Arnaud Leparmentier - Le Monde
Alexander Zemlianichenko/Reuters

Putin com o presidente francês, François Hollande
Os europeus são como o presidente russo, Vladimir Putin: eles nunca
perdoarão Mikhail Gorbachev por ter deixado a União Soviética afundar.
Antes, tudo era mais simples: uma Europa carolíngia, cercada pela
cortina de ferro e protegida pela Otan (Organização do Tratado do
Atlântico Norte), que esperava um dia criar os Estados Unidos da Europa.
Paz, comércio, prosperidade, liberdade: o que seria melhor então do que
o Leste declinar sob a ditadura comunista e do que o Sul ser vítima de
um subdesenvolvimento mantido pela guerra fria?
Pensávamos ser
universais, éramos uma comunidade. E éramos unidos, como o ex-presidente
francês François Mitterrand indo apoiar o ex-chanceler alemão Helmut
Kohl no Bundestag, em 1983, quando foi preciso instalar mísseis da Otan
para enfrentar os SS20 soviéticos. Em seguida veio a guinada do rigor na
França e os anos felizes Delors em Bruxelas, com o mercado único e o
euro para encarnar um futuro político europeu.
Eis que a queda da URSS nos testou com a liberdade. E nós nos saímos muito mal, incapazes de definir um projeto conjunto de civilização.
A Europa misturou seus valores com sua identidade. Ela propôs então uma extensão infinita de seu território, contanto que os países candidatos se dissessem democráticos. Assim, ela até se aventurou a abrir negociações de adesão com a Turquia. Era preciso ter uma fronteira em comum com o Iraque, a Síria e o Irã para provar pelo absurdo que a Europa não era nem um clube de origem cristã, nem uma entidade geográfica. Uma ampliação sem fim que significava, segundo o ex-presidente francês Valéry Giscard d'Estaing, "o fim da União Europeia" e que minou um sentimento de pertencimento.
A Europa acreditou que havia chegado ao fim da História, um espaço de paz regido pelo direito. Ela via um mundo irênico e estático, sendo que o planeta é instável, dominado desde os atentados do 11 de setembro de 2001 pela força e pela concorrência de potências em um mundo multipolar. É a velha crítica feita pelos neoconservadores americanos, zombando de uma Europa encantada pelo amor e pela paz; Vênus, enquanto os Estados Unidos aceitavam a guerra de Marte. Com a volta da guerra, o sentimento nacional voltou a dominar em uma Europa desarmada.
A segunda crise foi a volta da guerra, que começou com a intervenção da Rússia na Ucrânia. Impossível se unir diante de uma ameaça neossoviética. Vladimir Putin inventou um novo tipo de conflito, sem invasão nem declaração de guerra. Os europeus do Leste logicamente eram os mais bélicos, mas os do Oeste não queriam se sacrificar por Kiev mais do que queriam morrer por Dantzig. Eles adotaram a estratégia do edredom, uma tática prudente que evitou a guerra, mas não uniu realmente os europeus.
A segunda guerra, a da Síria, terminou de dividi-los, acarretando uma onda de imigrantes e de grandes atentados terroristas. Mais ameaçados do que nunca, os europeus agora imploram pelo apoio do inimigo deles de ontem, Putin, e indo até Canossa-Istambul pedir a ajuda do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. E como cada um é afetado de forma diferente, eles agem separadamente: a Alemanha procura conter a crise migratória, a França combate o terrorismo, enquanto os europeus do Leste não querem saber de nada dessas histórias, frutos da sociedade multicultural e do neocolonialismo da Europa ocidental. E lamentam que tenham se esquecido da ameaça russa.
A terceira crise assimétrica foi a política. Os dirigentes europeus enfrentam a ascensão do populismo e respondem a ele de maneiras opostas. Os alemães, com mais abertura, para tentar conter as correntes xenófobas. Os franceses, com mais nacionalismo e fechamento, para não dar à Frente Nacional motivos de crítica. Algumas pessoas se consolam dizendo que os Estados-nações estão ainda mais doentes que a Europa. Provavelmente. Mas eles estão menos frágeis.
Eis que a queda da URSS nos testou com a liberdade. E nós nos saímos muito mal, incapazes de definir um projeto conjunto de civilização.
A Europa misturou seus valores com sua identidade. Ela propôs então uma extensão infinita de seu território, contanto que os países candidatos se dissessem democráticos. Assim, ela até se aventurou a abrir negociações de adesão com a Turquia. Era preciso ter uma fronteira em comum com o Iraque, a Síria e o Irã para provar pelo absurdo que a Europa não era nem um clube de origem cristã, nem uma entidade geográfica. Uma ampliação sem fim que significava, segundo o ex-presidente francês Valéry Giscard d'Estaing, "o fim da União Europeia" e que minou um sentimento de pertencimento.
A Europa acreditou que havia chegado ao fim da História, um espaço de paz regido pelo direito. Ela via um mundo irênico e estático, sendo que o planeta é instável, dominado desde os atentados do 11 de setembro de 2001 pela força e pela concorrência de potências em um mundo multipolar. É a velha crítica feita pelos neoconservadores americanos, zombando de uma Europa encantada pelo amor e pela paz; Vênus, enquanto os Estados Unidos aceitavam a guerra de Marte. Com a volta da guerra, o sentimento nacional voltou a dominar em uma Europa desarmada.
Crises assimétricas
Por fim, a Europa misturou livre-comércio com espaço econômico integrado. A UE, na globalização feliz, não era mais do que uma parcela da organização mundial do comércio. Ela deixou abandonado seu mercado único, que funciona como um jardim. Se não for cuidado, acaba sufocado pelas ervas daninhas: divergências absurdas na política energética, mercado das telecomunicações, dos bancos, dos seguros nacionalizados, sem falar do setor digital, onde as trocas dentro da Europa são quase nulas. Apesar de ter uma moeda única, a Europa coordenou menos suas políticas econômicas do que o fez sob o reinado do sistema monetário europeu, da fragmentação do sistema de câmbio fixo de Bretton Woods até a adoção do euro em 1999.A sanção caiu com a terrível crise do euro
Essas ilusões levaram a choques que quase foram fatais para a Europa. Eles deveriam tê-la remobilizado como fazia a ameaça da URSS, mas não foi o caso, pois esses choques eram assimétricos. Eles não atingiram da mesma forma todos os europeus, que acreditavam que se sairiam melhor afastando-se em vez de se unirem.
Ameaça neossoviética
A crise do euro foi a primeira, que afetou os países do Sul e da periferia, enquanto a Alemanha prosperava. Ela levou a um grande sobressalto federal e à correção dos erros mais grosseiros de Maastricht, que foram os fundos de solidariedade e a união bancária. Infelizmente a França minou a moeda única ao continuar não respeitando as regras orçamentárias, acreditando ser grande demais para cair. Sua atitude impedia o sobressalto federal necessário. O euro está em suspenso, enquanto os alemães o apoiarem, e eles o farão enquanto o espaço econômico europeu lhes parecer pertinente. Não é algo óbvio. Apesar das gesticulações políticas, o tempo dos Airbus se foi. As empresas europeias sonham com um único eldorado: o Vale do Silício, colocando em dúvida a pertinência do espaço europeu único.A segunda crise foi a volta da guerra, que começou com a intervenção da Rússia na Ucrânia. Impossível se unir diante de uma ameaça neossoviética. Vladimir Putin inventou um novo tipo de conflito, sem invasão nem declaração de guerra. Os europeus do Leste logicamente eram os mais bélicos, mas os do Oeste não queriam se sacrificar por Kiev mais do que queriam morrer por Dantzig. Eles adotaram a estratégia do edredom, uma tática prudente que evitou a guerra, mas não uniu realmente os europeus.
A segunda guerra, a da Síria, terminou de dividi-los, acarretando uma onda de imigrantes e de grandes atentados terroristas. Mais ameaçados do que nunca, os europeus agora imploram pelo apoio do inimigo deles de ontem, Putin, e indo até Canossa-Istambul pedir a ajuda do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. E como cada um é afetado de forma diferente, eles agem separadamente: a Alemanha procura conter a crise migratória, a França combate o terrorismo, enquanto os europeus do Leste não querem saber de nada dessas histórias, frutos da sociedade multicultural e do neocolonialismo da Europa ocidental. E lamentam que tenham se esquecido da ameaça russa.
A terceira crise assimétrica foi a política. Os dirigentes europeus enfrentam a ascensão do populismo e respondem a ele de maneiras opostas. Os alemães, com mais abertura, para tentar conter as correntes xenófobas. Os franceses, com mais nacionalismo e fechamento, para não dar à Frente Nacional motivos de crítica. Algumas pessoas se consolam dizendo que os Estados-nações estão ainda mais doentes que a Europa. Provavelmente. Mas eles estão menos frágeis.
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