quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Mulheres jovens palestinas adotam papel não familiar ao se tornarem assassinas
Diaa Hadid e Rami Nazzal - NYT
Mussa Qawasma/Reuters
Tropas israelenses disparam gás lacrimogêneo próximo a local onde um palestino teria tentado esfaquear guardas de fronteira israelenses em Hebron, na CisjordâniaTropas israelenses disparam gás lacrimogêneo próximo a local onde um palestino teria tentado esfaquear guardas de fronteira israelenses em Hebron, na Cisjordânia
Ashrakat Qattanani, 16, deu um alerta claro de que estava planejando algo dias antes de trocar seus livros escolares por uma faca, e então seguir para um posto de controle militar israelense próximo. Se for morta, Ashrakat disse ao seu pai, "não chore por mim, chore pela Palestina".
Hadeel Awwad, 14, não deixou escapar esses pensamentos. Seu irmão foi morto a tiros pelas forças israelenses dois anos antes, mas isso a inspirou a se tornar uma médica, para que pudesse salvar vidas. Mas perto do segundo aniversário da morte de seu irmão, Hadeel pegou um par de tesouras e, juntamente com sua prima Nourhan, 16, caminhou calmamente até um mercado em Jerusalém.
As três adolescentes estão entre as 15 mulheres que tentaram, ou são acusadas de tentar, esfaquear soldados ou civis israelenses na Cisjordânia desde um levante iniciado em outubro. Enquanto explosões de violência palestina anteriores envolviam predominantemente homens, as mulheres são responsáveis por cerca de 20% de todos os ataques palestinos nos últimos dois meses. Talvez pela primeira vez nesta sociedade patriarcal, elas estão agindo por conta própria, sem consultar qualquer autoridade masculina.
Na terça-feira, uma estudante universitária de 19 anos, Maram Hasouna, foi morta a tiros depois de atacar soldados com uma faca em um posto de controle militar no norte da Cisjordânia, disseram militares israelenses. Outra mulher jovem foi levada para interrogatório após ter sido encontrada perto de Efrat, um assentamento judeu na Cisjordânia, com uma faca em sua bolsa, relatou a imprensa israelense.
Muitas das agressoras foram adolescentes problemáticas como Ashrakat, que brigava com frequência com seu pai e ficava à deriva entre os lares de seus pais divorciados, ficando brevemente noiva aos 14 anos. Mas nem todas. Uma mulher estava planejando seu casamento. Nove das mulheres foram mortas a tiros, seis foram presas. Vários israelenses foram feridos, um moderadamente, mas nenhum foi morto pelas mulheres, relataram a polícia e a imprensa israelense.
Desde o início, as mulheres jovens assumiram um papel não familiar neste levante e nas tensões que o precederam, confundindo as famílias e uma sociedade não acostumada a mulheres querendo ser assassinas e desencadeando cenas antes raras por toda a Cisjordânia.
Os rostos das adolescentes olham fixamente nos cartazes de martírio em suas cidades natais de Hebron, Qalqilya e nos becos estreitos dos campos de refugiados de Kalandia e Askar.
A visão de mulheres jovens, algumas sorrindo, algumas usando maquiagem, todas com lenços de cabeça, é ainda mais notável devido ao fato da maioria vir de famílias tão conservadoras a ponto de desaprovarem que elas exibissem fotos de si mesmas em seus perfis no Facebook. Famílias que antes supervisionavam rigidamente o paradeiro de suas filhas agora descobrem as ações das meninas por meio de reportagens na televisão.
O papel das mulheres nos ataques também impulsiona a violência, já que os homens buscam vingar suas mortes.
Raed Jaradat, 26, esfaqueou um soldado em 26 de outubro depois que uma garota de 17 anos foi morta a tiros por policiais que disseram que ela empunhava uma faca. A família da garota, Dania al-Husseini, anunciou posteriormente o noivado dela pós-morte com Jaradat, o chamando de um "casamento de mártires".
"É assim que os homens se consolam", disse a mãe de Dania, Amal, 43, que disse que seu marido estava tendo dificuldades para lidar com a morte de sua filha, descrita como uma garota sonhadora que gostava de desenhar sereias. "Eles estão se afogando em pesar."
O levante foi provocado pelos temores em relação ao status da Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, mas em seu âmago está a revolta com as décadas de ocupação militar israelense, a diminuição das esperanças de um Estado e uma rebelião contra os líderes palestinos. Diferente da segunda "intifada" palestina, que foi impelida por grupos organizados, este aumento da violência não possui líderes, uma onda de esfaqueamentos, tiroteios e ataques com veículos aleatórios.
Mais de 20 israelenses e um judeu americano foram mortos no levante. Mais de 100 palestinos morreram no mesmo período, muitos durante um ataque. Outros foram mortos a tiros em manifestações violentas. Grupos palestinos e de direitos acusam as forças israelenses de uso excessivo de força letal em alguns casos.
A participação das mulheres neste levante é, até certo ponto, um reflexo de uma mudança na dinâmica de gênero na sociedade palestina, mas também resultado da natureza individualizada, improvisada, da violência, na qual os jovens precisam apenas pegar uma faca na cozinha para se juntarem à luta.
Mulheres estavam entre os líderes do primeiro levante palestino de quatro anos, iniciado em 1987, organizando marchas, cooperativas de alimentos e primeiros socorros. Durante o segundo levante mais violento, de 2000 a 2005, os líderes militantes desencorajavam a participação de mulheres. Mesmo assim, oito mulheres executaram atentados a bomba suicidas.
Analistas dizem que as mulheres jovens estão expostas aos mesmos vídeos, comentários e propaganda incendiária que os homens jovens que cometem atos violentos. Muitas delas –como Ashrakat, que escrevia poesia revolucionária em sua cama e queria que seu pai chorasse por sua pátria– parecem consumidas pelo ideal de morrer pela causa de sua geração, o disputado complexo da Mesquita de Al-Aqsa.
"É muito romântico", disse Eileen Kuttab, diretora de estudos da mulher na Universidade Birzeit palestina. A mártir, ela disse, "nunca será esquecida".
Algumas das agressoras pareciam ser problemáticas, mas isso é apenas um fator, disse Kuttab, que notou que muitas outras mulheres palestinas levam vidas difíceis sem esfaquear alguém.
A participação de mulheres tão jovens provocou acusações de manipulação, particularmente por meio das transmissões ininterruptas dos grupos militantes Hamas e Jihad Islâmica, que pedem às pessoas para agirem.
"Eles inflamam as emoções das crianças, exploram seus pontos mais sensíveis, com imagens de confrontos e mortes", disse Manal Awwad, 42, a tia de Hadeel, a agressora de 14 anos.
Tradutor: George El Khouri Andolfato 

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