Piotr Smolar - Le Monde
Ahmad Gharabli/AFP
Xeique Raed Salah passará os próximos 11 meses preso em Israel
Raed Salah ri. Está tranquilo, agora sem seu escritório que foi interditado pela polícia. Daqui a alguns dias, o xeque estará na prisão, algo com que já está acostumado, onde cumprirá uma pena de 11 meses por "incitação à violência contra os judeus". Mas no último sábado (28) ele era o homem aplaudido, aquele que conseguiu reunir milhares de pessoas nas ruas de Umm al-Fahm, a cidade árabe do centro de Israel da qual ele foi prefeito. Essa manifestação foi organizada pelo alto comitê de monitoramento para os cidadãos árabes em Israel, com o objetivo de apresentar uma frente comum dentro da comunidade (20% da população israelense) contra a proibição do braço norte do Movimento Islâmico (MI), liderado pelo xeque Raed Salah.
O governo israelense anunciou essa controversa decisão três dias depois dos atentados de Paris de 13 de novembro, baseando-se em uma lei de emergência de 1945 da época do mandato britânico. Ele afirma que o MI é uma organização "separatista e racista", "irmã do Hamas" e "membro da Irmandade Muçulmana".
Ahmad Gharabli/AFP
Xeique Raed Salah passará os próximos 11 meses preso em IsraelRaed Salah ri. Está tranquilo, agora sem seu escritório que foi interditado pela polícia. Daqui a alguns dias, o xeque estará na prisão, algo com que já está acostumado, onde cumprirá uma pena de 11 meses por "incitação à violência contra os judeus". Mas no último sábado (28) ele era o homem aplaudido, aquele que conseguiu reunir milhares de pessoas nas ruas de Umm al-Fahm, a cidade árabe do centro de Israel da qual ele foi prefeito. Essa manifestação foi organizada pelo alto comitê de monitoramento para os cidadãos árabes em Israel, com o objetivo de apresentar uma frente comum dentro da comunidade (20% da população israelense) contra a proibição do braço norte do Movimento Islâmico (MI), liderado pelo xeque Raed Salah.
O governo israelense anunciou essa controversa decisão três dias depois dos atentados de Paris de 13 de novembro, baseando-se em uma lei de emergência de 1945 da época do mandato britânico. Ele afirma que o MI é uma organização "separatista e racista", "irmã do Hamas" e "membro da Irmandade Muçulmana".
Por anos os serviços de segurança foram contra essa
proibição, por falta de provas de que seria uma atividade ilegal e por
medo das repercussões. Mas neste outono Binyamin Netanyahu e a direita
radical acusaram seguidamente o MI de incitar a violência e o ódio na
defesa da mesquita Al-Aqsa, alegando que ela estaria sendo ameaçada por
judeus nacionalistas religiosos. A onda de violência palestina nos
últimos dois meses acabou com as últimas reservas.
"Foram a extrema direita e os colonos que fizeram pressão por nossa proibição", explica ao "Le Monde" Raed Salah, "pois eles veem que o MI impede a judaização de Jerusalém. Somos um estorvo para o sonho deles." Mas o líder islâmico amplia o problema. "O que está acontecendo conosco pode afetar outras forças árabes, inclusive aquelas que têm deputados na Knesset (Parlamento)". Essa interpretação era compartilhada pelos parlamentares presentes no sábado.
Entre as milhares de pessoas que caminham pelas ruas íngremes de Umm al-Fahm, há homens de todas as idades e também crianças. As mulheres ficam nas laterais ou atrás, segurando carrinhos de bebê ou gravando com a ajuda de um celular. Centenas de camisetas brancas com a inscrição "Somos mais fortes do que sua proibição" foram distribuídas. O slogan retomado com fervor remete à defesa de Al-Aqsa.
O braço norte do MI fez do lugar santo, situado na Esplanada das Mesquitas (Monte do Templo, para os judeus), sua causa sagrada. Mas ele é bem mais do que uma organização religiosa e nacionalista, tendo desenvolvido uma rede de associações de caridade, onde o Estado israelense abandonou as populações árabes empobrecidas.
"O ocupante já fechou 20 de nossas instituições que cuidam da educação, da saúde, da ajuda alimentar, dos refúgios para os sem-teto, ajudando no total meio milhão de pessoas", afirma Raed Salah. Essas instituições não têm uma ligação oficial com o MI e estão registradas de acordo com a legislação israelense. Algumas delas deverão recorrer na Justiça contra a decisão do governo.
Decisão deixa um vácuo na representividade árabe
A proibição do MI suscita, portanto, bem mais do que a raiva de militantes do partido, e é por isso que muitos observadores temem as consequências dessa medida, a exemplo de Jafar Farah, diretor da ONU Mossawa, que defende os direitos dos cidadãos árabes. "Em vez de investir em uma discussão política com o MI e melhorar as condições de vida do setor árabe, Netanyahu está tentando fazendo com que as pessoas achem que o Movimento é como o Estado Islâmico (EI)", ele resume. "Ele está enganando o público. Ocorre que fazemos parte de uma região onde forças extremistas estão tentando abusar de jovens e se aproveitar da pobreza deles para arrastá-los para sua causa. Netanyahu tem empurrado cada vez mais jovens para os braços do EI."
Até hoje, cerca de 40 jovens árabes israelenses foram fazer a jihad na Síria, segundo o Shin Bet (a agência de inteligência interna). O MI sempre criticou a organização Estado Islâmico e seus crimes. Kamel Khatib, que vai dirigir o braço norte do MI durante a detenção de Raed Salah, faz um alerta: "Nossos membros não recorrerão à violência. Mas a proibição do MI não traz perspectivas animadoras e aumenta as frustrações. As opções estão em aberto. Ninguém sabe quem vai preencher o vazio, e nem como."
Segundo um estudo conduzido pelo professor Sammy Smooha, da Universidade de Haifa, que trata da evolução das relações entre judeus e árabes em Israel, 82,4% dos árabes israelenses consideram o EI uma organização extremista da qual sentem vergonha. Mas 16,9% deles não se dizem contrários ao EI. Entre os simpatizantes do braço norte do Movimento Islâmico, esse número chega a 28,1%. "Eu vejo duas explicações", diz o professor Smooha.
"Os árabes israelenses apoiam qualquer governo árabe ou muçulmano que seja capaz de enfrentar o poderio militar israelense. Eles veem o Daesh (acrônimo árabe do EI) como um corpo resistente, desse ponto de vista. Além disso, uma maioria de árabes quer exprimir seu descontentamento de todas as maneiras possíveis. Não condenar o Daesh é uma delas."
O estudo do professor Smooha indica que uma estreita maioria (51,7%) votaria pelo sim em um referendo que definisse Israel como um Estado judaico e democrático. Contanto que sejam assegurados direitos iguais para a minoria árabe.
Tensão aumenta entre Israel e Palestina
"Foram a extrema direita e os colonos que fizeram pressão por nossa proibição", explica ao "Le Monde" Raed Salah, "pois eles veem que o MI impede a judaização de Jerusalém. Somos um estorvo para o sonho deles." Mas o líder islâmico amplia o problema. "O que está acontecendo conosco pode afetar outras forças árabes, inclusive aquelas que têm deputados na Knesset (Parlamento)". Essa interpretação era compartilhada pelos parlamentares presentes no sábado.
Entre as milhares de pessoas que caminham pelas ruas íngremes de Umm al-Fahm, há homens de todas as idades e também crianças. As mulheres ficam nas laterais ou atrás, segurando carrinhos de bebê ou gravando com a ajuda de um celular. Centenas de camisetas brancas com a inscrição "Somos mais fortes do que sua proibição" foram distribuídas. O slogan retomado com fervor remete à defesa de Al-Aqsa.
O braço norte do MI fez do lugar santo, situado na Esplanada das Mesquitas (Monte do Templo, para os judeus), sua causa sagrada. Mas ele é bem mais do que uma organização religiosa e nacionalista, tendo desenvolvido uma rede de associações de caridade, onde o Estado israelense abandonou as populações árabes empobrecidas.
"O ocupante já fechou 20 de nossas instituições que cuidam da educação, da saúde, da ajuda alimentar, dos refúgios para os sem-teto, ajudando no total meio milhão de pessoas", afirma Raed Salah. Essas instituições não têm uma ligação oficial com o MI e estão registradas de acordo com a legislação israelense. Algumas delas deverão recorrer na Justiça contra a decisão do governo.
Decisão deixa um vácuo na representividade árabe
A proibição do MI suscita, portanto, bem mais do que a raiva de militantes do partido, e é por isso que muitos observadores temem as consequências dessa medida, a exemplo de Jafar Farah, diretor da ONU Mossawa, que defende os direitos dos cidadãos árabes. "Em vez de investir em uma discussão política com o MI e melhorar as condições de vida do setor árabe, Netanyahu está tentando fazendo com que as pessoas achem que o Movimento é como o Estado Islâmico (EI)", ele resume. "Ele está enganando o público. Ocorre que fazemos parte de uma região onde forças extremistas estão tentando abusar de jovens e se aproveitar da pobreza deles para arrastá-los para sua causa. Netanyahu tem empurrado cada vez mais jovens para os braços do EI."
Até hoje, cerca de 40 jovens árabes israelenses foram fazer a jihad na Síria, segundo o Shin Bet (a agência de inteligência interna). O MI sempre criticou a organização Estado Islâmico e seus crimes. Kamel Khatib, que vai dirigir o braço norte do MI durante a detenção de Raed Salah, faz um alerta: "Nossos membros não recorrerão à violência. Mas a proibição do MI não traz perspectivas animadoras e aumenta as frustrações. As opções estão em aberto. Ninguém sabe quem vai preencher o vazio, e nem como."
Segundo um estudo conduzido pelo professor Sammy Smooha, da Universidade de Haifa, que trata da evolução das relações entre judeus e árabes em Israel, 82,4% dos árabes israelenses consideram o EI uma organização extremista da qual sentem vergonha. Mas 16,9% deles não se dizem contrários ao EI. Entre os simpatizantes do braço norte do Movimento Islâmico, esse número chega a 28,1%. "Eu vejo duas explicações", diz o professor Smooha.
"Os árabes israelenses apoiam qualquer governo árabe ou muçulmano que seja capaz de enfrentar o poderio militar israelense. Eles veem o Daesh (acrônimo árabe do EI) como um corpo resistente, desse ponto de vista. Além disso, uma maioria de árabes quer exprimir seu descontentamento de todas as maneiras possíveis. Não condenar o Daesh é uma delas."
O estudo do professor Smooha indica que uma estreita maioria (51,7%) votaria pelo sim em um referendo que definisse Israel como um Estado judaico e democrático. Contanto que sejam assegurados direitos iguais para a minoria árabe.
Tensão aumenta entre Israel e Palestina
24.nov.2015
- A mãe do soldado israelense Ziv Mizrahi, 18, morto por uma facada
dada por um palestino em um posto de gasolina na Cisjordânia, chora
durante seu funeral no cemitério militar Monte Herzl, em Jerusalém,
Israel Menahem Kahana/AFP
Nenhum comentário:
Postar um comentário