João Santana e Mônica Moura tiveram que chegar ao coração das ilegalidades
Até pouco tempo, era difícil encontrar alguém que apostasse na homologação do acordo de delação
Thiago Herdy - O Globo
Imagine ganhar uma eleição de virada, no segundo turno, com uma
diferença de menos de 1% dos votos. É mais ou menos o que representa a
assinatura e homologação do acordo de delação premiada com o Ministério
Público para João e Mônica Santana.
Até o início deste ano, era difícil encontrar quem ainda apostasse no
sucesso da negociação do casal com a Lava-Jato, depois da homologação
do acordo de 78 executivos da Odebrecht. O motivo era simples: a
empreiteira entregou provas sobre atos controversos de três das
principais figuras do cardápio oferecido pelos baianos aos
investigadores: os ex-ministros Antonio Palocci e Guido Mantega e a
ex-presidente Dilma Rousseff.
Para conseguir um acordo, o casal Santana teve que aumentar a oferta.
Há mais de um ano, já se dizia disposto a entregar detalhes sobre
apoio ilegal de Eike Batista e do Grupo J&F ao PT. Agora, foi
preciso levar a Procuradoria-Geral ao coração do financiamento escuso de
campanhas petistas, ao meio da sala onde se debateu a reação às
descobertas da Lava-Jato e o próprio risco de prisão dos envolvidos.
Também foram à intimidade da relação do ex-presidente Lula com líderes
latino-americanos eleitos em campanhas sob responsabilidade do casal.
São vários os pontos de interseção entre a delação dos executivos da
Odebrecht e do casal Santana. Uma colaboração corrobora a outra. A
Lava-Jato passa a ter à mão informação sobre quem pediu, quem pagou,
como pagou, para que pagou. São casos sem necessidade de obtenção de
novas provas, provavelmente os primeiros a ter sigilo levantado pela
Justiça.
Mônica Moura decidiu fazer acordo com a Lava-Jato depois dos
primeiros dias na carceragem da Polícia Federal (PF), em Curitiba. O
marido resistiu e deu-se a mais difícil crise do casal. Hoje eles estão
juntos novamente — no acordo com a Justiça e também intimamente.
Na PGR, pesou entendimento que já tinha sido adotado pelo juiz Sérgio
Moro ao conceder liberdade ao casal depois de pagarem fiança de R$ 31,5
milhões, no ano passado: João e Mônica fizeram marketing político com
dinheiro sujo. O que é diferente de operacionalizar esquema para
obtenção do dinheiro sujo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário