| Tyler Hicks - 24.out.2015/"The New York Times" | ||
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| Membro de milícia árabe anti-EI observa fumaça saindo de refinaria de petróleo na Síria |
Em pouco tempo ele estava ajudando a encher caminhões-tanque com óleo
cru para financiar o EI. Mas as execuções frequentes de suspeitos de
espionagem e os ataques aéreos dos jatos do governo dificultavam a vida,
e o técnico se revoltava ao ver os recursos naturais financiando os
radicais enquanto escolas e hospitais eram fechados.
"Pensávamos que queriam depor o regime, mas eles revelaram ser ladrões", falou o técnico, depois de fugir para esta cidade do sul da Turquia.
O EI afirma ser mais que um grupo militante, alegando ser um governo criado para os muçulmanos do mundo e que fornece diversos serviços públicos no território que controla.
Mas entrevistas com muitas pessoas que fugiram recentemente dizem que seu projeto de criação de um Estado passa por dificuldades, talvez mais que em qualquer momento desde que o EI começou a tomar territórios no Iraque e Síria. Sob pressão dos ataques aéreos lançados por vários países e das novas ofensivas terrestres de milícias curdas e xiitas, os radicais estão começando a mostrar sinais de desgaste.
Alguns combatentes tiveram seus soldos reduzidos; outros abandonaram o grupo e fugiram discretamente. Serviços públicos importantes estão deixando de funcionar corretamente, devido à falta de manutenção. E, à medida que o contrabando e a venda de petróleo vêm enfrentando obstáculos, o EI está recorrendo a impostos e taxas crescentes aplicados a seus cidadãos já arrochados.
Esses desgastes podem abrir oportunidades para os muitos inimigos do grupo, mas não apontam para seu colapso iminente.
Ainda faltam forças terrestres dispostas a combater o EI (também conhecido como Daesh) em seus redutos na Síria e no Iraque. E o grupo está se adaptando, conservando seu perfil internacional alto com ataques em solo estrangeiro como os que derrubaram um avião comercial russo no Egito e paralisaram Paris. O EI também está investindo em novas filiais em países como a Líbia, onde enfrenta pouca resistência.
Mas a promessa de criação de um Estado em territórios que ele controla na Síria e no Iraque ainda é o principal fator que o distingue da rede terrorista Al Qaeda, representando um potente fator de atração de recrutas de todo o mundo.
Esse chamado à adesão ao EI ainda está sendo lançado nas mídias sociais e nos círculos extremistas –e ainda está tendo efeito. Mas suas promessas soam cada vez mais vazias, à medida que moradores das áreas controladas pelo EI fogem para escapar das privações, dos ataques aéreos crescentes e de uma entidade que, para muitos sunitas, atua mais como organização do crime organizado que como defensora deles.
Mesmo alguns moradores que optaram por permanecer quando os radicais tomaram controle agora pagam contrabandistas para ajudá-los a passar pelas barreiras criadas para impedi-los de sair.
"Muita gente está migrando", disse um professor da cidade síria de Deir al-Zour que fugiu para a Turquia no mês passado. "O EI quer construir uma sociedade nova, mas os extremistas vão acabar sozinhos."
Ao mesmo tempo em que sua crueldade afasta os moradores das áreas sob seu controle, os milicianos reconhecem a necessidade de profissionais habilitados para erguer as instituições próprias de um Estado.
Um apelo publicado no ano passado na revista em língua inglesa do grupo,
"Dabiq", dizia que o califado "tem necessidade maior que nunca de
especialistas e profissionais que possam contribuir para fortalecer sua
estrutura e atender às necessidades de seus irmãos muçulmanos".
Mas o chamado não vem sendo atendido, deixando os radicais com dificuldades de encontrar pessoas capazes de operar equipamentos petrolíferos, consertar redes elétricas e prestar assistência médica, dizem antigos moradores.
"Eles não têm profissionais, então pagam a pessoas para fazer coisas", disse um farmacêutico original do Leste da Síria.
Sobram relatos sobre o EI colocando membros fiéis em cargos para os quais não são qualificados. O chefe de serviços médicos de uma cidade seria um ex-operário da construção, segundo residentes da cidade. O diretor de um campo petrolífero era um vendedor de tâmaras, segundo um ex-funcionário do campo.
Em Raqqa, o Hospital Nacional que é visto em um vídeo de propaganda sobre os serviços de saúde no califado está praticamente fechado, porque muitos médicos abandonaram a cidade, segundo um funcionário humanitário com familiares na cidade.
E, segundo o farmacêutico, o fato de médicos homens serem proibidos de tratar pacientes mulheres deixou as mulheres de uma cidade sem qualquer atendimento médico. Os milicianos empregaram parteiras para tentar preencher a lacuna.
Outro fator que está levando as pessoas a abandonar a região é o sistema tributário oneroso promovido em nome da "zakat", ou caridade islâmica. Os extremistas recolhem, entre outros impostos, uma parcela anual de cada colheita e cada rebanho de gado e obrigam os comerciantes a pagar uma parcela de seus estoques. Infrações como o uso de vestuário incorreto são punidas com multas equivalentes a um grama de ouro, pagável na moeda local.
Os radicais tomam medidas para impedir as fugas, que estão ficando cada vez mais difíceis.
Sem obter autorização para partir, Naef al-Asaad, 55 anos, pagou a um contrabandista US$ 150 (R$ 580) por cabeça para levar dez membros de sua família da cidade de Shadadi, sob controle do EI, até a fronteira turca. Durante a fuga, uma pessoa pisou sobre uma mina terrestre, provocando uma explosão que matou a filha de Asaad, o marido dela, dois dos filhos do casal e outro parente.
"O EI não nos deixou partir", disse Asaad. "Eles falaram: 'Vocês vão para junto dos infiéis'."
O EI ainda provoca pavor entre pessoas que já viveram sob sua égide, e muitas pessoas que se refugiaram no sul da Turquia temem que agentes do grupo no país vão retaliar contra eles por criticarem a facção. Elas exigiram anonimato para falar com jornalistas.
Mesmo algumas pessoas que tinham muito a ganhar com o domínio dos radicais tiveram pouco interesse em ficar.
O ex-técnico petrolífero contou que ganhava US$150 mensais do governo sírio até seu salário ser cortado, em março. Então o EI o contratou para trabalhar no mesmo campo de petróleo, pagando primeiro US$ 450 (R$ 1.700) mensais e depois US$ 675 (R$ 2.600.
O técnico disse que o EI lhe pagava bem porque havia poucos outros profissionais capacitados a fazer seu trabalho. Os milicianos chegaram a flagrá-lo uma vez fumando no trabalho –um delito passível de punição sob o EI– mas o soltaram com apenas uma reprimenda.
Mas o que o incomodava era que seus filhos não tinham escola onde estudar. E ele temia ser obrigado a ir trabalhar no Iraque. Por isso ele pagou a um contrabandista para levar a ele, sua mulher e seus três filhos à Turquia. Recentemente a família chegou à Grécia de barco, com a esperança de prosseguir viagem até a Alemanha.
Outro técnico que trabalhava em um campo de gás natural contou que ele e seus colegas continuaram a trabalhar quando extremistas tomaram a instalação, cumprindo ordens que seu chefe recebia do Estado Islâmico.
"Nosso trabalho era abrir isso e conectar aquilo", ele disse. "Quem estava no comando? Não perguntávamos."
Mas a usina tinha sido danificada na guerra e, em vez de produzir produtos de gás refinado, como antes, enviava um volume muito menor de gás não refinado ao governo sírio. O técnico não sabe o que os milicianos recebiam pelo gás.
Como muitos outros, ele disse que as promessas de criação de um Estado não se concretizaram.
"É importante contar com apoio público, e eles não têm isso", falou o técnico. "As pessoas ouviram palavras boas vindas deles, mas não viram nada de bom se realizar."
"Pensávamos que queriam depor o regime, mas eles revelaram ser ladrões", falou o técnico, depois de fugir para esta cidade do sul da Turquia.
O EI afirma ser mais que um grupo militante, alegando ser um governo criado para os muçulmanos do mundo e que fornece diversos serviços públicos no território que controla.
Mas entrevistas com muitas pessoas que fugiram recentemente dizem que seu projeto de criação de um Estado passa por dificuldades, talvez mais que em qualquer momento desde que o EI começou a tomar territórios no Iraque e Síria. Sob pressão dos ataques aéreos lançados por vários países e das novas ofensivas terrestres de milícias curdas e xiitas, os radicais estão começando a mostrar sinais de desgaste.
Alguns combatentes tiveram seus soldos reduzidos; outros abandonaram o grupo e fugiram discretamente. Serviços públicos importantes estão deixando de funcionar corretamente, devido à falta de manutenção. E, à medida que o contrabando e a venda de petróleo vêm enfrentando obstáculos, o EI está recorrendo a impostos e taxas crescentes aplicados a seus cidadãos já arrochados.
Esses desgastes podem abrir oportunidades para os muitos inimigos do grupo, mas não apontam para seu colapso iminente.
Ainda faltam forças terrestres dispostas a combater o EI (também conhecido como Daesh) em seus redutos na Síria e no Iraque. E o grupo está se adaptando, conservando seu perfil internacional alto com ataques em solo estrangeiro como os que derrubaram um avião comercial russo no Egito e paralisaram Paris. O EI também está investindo em novas filiais em países como a Líbia, onde enfrenta pouca resistência.
Mas a promessa de criação de um Estado em territórios que ele controla na Síria e no Iraque ainda é o principal fator que o distingue da rede terrorista Al Qaeda, representando um potente fator de atração de recrutas de todo o mundo.
Esse chamado à adesão ao EI ainda está sendo lançado nas mídias sociais e nos círculos extremistas –e ainda está tendo efeito. Mas suas promessas soam cada vez mais vazias, à medida que moradores das áreas controladas pelo EI fogem para escapar das privações, dos ataques aéreos crescentes e de uma entidade que, para muitos sunitas, atua mais como organização do crime organizado que como defensora deles.
Mesmo alguns moradores que optaram por permanecer quando os radicais tomaram controle agora pagam contrabandistas para ajudá-los a passar pelas barreiras criadas para impedi-los de sair.
"Muita gente está migrando", disse um professor da cidade síria de Deir al-Zour que fugiu para a Turquia no mês passado. "O EI quer construir uma sociedade nova, mas os extremistas vão acabar sozinhos."
Ao mesmo tempo em que sua crueldade afasta os moradores das áreas sob seu controle, os milicianos reconhecem a necessidade de profissionais habilitados para erguer as instituições próprias de um Estado.
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Mas o chamado não vem sendo atendido, deixando os radicais com dificuldades de encontrar pessoas capazes de operar equipamentos petrolíferos, consertar redes elétricas e prestar assistência médica, dizem antigos moradores.
"Eles não têm profissionais, então pagam a pessoas para fazer coisas", disse um farmacêutico original do Leste da Síria.
Sobram relatos sobre o EI colocando membros fiéis em cargos para os quais não são qualificados. O chefe de serviços médicos de uma cidade seria um ex-operário da construção, segundo residentes da cidade. O diretor de um campo petrolífero era um vendedor de tâmaras, segundo um ex-funcionário do campo.
Em Raqqa, o Hospital Nacional que é visto em um vídeo de propaganda sobre os serviços de saúde no califado está praticamente fechado, porque muitos médicos abandonaram a cidade, segundo um funcionário humanitário com familiares na cidade.
E, segundo o farmacêutico, o fato de médicos homens serem proibidos de tratar pacientes mulheres deixou as mulheres de uma cidade sem qualquer atendimento médico. Os milicianos empregaram parteiras para tentar preencher a lacuna.
Outro fator que está levando as pessoas a abandonar a região é o sistema tributário oneroso promovido em nome da "zakat", ou caridade islâmica. Os extremistas recolhem, entre outros impostos, uma parcela anual de cada colheita e cada rebanho de gado e obrigam os comerciantes a pagar uma parcela de seus estoques. Infrações como o uso de vestuário incorreto são punidas com multas equivalentes a um grama de ouro, pagável na moeda local.
Os radicais tomam medidas para impedir as fugas, que estão ficando cada vez mais difíceis.
Sem obter autorização para partir, Naef al-Asaad, 55 anos, pagou a um contrabandista US$ 150 (R$ 580) por cabeça para levar dez membros de sua família da cidade de Shadadi, sob controle do EI, até a fronteira turca. Durante a fuga, uma pessoa pisou sobre uma mina terrestre, provocando uma explosão que matou a filha de Asaad, o marido dela, dois dos filhos do casal e outro parente.
"O EI não nos deixou partir", disse Asaad. "Eles falaram: 'Vocês vão para junto dos infiéis'."
O EI ainda provoca pavor entre pessoas que já viveram sob sua égide, e muitas pessoas que se refugiaram no sul da Turquia temem que agentes do grupo no país vão retaliar contra eles por criticarem a facção. Elas exigiram anonimato para falar com jornalistas.
Mesmo algumas pessoas que tinham muito a ganhar com o domínio dos radicais tiveram pouco interesse em ficar.
O ex-técnico petrolífero contou que ganhava US$150 mensais do governo sírio até seu salário ser cortado, em março. Então o EI o contratou para trabalhar no mesmo campo de petróleo, pagando primeiro US$ 450 (R$ 1.700) mensais e depois US$ 675 (R$ 2.600.
O técnico disse que o EI lhe pagava bem porque havia poucos outros profissionais capacitados a fazer seu trabalho. Os milicianos chegaram a flagrá-lo uma vez fumando no trabalho –um delito passível de punição sob o EI– mas o soltaram com apenas uma reprimenda.
Mas o que o incomodava era que seus filhos não tinham escola onde estudar. E ele temia ser obrigado a ir trabalhar no Iraque. Por isso ele pagou a um contrabandista para levar a ele, sua mulher e seus três filhos à Turquia. Recentemente a família chegou à Grécia de barco, com a esperança de prosseguir viagem até a Alemanha.
Outro técnico que trabalhava em um campo de gás natural contou que ele e seus colegas continuaram a trabalhar quando extremistas tomaram a instalação, cumprindo ordens que seu chefe recebia do Estado Islâmico.
"Nosso trabalho era abrir isso e conectar aquilo", ele disse. "Quem estava no comando? Não perguntávamos."
Mas a usina tinha sido danificada na guerra e, em vez de produzir produtos de gás refinado, como antes, enviava um volume muito menor de gás não refinado ao governo sírio. O técnico não sabe o que os milicianos recebiam pelo gás.
Como muitos outros, ele disse que as promessas de criação de um Estado não se concretizaram.
"É importante contar com apoio público, e eles não têm isso", falou o técnico. "As pessoas ouviram palavras boas vindas deles, mas não viram nada de bom se realizar."
Tradução de CLARA ALLAIN


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