quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Eleições regionais representam alto risco para partido de Hollande
Gérard Coutoris - Le Monde
John Moore/ Getty Images/ AFP
Presidente François Hollande tenta impedir avanços do partido de direita Frente NacionalPresidente François Hollande tenta impedir avanços do partido de direita Frente Nacional
Atentados terroristas e resposta repressiva, "guerra" contra a organização Estado Islâmico em um Oriente complicado, desafios consideráveis da conferência climática que acaba de começar em Paris, grande decepção na questão do desemprego e, por fim, eleições regionais de alto risco previstas para os dias 6 e 13 de dezembro. De todos os acontecimentos que viraram o país de cabeça para baixo neste outono de 2015, o último parecerá o menos crucial. No entanto, não há dúvidas de que no meio dos vários desafios que precisa enfrentar, François Hollande continuará a examinar com atenção o que está em jogo nessa eleição.
A questão não é somente saber se a última eleição de seu mandato confirmará as grandes derrotas de seu campo que vêm sendo registradas nos últimos dois anos, tanto nas municipais quanto nas europeias e nas departamentais. É também entender a turbulência em andamento no cenário político nacional. O presidente da República disse com veemência, no domingo (30), a respeito do clima: "Estamos à beira de um ponto de ruptura". Guardadas as devidas proporções, a frase também vale para nossa vida política, no plano regional de forma imediata e no plano nacional em menos de 19 meses.
Ponto de ruptura? Já teremos um dos grandes, caso os eleitores confirmem, no próximo domingo (6), as intenções de voto das últimas pesquisas. Nas 12 grandes regiões metropolitanas (fora a Córsega), a Frente Nacional de fato ultrapassa os 20% de intenções de voto; em quatro delas (Alsácia-Champanhe-Ardennes-Lorena, Borgonha-Franche-Comté, Languedoc-Roussillon-Midi-Pireneus e Normandia), ela ultrapassa a marca dos 30%; no Norte-Pas-de-Calais-Picardia e na Provence-Alpes-Côte-d'Azur ela ultrapassa os 40%. A julgar pelo seu avanço geral no período mais recente, ela parece ser quem mais está ganhando com o misto de preocupação e de irritação que vem crescendo desde os atentados de 13 de novembro.
O choque seria ainda pior se o partido de extrema direita conseguisse conquistar uma, duas ou até três regiões, a começar pelo Norte e pela Provence, onde ele lidera com folga. É verdade que os mais fleumáticos lembrarão que na primavera, apesar de desempenhos consideráveis no primeiro turno, como em Vaucluse ou em Aisne, a FN não conseguiu conquistar nenhum departamento. E eles poderão tentar se confortar com a ideia de que haverá segundo turno em quase todos os lugares, em disputas triangulares entre socialistas, Republicanos e Frente Nacional muitas vezes imprevisíveis.

FN pode se apresentar como nova opção de governo

No entanto, a conquista de regiões, e de regiões que contam com vários milhões de habitantes, ofereceria à FN um argumento determinante para o futuro: no caso, que ela não é mais somente um partido de oposição, que ela pretende ocupar grandes cargos executivos locais (enquanto não conseguem coisa melhor) e que há franceses dispostos a reconhecer sua capacidade. Em suma, ela poderia começar a se apresentar como um partido de governo, algo improvável até pouco tempo atrás.
O ponto de ruptura não está menos próximo da esquerda, e esta só pode culpar a si mesma. François Hollande sabe disso melhor que ninguém, pois quando estava na liderança do Partido Socialista ele havia sido seu principal arquiteto: em 2010, a esquerda havia levado 21 das 22 regiões metropolitanas que existiam na época. Desde então, os socialistas governaram essas regiões com Executivos que associavam socialistas, verdes, radicais de esquerda ou esquerdas diversas e, em 14 regiões, parlamentares comunistas ou da Frente da Esquerda.
Só que deixando de lado essa experiência conjunta e esquecendo esse balanço em comum, mais difícil de defender no caso das regiões fundidas, a esquerda hoje se apresenta dispersa. Na noite do próximo domingo, a consequência será cruel: onde não forem eliminados (como provavelmente na Alsácia, na Provence e no Norte), os socialistas serão, em muitos casos, distanciados e relegados à terceira posição, atrás da direita e da extrema direita, enquanto os verdes e a Frente de Esquerda ficarão com as migalhas.
Novamente os fleumáticos lembrarão que sempre foi assim, que no segundo turno as pessoas acabam se unindo. Mas isso seria uma singular cegueira, por dois motivos. Por um lado, o exercício do poder nacional, desde maio de 2012, abalou os frágeis equilíbrios da esquerda "plural" e revelou as divergências ideológicas profundas que a dividem. Remendar os pedaços em nível regional quando os verdes ou a Frente de Esquerda foram jogados nos últimos anos contra o governo será uma tarefa quase impossível.
Por outro lado, essa velha política está obsoleta. Concebível, e muitas vezes útil, quando o segundo turno se dava entre duas grandes forças políticas (direita e esquerda), ela se torna suicida em uma partida a três com a Frente Nacional. Nicolas Sarkozy entendeu bem: custe o que custar aos Republicanos, ele se empenhou em reunir já no primeiro turno todos os componentes da direita e do centro para tentar chegar ao segundo turno em posição vantajosa. Ao se dispersar como ela fez, a esquerda chegará ao segundo turno em posição de desvantagem.
Por fim, todos sabem que o que é possível nas regionais (a permanência de todas as listas que tenham obtido 10% dos votos) não é na eleição presidencial, onde somente os dois primeiros passam para o segundo turno. Se ela não aprender com as eleições regionais, a esquerda corre o risco de ser eliminada da competição final, em 2017. Como tem se dito nos últimos dias, a respeito do clima, agora é a hora de agir; depois, será tarde demais!

Nenhum comentário: