A China poderia contribuir com seu aliado e o tirar do isolamento, mediando um acordo com o Afeganistão
Roger Cohen - NYT
Há uma espécie de sensação hermética atualmente no Paquistão, como se o país que fica na antiga rota do Ocidente à Ásia, uma ponte natural, de algum modo tivesse se contorcido em um isolamento autoimposto. A fronteira com a Índia, dividindo o Punjab, não está longe desta grande cidade. É uma barreira, em vez de um portal. A fronteira com o Paquistão é problemática em sua inexistência.
A besta alimentada em nome da política de Islamabad de "profundeza estratégica" (seja lá o que isso possa ser), o Talibã em sua versão paquistanesa, massacrou 134 crianças na Escola Pública do Exército em Peshawar no final do ano passado. Não causa surpresa que o turismo tenha despencado. Eu fui até a Mesquita Badshahi e ao Forte Lahore –com seus muros elevados, vermelho-escuros, magníficos em sua extensão. Não havia nenhum estrangeiro à vista, nenhuma câmera fotografando.
O presidente Obama vai à Índia e o Paquistão está distante em sua agenda –se é que está presente. Ninguém mais em Washington se preocupa em equilibrar visitas a Nova Déli e Islamabad. Ah, sim, o Afeganistão, o tesouro americano e o diretório Interserviços de Inteligência (ISI) do Paquistão, ou sua principal agência de espionagem: bem, quanto menos for dito sobre isso, melhor.
A Índia é uma democracia e uma grande potência em ascensão. O Paquistão é um país muçulmano que perdeu metade de seu território em 1971, se alterna entre governos militares e democráticos apenas em nome, nunca livre da angústia de aniquilação –apesar de suas armas nucleares–, com seus primeiros-ministros tão suscetíveis a um fim violento quanto as esposas de Henrique 8º, lutando para definir sua identidade quase 68 anos após passar a existir. A névoa da guerra é rivalizada apenas pela própria névoa do Paquistão, por onde Osama Bin Laden viveu e caminhou por vários anos.
Mas talvez algo novo esteja se mexendo na penumbra. Há muita conversa sobre Pequim. A China precisa do Paquistão para manter a Índia ocupada; ela não quer uma Índia livre de sua dor de cabeça paquistanesa. Logo, Pequim ajuda o Paquistão com tecnologia militar. Ela constrói usinas nucleares. (Os sauditas também ajudam o Paquistão com grandes presentes, amplamente vistos como uma garantia informal de proteção pelas armas nucleares paquistanesas caso seja necessário, pela realeza ou por Riad.)
Mas os interesses mudam. A China agora precisa do Paquistão em outra frente. Neste mês, um homem-bomba uigur matou até oito pessoas na volátil região chinesa de Xinjiang, perto da fronteira com o Paquistão. Foi o mais recente de uma série de ataques por muçulmanos uigures, ressentidos pelo domínio pelos chineses han. Alguns uigures abraçaram o Islã jihadista, uma ideologia com ensino e treinamento terrorista abundantes tanto no Paquistão quanto no Afeganistão. Diante disso, conter o Talibã parece bem mais atraente para os chineses do que no passado. E, como os Estados Unidos aprenderam há tanto tempo, se você quiser fazer algo a respeito com o Talibã, é melhor fazer algo a respeito com o Paquistão.
Tudo isso forma o pano de fundo para uma questão interessante: será que a China ascendente fará sua entrada formal no palco diplomático mundial tentando mediar negociações entre o Talibã afegão, o governo afegão do presidente Ashraf Ghani, e um aliado paquistanês despertado pela percepção tardia de que o Talibã que fomentou para a "profundeza estratégica" (que pode significar a noção extravagante de que um Afeganistão semicontrolado poderia lhe dar espaço de manobra contra a Índia) também é um risco mortal para o próprio Paquistão? Será aqui que a China do presidente Xi Jinping começará a lutar na sua categoria de peso estratégica?
Já passou da hora. Os Estados Unidos não podem arcar com o peso do mundo; eles têm outras prioridades agora. A China poderia ser de ajuda enquanto as tropas de combate americanas se retiram. Ghani quer iniciar negociações com o Talibã. Um degelo afegão-paquistanês teve início assim que ele tomou posse. Aquele ataque à escola de Peshawar concentrou as mentes nos custos para Islamabad de imaginar que possa haver um "Talibã bom" no Afeganistão e um "Talibã ruim" no Paquistão. Um alimenta o outro, é claro. A China está conversando com o Talibã. Isso tem influência sobre o Paquistão.
Ceticismo é necessário. A guerra afegã já é uma longa história. Mas a mudança nas prioridades estratégicas americanas, a mudança de governo no Afeganistão, a mudança de humor em Islamabad e a mudança das necessidades na China abriram espaço. Esta é uma questão em que o presidente Obama e o presidente Xi podem encontrar uma causa comum.
O Paquistão não se livrará da disfunção por meio de uma resolução afegã, mas ajudaria. A tolice da "profundeza estratégica" deve dar lugar à sabedoria da amplitude comercial, e não apenas na fronteira ocidental. O pragmatismo chinês-indiano poderia ser um modelo para um pragmatismo paquistanês-indiano –talvez.
Há uma riqueza de talento e energia no Paquistão. Um homem-bomba Talibã matou cinco pessoas em Lahore neste mês. A população de Lahore respondeu corajosamente promovendo o Festival Literário de Lahore, uma maravilha de criatividade, ecletismo, ideias e diálogo. Abertura é o que o Paquistão precisa. É hora de sair da névoa e se livrar de fantasmas datados.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Há uma espécie de sensação hermética atualmente no Paquistão, como se o país que fica na antiga rota do Ocidente à Ásia, uma ponte natural, de algum modo tivesse se contorcido em um isolamento autoimposto. A fronteira com a Índia, dividindo o Punjab, não está longe desta grande cidade. É uma barreira, em vez de um portal. A fronteira com o Paquistão é problemática em sua inexistência.
A besta alimentada em nome da política de Islamabad de "profundeza estratégica" (seja lá o que isso possa ser), o Talibã em sua versão paquistanesa, massacrou 134 crianças na Escola Pública do Exército em Peshawar no final do ano passado. Não causa surpresa que o turismo tenha despencado. Eu fui até a Mesquita Badshahi e ao Forte Lahore –com seus muros elevados, vermelho-escuros, magníficos em sua extensão. Não havia nenhum estrangeiro à vista, nenhuma câmera fotografando.
O presidente Obama vai à Índia e o Paquistão está distante em sua agenda –se é que está presente. Ninguém mais em Washington se preocupa em equilibrar visitas a Nova Déli e Islamabad. Ah, sim, o Afeganistão, o tesouro americano e o diretório Interserviços de Inteligência (ISI) do Paquistão, ou sua principal agência de espionagem: bem, quanto menos for dito sobre isso, melhor.
A Índia é uma democracia e uma grande potência em ascensão. O Paquistão é um país muçulmano que perdeu metade de seu território em 1971, se alterna entre governos militares e democráticos apenas em nome, nunca livre da angústia de aniquilação –apesar de suas armas nucleares–, com seus primeiros-ministros tão suscetíveis a um fim violento quanto as esposas de Henrique 8º, lutando para definir sua identidade quase 68 anos após passar a existir. A névoa da guerra é rivalizada apenas pela própria névoa do Paquistão, por onde Osama Bin Laden viveu e caminhou por vários anos.
Mas talvez algo novo esteja se mexendo na penumbra. Há muita conversa sobre Pequim. A China precisa do Paquistão para manter a Índia ocupada; ela não quer uma Índia livre de sua dor de cabeça paquistanesa. Logo, Pequim ajuda o Paquistão com tecnologia militar. Ela constrói usinas nucleares. (Os sauditas também ajudam o Paquistão com grandes presentes, amplamente vistos como uma garantia informal de proteção pelas armas nucleares paquistanesas caso seja necessário, pela realeza ou por Riad.)
Mas os interesses mudam. A China agora precisa do Paquistão em outra frente. Neste mês, um homem-bomba uigur matou até oito pessoas na volátil região chinesa de Xinjiang, perto da fronteira com o Paquistão. Foi o mais recente de uma série de ataques por muçulmanos uigures, ressentidos pelo domínio pelos chineses han. Alguns uigures abraçaram o Islã jihadista, uma ideologia com ensino e treinamento terrorista abundantes tanto no Paquistão quanto no Afeganistão. Diante disso, conter o Talibã parece bem mais atraente para os chineses do que no passado. E, como os Estados Unidos aprenderam há tanto tempo, se você quiser fazer algo a respeito com o Talibã, é melhor fazer algo a respeito com o Paquistão.
Tudo isso forma o pano de fundo para uma questão interessante: será que a China ascendente fará sua entrada formal no palco diplomático mundial tentando mediar negociações entre o Talibã afegão, o governo afegão do presidente Ashraf Ghani, e um aliado paquistanês despertado pela percepção tardia de que o Talibã que fomentou para a "profundeza estratégica" (que pode significar a noção extravagante de que um Afeganistão semicontrolado poderia lhe dar espaço de manobra contra a Índia) também é um risco mortal para o próprio Paquistão? Será aqui que a China do presidente Xi Jinping começará a lutar na sua categoria de peso estratégica?
Já passou da hora. Os Estados Unidos não podem arcar com o peso do mundo; eles têm outras prioridades agora. A China poderia ser de ajuda enquanto as tropas de combate americanas se retiram. Ghani quer iniciar negociações com o Talibã. Um degelo afegão-paquistanês teve início assim que ele tomou posse. Aquele ataque à escola de Peshawar concentrou as mentes nos custos para Islamabad de imaginar que possa haver um "Talibã bom" no Afeganistão e um "Talibã ruim" no Paquistão. Um alimenta o outro, é claro. A China está conversando com o Talibã. Isso tem influência sobre o Paquistão.
Ceticismo é necessário. A guerra afegã já é uma longa história. Mas a mudança nas prioridades estratégicas americanas, a mudança de governo no Afeganistão, a mudança de humor em Islamabad e a mudança das necessidades na China abriram espaço. Esta é uma questão em que o presidente Obama e o presidente Xi podem encontrar uma causa comum.
O Paquistão não se livrará da disfunção por meio de uma resolução afegã, mas ajudaria. A tolice da "profundeza estratégica" deve dar lugar à sabedoria da amplitude comercial, e não apenas na fronteira ocidental. O pragmatismo chinês-indiano poderia ser um modelo para um pragmatismo paquistanês-indiano –talvez.
Há uma riqueza de talento e energia no Paquistão. Um homem-bomba Talibã matou cinco pessoas em Lahore neste mês. A população de Lahore respondeu corajosamente promovendo o Festival Literário de Lahore, uma maravilha de criatividade, ecletismo, ideias e diálogo. Abertura é o que o Paquistão precisa. É hora de sair da névoa e se livrar de fantasmas datados.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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