Com oposição fraterna, terrorismo encontra sua audiência no Ocidente
Fernando Schuler - UOL
O terror tem seus opositores fraternos. Eles vivem em Paris, lecionam
em boas universidades norte-americanas, publicam em nossas melhores
editoras. Estão por aí. Diante do horror e da barbárie, não perdem a
chance de relativizar. Foi o que se viu, mais uma vez, no debate que se
seguiu ao massacre do Charlie Hebdo, em Paris.
Opositores
fraternos, por óbvio, registram sua repulsa pelo acontecido.
Solidarizam-se com as vítimas e dizem que os irmãos Kouachi, apesar de
tudo, fizeram uma coisa errada. Sua crítica se concentra no método. Eles
tinham, vá lá, suas razões. A revista, de fato, passou do limite. Os
EUA, como explicou o escritor Tariq Ali, invadiu o Iraque, em 2003, e
aqueles meninos assistiram a tudo pela televisão. Viram imagens das
torturas na prisão de Abu Ghraib. Estavam com raiva. Mas agiram errado,
apesar de tudo.
Opositores fraternos não pertencem
exclusivamente a esta ou aquela ideologia. Eles podem ser encontrados
entre um certo de tipo de conservadorismo estúpido, relativamente
abundante nas redes sociais, para quem não se deve brincar com a
religião alheia. "Ódio gera ódio", li em um post na internet,
sugestivamente feito por um professor de filosofia de uma universidade
federal.
Seu mais emblemático representante talvez seja
Jean-Marie Le Pen, que nos dias que se seguiram ao massacre acusava a
revista de blasfêmia e vulgaridade, e bradava, orgulhoso, "eu não sou
Charlie".
A artilharia mais pesada da oposição fraterna veio,
não obstante, do chamado campo de esquerda. Mesmo que fosse previsível
que isto acontecesse, confesso que me surpreendi com a forma mais ou
menos explícita de seu discurso compreensivo em relação ao terror. No
uso explícito da tragédia para atacar seus inimigos na disputa política.
Na fixação em enquadrar qualquer coisa na conversa de esquerda x
direita. O terrorismo encontra sua audiência no Ocidente.
A
argumentação usada por essa turma é relativamente uniforme. A estratégia
é enquadrar o massacre em um quadro mais amplo, que envolve a guerra ao
terror, no pós-11 de setembro, a opressão aos imigrantes, a política de
Israel, o passado colonizador europeu, a crise (sempre ela) do
capitalismo. Um conjunto mais ou menos previsível de razões que,
devidamente ordenadas, produzem uma sutil inversão da culpa pelo
acontecido. Ela passa a ser sistêmica. O radicalismo islâmico torna-se
um ator secundário. O Ocidente opressor, tendo à frente seu vilão
habitual, os EUA, passa a ocupar o banco dos réus.
Opositores fraternos
Tariq Ali publicou um artigo na Folha de São Paulo
intitulado "Guerra entre Fundamentalismos". O que testemunhamos, diz
ele, "é um conflito entre fundamentalismos rivais, cada um mascarado por
diferentes ideologias". Tentei descobrir, no artigo, em que consistia
exatamente o fundamentalismo rival dos terroristas, mas não consegui.
Ele menciona certas restrições francesas a piadas antissemitas, o uso
de tortura na guerra ao terror, as ações militares francesas na Síria, a
direita francesa e coisas assim. Para Tariq Ali, misturando tudo, o
Ocidente se equivale ao terrorismo islâmico. Ele não consegue perceber
muita diferença. Se vivesse em Cabul, à época do Taleban, ou em Teerã,
ao invés de Londres, talvez conseguisse. Mas não o faz, ao menos até o
final do artigo.
O discurso se parece com o argumento segundo o
qual a frente nacional e o fascismo islâmico são da mesma seara.
Argumento de mau gosto, visto utilizar uma frase de Charb, diretor de
redação da Charlie Hebdo, evidentemente retirada de contexto. Não passa
de um exercício de leviandade intelectual comparar um massacre
terrorista com a ação política de um partido legalmente constituído.
Reuters TV/Reuters
Um partido do qual pode-se (com razão) não gostar, mas perfeitamente
legítimo e incorporado à democracia francesa. Espécie de falácia da
equivalência comum no dia a dia das discussões políticas (não houve quem
chamasse o adversário de "nazista", em nossa última campanha
eleitoral?). O que me surpreende é que o truque seja usado por
intelectuais com algum preparo. Talvez o façam por imaginar que serão
lidos apenas por leitores do devidamente alinhados. Em parte, é isso
mesmo que acontece.
É o caso de Noam Chomsky. Em um entrevista à
revista digital Raw Story, ele produziu sua versão particular da
"falácia da equivalência": comparou o massacre, entre outros episódios,
com a morte de 50 civis decorrentes de ações do exército norte-americano
na Síria. Confesso que li várias vezes para me certificar que era isso
mesmo que ele dizia.
Chomsky está dizendo que, de um modo geral,
os irmãos Kouachi equivalem-se a Barack Obama. Com alguma vantagem para
os primeiros, pensei eu. Ao menos tiveram a coragem de fazer
pessoalmente o serviço, ao invés de enviar os seus homens. Chomsky dá de
ombros para o fato de que o exército americano é uma força regular, que
integra uma coalizão internacional, em ação contra um grupo genocida. E
cujo foco não é punir infiéis nem produzir a morte de civis.
Na
lista dos opositores fraternos não poderia faltar, por óbvio, o
filósofo Zlavoj Zizek. Em um artigo na revista New Statesman, Zizek
define o fundamentalismo como uma "reação contra uma falha real do
liberalismo". Por isso ele seria "repetidamente gerado pelo
liberalismo". Sociedades liberais presumivelmente tem muitas falhas, e
fiquei imaginando qual delas teria produzido o fundamentalismo.
Zizek não explica, mas parece oferecer uma pista quando diz que a
permissividade liberal e o fundamentalismo são dois polos gerando e
pressupondo um ao outro. Para ele, não são sociedades teocráticas ou
seitas radicais, seja no Irã, no Paquistão ou na Arábia Saudita que
produzem o fundamentalismo. Precisamente sociedades que não atravessaram
processos de secularização e modernização liberal. Nada disso.
Merecemos nós as chicotadas. A democracia liberal e sua maldita
sociedade de direitos.
Zizek busca inspiração em um frase de
Horkheimer sobre fascismo, nos anos 30, para concluir que "quem não
estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal, deve
também ficar quieto com respeito ao fundamentalismo religioso".
Parece esquecer o óbvio: Horkheimer se referia a um fenômeno (o
fascismo) produzido no coração do mundo europeu. O que obviamente não é
caso do fundamentalismo islâmico. Além da analogia apressada, o
nonsense: era exatamente a favor, e não contra, a democracia liberal e
seus valores que marchou a multidão, em Paris, seguindo o presidente
Hollande. É a crença na liberdade que deve se fazer ouvir, ao invés de
se calar.
Zizek parece dizer que só uma alternativa ao
capitalismo poderá resolver o problema do terrorismo. O que não deixa de
ser curioso, visto que todos os sistemas que se propuseram esta tarefa
se tornaram, sem exceção, eles mesmos formas de terrorismo de Estado.
Mas isto é só um detalhe. O papel aceita tudo.
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