| Julio Cortez - 18.nov.2015/Associated Press | ||
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| Estudantes em frente à sala Nassau, na Universidade Princeton |
Neste mês, estudantes da Universidade Princeton ocuparam a reitoria, exigindo que o nome de Woodrow Wilson –o 28º presidente dos EUA e antigo reitor de Princeton– fosse tirado do campus.
Isso incluiu a prestigiosa Escola Woodrow Wilson de Política Pública e Assuntos Internacionais, as residências universitárias e um mural de Wilson no refeitório. Os manifestantes também exigiram a criação de uma "formação em competência cultural" para os docentes e a introdução de cursos obrigatórios sobre povos marginalizados.
O argumento contra Woodrow Wilson é simples: ele reintroduziu a segregação racial na força de trabalho federal. O argumento a seu favor é que ele é uma figura histórica importante, além de ter sido o autor do Tratado de Versalhes.
| Dominick Reuter - 20.nov.2015/Reuters | ||
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| A Escola Woodrow Wilson de Política Pública e Assuntos Internacionais, da Universidade Princeton |
Outros, como Thomas Jefferson e James Madison, foram ainda mais culpados. Deveriam ser julgados unicamente por isso? Winston Churchill foi imperialista declarado. Mas a história o avalia bem, por ter resistido ao nazismo.
E o que dizer de Franklin Roosevelt? O 32º presidente dos Estados Unidos não fez nada para promover os direitos civis. E internou 120 mil americanos de origem japonesa em campos durante a Segunda Guerra Mundial.
Não existem figuras históricas descomplicadas.
A finalidade do ensino superior é imbuir as pessoas de um espírito inquiridor e fortalecer sua mente para melhor poderem encarar o mundo confuso lá fora. Mas as universidades americanas estão indo no sentido oposto. O que mais se defende hoje é a criação de "espaços seguros".
As bibliotecas dos campi colam avisos sobre obras de ficção: os estudantes são alertados sobre (ou desaconselhados a ler) "Metamorfoses", de Ovídio, porque descreve um estupro, "O Mercador de Veneza", de Shakespeare (antissemitismo), "O Grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald (misoginia) e "O Sol é para Todos", de Harper Lee (patriarcado).
O termo "microagressão" –causar ofensa verbal inconsciente a grupos marginalizados– entrou para o vocabulário cotidiano.
Já perdi a conta de quantas conversas tive com diretores de faculdades que admitem censurar sua própria linguagem por medo de causar ofensa. O que está em jogo, em alguns casos, é seu próprio emprego.
A meta é eliminar o preconceito da mente das pessoas. Mas o efeito perverso pode ser o de intensificar a consciência da diversidade racial.
Nos campi americanos, e fora deles, está ocorrendo um boom de algo que um crítico descreveu como o "complexo de terapia racial".
Os corpos docentes das universidades estão cheios de orientadores para questões multiculturais, orientadores de diversidade e profissionais encarregados de dar treinamento em etiqueta racial.
A tarefa deles é detectar a insensibilidade racial. Naturalmente, alguns a detectam onde ela não existe. Quanto mais cargos desse tipo são criados, maiores são os interesses investidos neles.
Como disse Upton Sinclair: "É difícil levar um homem a entender uma coisa quando seu salário depende de ele não entendê-la".
Não há dúvida de que o preconceito racial está vivo e forte nas ruas dos EUA –basta pensar na frequência com que policiais disparam contra suspeitos negros desarmados. Mas sufocar a livre expressão não é a solução.
No ano passado, protestos estudantis forçaram vários palestrantes externos a desistir de eventos programados para campi universitários. Entre eles estavam Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional, a ex-secretária de Estado americana Condoleezza Rice e a ativista dos direitos das mulheres Ayaan Hirsi Ali.
| Diego Gúmez - 13.mar.2006/Efe | ||
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| A ativista somali Ayaan Hirsi Ali, no lançamento de ensaio sobre a defesa das mulheres muçulmanas |
Para estudantes da Rutgers, Condoleezza Rice é "criminosa de guerra" por ter apoiado a invasão do Iraque. E Ayaan Hirsi Ali, segundo estudantes da Universidade do Michigan, é islamófoba.
Este ano se fez notar pelos oradores moderados escolhidos em cerimônias de colação de grau. Nos campi britânicos, isso é conhecido por "negar uma plataforma": negar àqueles de quem você discorda uma oportunidade de se manifestaram.
Quero deixar claro aqui que, a meu ver, a invasão do Iraque foi um erro colossal e que Ayaan Irsi Ali exacerba estereótipos perigosos a respeito do mundo muçulmano. Mas vozes diferentes precisam ser ouvidas e discutidas.
O que isso quer dizer para o futuro? Esqueça as universidades. O futuro já se formou.
Qualquer pessoa que tenha ambições na vida pública americana já aprendeu o valor de autocensura. Uma palavra tirada de contexto pode arruinar as chances de alguém de ser aprovado para o Senado. Assumir riscos é castigado.
A moderação insossa é crucial para o avanço profissional. Não surpreende que setores tão grandes do público americano tenham perdido a confiança na integridade de seus líderes. Quando um político discursa, o efeito muito frequentemente é clorofórmico.
Esse vazio deixado no espaço antes ocupado pela espontaneidade está aberto para ser preenchido por outros. Da próxima vez que você se surpreender com o fato de um demagogo como Donald Trump estar se saindo tão bem, pergunte por que seu discurso direto, sem papas na língua, traz um retorno tão alto.
Não será porque isso está sendo extirpado da vida pública?
Tradução de CLARA ALLAIN



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