quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Como a companheira do homem que atacou mercado judaico fugiu da França
Le Monde
AFP
Hayat Boumeddiene teria deixado o país em uma fuga junto com os irmãos Belhoucine Hayat Boumeddiene teria deixado o país em uma fuga junto com os irmãos Belhoucine
Na manhã de 4 de janeiro, o filho mais novo da família Belhoucine entrou correndo na sala de seus pais com um telefone que ele acabara de encontrar escondido no armário de seu quarto. "Mãe, mãe, o que é isso?", ele gritou mostrando o aparelho. Sua mãe pegou o celular e descobriu, horrorizada, a mensagem de texto de seu filho mais velho, Mohamed, de 27 anos: "Salam, fui eu que escondi este telefone. Mãe/Pai, não se preocupem, fomos nos juntar ao califado. Não se preocupem, preferimos viver em um país regido pela sharia e não pelas leis inventadas pelos homens."
O caçula dos irmãos Belhoucine, de 19 anos, ainda dormia quando foi acordado pela vibração do aparelho. O telefone tocou várias vezes, dando-lhe tempo de encontrá-lo. Os pais da família Belhoucine, pensando nos últimos dias, se lembraram então que Mohamed, de fato, havia vindo alguns dias antes, em 1º de janeiro, para uma visita de rotina. Ele não havia dito nada sobre seu plano de viagem, mas provavelmente aproveitou a ocasião para esconder seu telefone. Sua visita aconteceu algumas horas depois que seu irmão mais novo, Mehdi, de 23 anos, deixou a casa da família para uma estadia no Egito, com o intuito de "estudar religião".
Os pais não tiveram mais notícias de seus dois filhos mais velhos, mas não se preocuparam demais. Eles ainda não sabiam que seus filhos hoje seriam suspeitos de terem sido os principais organizadores da fuga de Hayat Boumeddiene, mulher de Amedy Coulibaly. Mais importante, eles não sabiam que o mais velho, Mohamed, esteve especialmente presente ao lado do assassino do mercado kosher Hyper Cacher nas últimas semanas de preparação dos atentados dos dias 7 e 9 de janeiro. Os investigadores suspeitam até mesmo que ele tenha divulgado o vídeo da reivindicação de Amedy Coulibaly.
Foi somente ao descobrir, pela televisão, que Mehdi havia sido visto não no Egito, mas sim na Turquia, em companhia de Hayat Boumeddiene, que seu pai se apresentou na delegacia, dois dias depois do ataque no Hyper Cacher. Embora desamparado, ele não ficou muito surpreso com a partida de seus filhos. Os dois estavam desempregados. Mohamed trabalhava como assistente escolar na prefeitura de Aulnay-sous-Bois (Seine-Saint-Denis), mas seu contrato não fora renovado em setembro. Mehdi e Mohamed praticavam "um islamismo bem radical", ele logo admitiu.
Mohamed, o mais velho, foi um estudante brilhante de engenharia na Escola de Minas de Albi, mas se perdeu. Em julho de 2014, ele foi condenado a dois anos de prisão – sendo uma sem sursis, que ele cumpriu em detenção provisória – por ter tido um papel ativo em uma rede de recrutamento de jihadistas para a região afegã-paquistanesa. Suas convicções políticas, aliás, permaneceram "muito claras", segundo seu tio: "Ele reconhecia a instauração do Estado Islâmico no Iraque e na Síria e reconhecia até mesmo o título de califa de seu líder, Al-Baghdadi."
Mas os investigadores conseguiram determinar que os irmãos Belhoucine haviam deixado o território francês exatamente uma semana antes dos ataques, e isso ao mesmo tempo que Hayat Boumeddiene, em uma espécie de fuga planejada. A "evasão" organizada ocorreu no dia 1º de janeiro. Mehdi, o mais jovem, pegou um ônibus da Eurolines com direção à Espanha. Mohamed, o mais velho, tomou a mesma direção após visitar seus pais. Ele levou junto consigo sua mulher, Imène, e seu filho de 4 anos. Hayat Boumeddiene foi levada diretamente por seu companheiro, Amedy Coulibaly, a bordo de um Seat Ibiza preto alugado.
Todo esse grupo se reencontrou no aeroporto de Madri e embarcou, no dia 2 de janeiro, em dois voos diferentes para Istambul. As últimas imagens em vídeo do aeroporto mostram Amedy Coulibaly e Hayat Boumeddiene andando juntos, apressados, de mãos dadas. O assassino do Hyper Cacher em seguida voltou correndo para Paris, tanto que foi pego pelo radar três vezes na estrada.
O que intriga os investigadores é que na manhã de 1º de janeiro, antes que partissem todas essas pessoas que hoje são procuradas, aconteceu uma pequena reunião na casa de Mohamed, o mais velho dos Belhoucine, em Bondy (Seine-Saint-Denis), na presença de pelo menos dois outros participantes. Só que no dia 3 de janeiro, um deles, um jovem de 23 anos de origem tunisiana, fugiu como os outros para a Turquia a partir de Madri. O segundo, um pai de família de 33 anos convertido ao islamismo, no mesmo dia foi para Istambul a partir do aeroporto de Roissy, junto com sua esposa e três filhos, sendo um deles um bebê de 8 meses. Todos são suspeitos de terem ido à Síria para se juntar ao Estado Islâmico.
Saberiam esses candidatos ao exílio no "califado", de perfis muito diferentes, o que estava sendo tramado? Conheciam eles os contatos de Mohamed Belhoucine, em cuja casa eles se encontraram pela última vez? Que papel exatamente teve este último? Registros telefônicos mostram que o jovem pode ter feito um reconhecimento de área perto de Dammartin-en-Goëlle, em Seine-et-Marne, onde os irmãos Kouachi se esconderam antes de morrer. Era também no celular de Mohamed Belhoucine que um dos ajudantes de Amedy Coulibaly, Mickaëk A., suspeito de tê-lo ajudado a obter armas, costumava ligar para contatá-lo.
Com seu porte esbelto e rosto delgado, o jovem era carismático e costumava fazer as vezes de professor de árabe e de moral islâmica. É possível que ele tenha influenciado a ação do assassino do Hyper Cacher? Ele chegou a fazer um "sermão religioso sobre os benefícios do casamento no islamismo", contou Mickaël A. em custódia. Mohamed Belhoucine até compareceu a seu casamento religioso, em agosto de 2014. Amedy Coulibaly e Hayat Boumeddiene, aliás, costumavam andar com Mohamed Belhoucine e sua mulher. No outono, todos estiveram juntos em um piquenique da associação Sanâbil, que apoia as famílias de detentos muçulmanos.
É possível que Hayat Boumeddiene – que pegou o mesmo voo que Mehdi Belhoucine – tenha acreditado que estava somente participando de uma onda de partidas para a Síria? Ou teria ela também apoiado seu marido durante seus preparativos? Pouco se sabe sobre ela. Hayat Boumedienne vem de uma família de seis filhos. Sua mãe morreu quando ela tinha 6 anos, e ela cresceu pulando entre vários orfanatos e famílias adotivas. Sendo muito religiosa, durante algum tempo ela usou a burqa, mas parou quando a lei de 2010 a proibiu. Todas as pessoas de seu convívio achavam que ela havia encontrado um equilíbrio com Amedy Coulibaly, que ela conhecia há seis anos. No outono, o casal fez junto a peregrinação até Meca.

Um Mini Cooper como moeda de troca

Seis meses antes dos atentados, Hayat Boumeddiene deixou de ter um celular. E foi ela que, em setembro de 2014, comprou a crédito um Mini Cooper por 27 mil euros com documentos falsos em seu nome. Segundo os investigadores, esse veículo pode ter servido mais tarde como moeda de troca, para obter armas tomadas na Bélgica.
Ao contrário dos irmãos Belhoucine, Hayat Boumeddiene não deu nenhum sinal de vida direto a seus parentes após a fuga. Seu pai diz que tentou contatá-la diversas vezes, em vão. O telefone tocava, mas ninguém atendia.
A primeira manifestação pública da jovem desde os atentados aconteceu por meio de uma entrevista que ela teria concedido ao "Dar al-Islam", a revista francófona oficial do Estado Islâmico. No texto publicado no início de fevereiro, a jovem de 26 anos, que estaria grávida de quatro meses, declara estar feliz por ter se juntado ao califado e apoia os crimes de seu marido: "Ele morria de vontade (...) de combater os inimigos de Alá", que Alá tenha "misericórdia" dele, ela diz.

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