Eduardo Cunha aceita pedido de impeachment da oposição contra Dilma
Felipe Amorim e Marina Motomura - UOL
O presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), acolheu o principal pedido de impeachment protocolado na Câmara
por partidos da oposição contra a presidente Dilma Rousseff
(PT). "Proferi a decisão com o acolhimento da denúncia", disse em
entrevista coletiva na tarde desta quarta-feira (2).
Os
deputados da oposição entregaram no dia 21 de outubro à presidência da
Câmara um novo pedido de impeachment contra a presidente Dilma elaborado
pelos juristas Hélio Bicudo, um dos pioneiros do PT, Miguel Reale
Júnior, ex-ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso
(PSDB), e Janaína Conceição Paschoal, advogada.
Segundo Cunha, a decisão de acatar o pedido foi de natureza "técnica" e não "política".
Com a aceitação do pedido, uma comissão de deputados será criada para
emitir um parecer sobre a abertura efetiva ou não do processo de
impedimento da presidente. A decisão de afastar a presidente do cargo só
é tomada após o trabalho dessa comissão e precisa ter o apoio de 342
deputados.
Esse parecer terá ainda de ser votado em plenário e,
em caso de decisão de abrir processo de impeachment, ele irá ao Senado e
Dilma será afastada do cargo até o julgamento.
"A mim não tem nenhuma felicidade em praticar esse ato. Não o faço em natureza política. Aceito
o pedido] Lamentando profundamente o que está ocorrendo. Que nosso país
possa passar por esse processo, superar esse processo."
Segundo Cunha, "nunca na história de um mandato [de um presidente] houve tantos pedidos de impeachment".
O presidente da Câmara disse ainda que não conversou "com ninguém do
Planalto" e negou que seja uma retaliação. A abertura do processo de
impeachment, no entanto, ocorre no mesmo dia em que deputados do PT anunciaram que votarão contra o peemedebista no Conselho de Ètica da Câmara, onde ele é investigado por
suposta participação no escândalo da Lava Jato. Segundo o líder do PT
na Câmara, deputado Sibá Machado (AC), houve uma pressão externa para
que os petistas votassem contra o peemedebista.
O presidente da
Câmara disse que, apesar de haver dúvidas sobre esse ponto entre
juristas, ele manteve o entendimento de que não seria possível abrir um
processo de impeachment com base em fatos do primeiro mandato da
presidente (2011-2014).
A decisão de Cunha foi baseada nos
decretos presidenciais deste ano que autorizaram um aumento de gastos do
governo apesar de já haver a previsão de que a meta de superávit
(economia para pagar juros da dívida) poderia não ser atingida.
A
decisão de Cunha foi anunciada no mesmo dia em que o Congresso Nacional
vota o projeto de lei que autoriza o governo a fechar o ano com deficit
no Orçamento.
Mas, segundo o presidente da Câmara, mesmo que o
projeto seja aprovado isso não isentaria a presidente de ter cometido
irregularidades contra o Orçamento, pois os decretos foram editados
quando não havia ainda a nova meta.
"Mesmo a votação do PLN-5
[projeto que muda a meta] não supre a irregularidade de ter sido editada
a norma em afronta à lei orçamentária", disse Cunha.
"Então o
embasamento disso é única e exclusivamente de natureza técnica. E o
juízio do presidente da Câmara é única e exclusivamente e autorizar a
abertura, não de proferir o seu juízo de mérito [culpa]", afirmou. "O
processo vai seguir seu curso normal com amplo direito de defesa", disse
o peemedebista.
Cunha afirmou que a decisão chega num momento
de crise política e econômica. "Sei que é um gesto delicado, num momento
em que o país atravessa uma situação difícil. A economia passa por uma
crise, o governo passa por muitas crises", disse.
O
peemedebista, que rompeu com o governo Dilma em julho, prometeu isenção
na condução do caso, e disse que o processo tramitará na Câmara "sem eu
fazer qualquer juízo de valor do mérito disso e sem qualquer tipo de
torcida", disse. "Minha posição será a mais isenta possível", afirmou.
A decisão deverá ser publicada ainda nesta quarta no Diário da Câmara
dos Deputados e deverá ser lida no plenário na quinta-feira (3).
Argumentos do pedido de impeachment
O documento entregue em outubro incorporou as denúncias de que as
chamadas pedaladas fiscais continuaram a ser praticadas este ano, com
base em representação do Ministério Público do TCU (Tribunal de Contas
da União). O novo pedido também é visto como uma forma de superar a
discussão jurídica sobre se o impeachment pode ser aplicado com base em
fatos ocorridos no mandato anterior.
Bicudo e Reale Júnior já
haviam protocolado um pedido de impeachment, mas o documento original
foi apresentado antes das decisões do STF e não incluía os argumentos
contra as pedaladas fiscais em 2015. Além dos juristas, a professora de
direito da USP, Janaína Paschoal também assina o pedido.
O novo pedido de impeachment se baseia em quatro principais pontos:
1 - Decretos de aumento de despesa: o TCU apontou que em 2014 o governo
Dilma publicou em 2014 sete decretos que abriam crédito suplementar
para despesas do governo sem autorização do Congresso Nacional, num
momento em que o aumento de gastos era incompatível com a meta de
superavit (economia para pagar juros da dívida pública). O pedido aponta
que decretos semelhantes foram publicados este ano.
2- Pedaladas
fiscais: o governo atrasou o repasse a bancos federais para o pagamento
de programas governamentais. Isso, na prática, representaria um
empréstimo dos bancos ao governo, o que é proibido por lei.
3 - Não
registro da dívida: as dívidas do governo com os bancos, relativas às
pedaladas, não foram computadas na Dívida Líquida do Setor Público, que
serve para conferir o cumprimento das metas fiscais.
4 - Omissão em
casos de corrupção: o pedido sustenta que a presidente Dilma não agiu
para combater os casos de corrupção na Petrobras, investigados pela
operação Lava Jato, e que teriam, segundo as investigações, beneficiado o
PT.
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