regimes
totalitários.
Capciosos, os críticos de plantão dos
Estados Unidos não cansam de repetir o fato de o país ser o que mais
investe na indústria bélica no mundo. Ignoram tranqüilamente o fato da
economia americana representar cerca de 30% da mundial, ou seja, eles
serão, via de regra, os que mais investem em todos os setores,
incluindo educação e saúde. Além disso, é fato que os americanos acabam
servindo como polícia do mundo livre, através da Pax Americana.
Já a China, que ainda está sob regime totalitário, vem aumentando
vertiginosamente seus gastos militares, e isso sim deveria preocupar os
“pacifistas”. De acordo com estimativas do Pentágono, a China tem
atualmente mais de setecentos mísseis próximos de Taiwan, e está
acelerando esta estocagem. Não é segredo que o Partido Comunista Chinês
tem a intenção de anexar a ilha ao seu território. O governo chinês
mantém relações amistosas com diversas ditaduras perigosas. A Coréia do
Norte e o Irã se armando deveria dar calafrios nos que almejam a paz, e
não a força americana. Estranhamente, são os Estados Unidos que são
vistos por muitos como real ameaça à paz global.
O caso da América Latina é especial. Como
bem colocou o pensador venezuelano Carlos Rangel, “para os
latino-americanos é um escândalo insuportável que um punhado de
anglo-saxões, chegados ao hemisfério muito depois dos espanhóis, tenham
se tornado a primeira potência do mundo”. Seria necessário um doloroso mea culpa,
que acaba levando a uma solução mais confortável de explicar nossa
situação inferior através do “imperialismo” americano, o bode expiatório
de sempre.
Sem dúvida, uma das críticas mais pesadas
em relação aos Estados Unidos é seu unilateralismo. Em primeiro lugar,
deve ficar claro que esse unilateralismo é conseqüência, não causa, da
perda de influência do resto do mundo. E como argumentar contra esta
postura americana quando se tem uma total ausência de um outro lado
ativo, ou que está evidente o viés antiamericano nas demais nações? Será
que alguém ainda duvida da inoperância da ONU, que nada fez sobre a
Chechênia, Tibete, Coréia, Kosovo e tantos outros casos?
A China tem poder de veto no Conselho de
Segurança da ONU, e tem usado este poder constantemente para desviar as
sucessivas tentativas dos Estados Unidos de impor sanções aos países que
representam ameaças, como o Irã em suas ambições nucleares. O Conselho
dos Direitos Humanos da ONU conta com países como China e Cuba, onde os
direitos humanos são completamente ignorados. A Liga das Nações,
antecessora da ONU, estaria provavelmente ainda hoje debatendo os riscos
da Alemanha nazista, enquanto o Füher estaria sentado em um trono
europeu, quiçá mundial. Como culpar o unilateralismo americano quando
sabemos que a Europa reluta até para reconhecer o perigo real do
islamismo fanático?
Os supostos “pacifistas”, que aclamam por
solução diplomática, são ou sonhadores românticos ou hipócritas. Aliás,
vestidos com a causa pacifista, os comunistas franceses exortaram os
trabalhadores das fábricas de armamento a sabotarem seu trabalho e
pressionaram os soldados a desertarem, quando os exércitos nazistas
estavam a poucas semanas de ocupar Paris. Pablo Picasso criou a
litografia da pomba da paz como presente para o genocida Stalin! Alguns
“pacifistas” poderiam estar em Guantánamo. É preciso lembrar que seria
necessário termos motivações lógicas e racionais por parte dos
terroristas para se ter alguma esperança de acordo diplomático. Mas sua
cruzada já ficou clara: destruir os infiéis, ou seja, todos os não
muçulmanos. O aforismo é antigo: com terroristas não se negocia. Podemos
fazer um paralelo com o caso de Hitler, onde fica claro que não seria
razoável alguém pensar em solução política amistosa.
Ainda em relação ao Islã, existe mais
contradição. O principal alvo é novamente os Estados Unidos, mas estes,
por sua vez, nunca colonizaram países muçulmanos, e pelo contrário, nas
intervenções na Somália, Bósnia ou Kosovo, assim como pressões sobre o
governo macedônio tiveram por objetivo defender as minorias islâmicas.
Quem ataca de facto os muçulmanos são os próprios muçulmanos,
como no caso do Iraque no Kwait, que foi defendido pelos americanos, ou
na Argélia, onde o próprio povo se massacra. Como que tamanha
contradição pode passar despercebida? Em 1956, foram os Estados Unidos
que detiveram a ofensiva militar anglo-francesa-israelense contra o
Egito, na chamada “Expedição Suez”. Nada disso é relevante para os povos
obstinados e imbuídos de fé cega, assim como pesada lavagem cerebral de
seus líderes, que utilizam os Estados Unidos como perfeito bode
expiatório, justificando assim o regime opressivo doméstico.
Os antiamericanos inundam os canais de
propaganda com afirmações de que foram os Estados Unidos que criaram Bin
Laden, e de tanta repetição, se tornou verdade incontestável. Somente
se explica isso por total ignorância ou má fé. No contexto da Guerra
Fria, o que haveria de anormal no fato de que Reagan aceitasse os
serviços de todos aqueles que quisessem resistir à União Soviética,
fossem ou não do Islã? Imaginem o que poderia ter representado para a
Índia, Paquistão ou países do Golfo uma ocupação definitiva dos
soviéticos sobre o Afeganistão. Gorbachev talvez jamais tivesse se
tornado líder, a Perestroika não teria existido e possivelmente teríamos ainda hoje milhões de gulags espalhados pelo mundo.
No campo econômico, os antiamericanos
costumam fugir dos números como o diabo foge da cruz. O fato dos Estados
Unidos terem criado quase dois milhões de empregos por ano nos últimos
15 anos, enquanto a Europa criou praticamente zero, incomoda
profundamente. Em nome do social, os europeus adoram criticar os
americanos, que não se interessariam tanto pela saúde dos mais pobres.
Acontece que as despesas públicas com saúde representam nos Estados
Unidos uma percentagem sensivelmente igual às da França, sem que isso
asfixie o setor privado. Aliás, o sucesso relativo dos americanos se
deve justamente ao maior espaço dado ao setor privado, bem mais
eficiente que o público. Essa diferença faz a taxa de desemprego na
França ser praticamente o dobro da americana, ou a renda média por
habitante dos americanos ser 30% maior que a dos franceses.
Como Voltaire disse, “julgue um homem
mais pelas suas perguntas que suas respostas”. Os antiamericanos não
querem fazer perguntas, pois temem pelas respostas, ou então porque já
possuem a resposta “certa” para todas as perguntas: é culpa da América! A
dificuldade de debater com um antiamericano típico está na percepção
que Karl Popper teve, de que é impossível debater com alguém que prefere
te matar a te dar razão.
Não consigo entender, utilizando a
lógica, o motivo para tanto rancor ao “american dream”. Se acham que é
tão ruim assim viver lá, como explicar a migração constante de diversos
povos diferentes para lá? Será que os pioneiros não iriam alertar seus
sucessores, em vez de mandarem passagens desenfreadamente? E ainda
conseguem acusar os americanos de racistas, sendo que são um dos únicos
grandes países a abrigarem diversas etnias e religiões de forma
civilizada. O sucesso da integração à americana é precisamente que os
descendentes de imigrantes podem perpetuar suas culturas ancestrais
sentindo-se plenamente cidadãos americanos. Essa convivência amistosa
deve realmente irritar muito pessoas que gostariam de impor, à força,
suas crenças religiosas ou políticas. Nos Estados Unidos já existem
quase 40 milhões de hispânicos, e cerca da metade dos bebês que nascem
na Califórnia são de famílias mexicanas. São mais de 30 milhões de
negros, e milhares de outros grupos, todos ajudando a criar essa
superpotência capitalista e liberal.
Muitos se sentem agredidos com a
“invasão” da cultura americana, do excesso de McDonalds em seus países.
Não param para pensar que a globalização não uniformiza, mas
diversifica. A reclusão é que exaure a inspiração. Se temos várias
lanchonetes americanas espalhadas pelo mundo, temos também diversos
restaurantes árabes, italianos ou japoneses. As trocas entre nações
fizeram florescer a diversidade cultural, não o contrário. Além disso,
diferente do que muitos costumam afirmar, a cultura americana não se
limita às canções de Madonna ou filmes de Bruce Willis. São também um
país onde há 1.700 orquestras sinfônicas, quase 8 milhões de entradas
para óperas por ano, 500 milhões de entradas nos museus. Desenvolveram
mais de 6 milhões de patentes. As vendas anuais de livros passam de US$
30 bilhões, enquanto a “educada” Rússia luta para chegar a cifra de US$ 1
bilhão. Suas universidades, por seguirem um modelo mais lógico e
eficiente de ligação com o mercado, absorvem os melhores intelectos do
mundo todo.
Os povos se sentem agredidos pela adoção
do inglês como língua predominante no mundo. Ora, é justamente a difusão
dele que facilita a comunicação entre diferentes culturas, permitindo
que cada povo possa ter acesso às mais diversas informações. Imaginem a
loucura que seria se tivéssemos que aprender cada língua diferente para
se comunicar ou ler um livro! O latim já desempenhou esse papel no
passado, e não tem nada demais usarmos o inglês como língua
internacional. Isso não impõe de forma alguma a cultura americana aos
outros povos; pelo contrário, facilita a diversificação cultural.
A ideologia é uma máquina de rejeitar
fatos no momento em que estes apresentam risco de constrangimento. Com
tanta evidência de viés e incoerência, o americano pode tirar uma só
conclusão: os Estados Unidos são sempre culpados. Como julgar, portanto,
o unilateralismo deles? Deixo as palavras finais por conta de Revel:
“As perfídias freqüentemente delirantes do ódio antiamericano, as
imputações da mídia, dependendo ora da incompetência ora da mitomania, a
maledicência perseverante que inverte o significado de todo
acontecimento de maneira a interpreta-lo, sem exceção, como desfavorável
aos Estados Unidos, leva-os ao convencimento da inutilidade de qualquer
consulta”.
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