quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Rússia considera União Europeia como sua verdadeira inimiga
Boris Najman - Le Monde
Vadim Ghirda/AP
Rebeldes pró-Rússia posam para foto na entrada da cidade de Debaltsevo, na Ucrânia Rebeldes pró-Rússia posam para foto na entrada da cidade de Debaltsevo, na Ucrânia
A queda da cidade de Debaltsevo marca mais uma etapa no desejo de destruição da Ucrânia, um país que vem sofrendo uma guerra de invasão e de desestabilização de suas instituições, orquestrado por Moscou. Isso porque a Rússia decidiu não permitir que a Ucrânia mude de sistema político.
O radicalismo militar de Vladimir Putin se resume unicamente à máxima "são eles ou nós". A propaganda difundida na imprensa russa lembra àquela da pior época do stalinismo. Dada a imensidão das receitas obtidas com o petróleo e o gás que controla, Putin quer permanecer no poder custe o que custar: essa é sua única preocupação.

Mobilização nacionalista

Essa guerra é útil ao Kremlin pois gera uma mobilização nacionalista que permite se livrar da questão bem mais crucial das necessárias reformas das instituições russas, uma questão que colocaria em evidência a corrupção e o autoritarismo de Vladimir Putin. Além da destruição em andamento da Ucrânia, a Rússia está tomando o caminho da destruição de sua sociedade e de seu próprio país.
O fato de que a Rússia não quer reconhecer sua intervenção na Ucrânia é muito preocupante. Trata-se de um conflito aberto, visível para todos, e o poderio militar russo age negligenciando aqueles que são testemunhas disso. Uma situação como essa tem suas consequências, pois essa guerra, no final das contas, é uma guerra contra a União Europeia (UE). O projeto político do Kremlin não para no Donbass, ele tem por objetivo destruir a própria ideia da construção europeia.
O Kremlin dispõe de aliados na Europa para realizar tal projeto, que não deve ser subestimado. À medida que a guerra se intensifica na Ucrânia, esses aliados ficam cada vez mais estruturados e determinados.

Revanche

As alianças fechadas pelo Kremlin não são ideológicas, mas elas têm em comum a volta das formas mais duras do nacionalismo e as mais destrutivas em nossas sociedades. É importante analisar as fontes de tal revanchismo. A primeira etapa vem do fim do comunismo, acompanhada da ascensão do nacionalismo dos anos 1990.
Ela produziu as guerras na ex-Iugoslávia, junto com sua "limpeza étnica" e o genocídio na Bósnia. Essas guerras, que subjugaram toda uma região, inclusive a Sérvia, cujo nível de vida hoje é um dos piores da Europa, servem de modelo para o Kremlin, que procura conseguir sua revanche sobre o fracasso do regime de Milosevic. Essa guerra é também uma revanche sobre a queda do muro de Berlim.
Há muitos daqueles, inclusive na França, que nunca aceitaram o mundo tal como ele se apresentou desde essa ruptura da história. Eles não quiseram a ampliação da União Europeia e veem atualmente em Putin um aliado em potencial, exaltador de um contra-modelo de uma sonhada ordem mundial.

Impotência

Como a União Europeia não quer defender a Ucrânia, a Rússia poderá utilizar armas cada vez mais destruidoras. Ela avalia que deve entrar em guerra contra a Europa para libertá-la. Mas de quê? Da democracia, em prol do caos e do triunfo da oligarquia? A Europa ainda não percebeu que essa potência russa a considera como sua inimiga. A UE é impotente diante de tal ameaça. Nossa ingenuidade e nossa falta de meios de defesa são lamentáveis e perigosas para nossas liberdades. Impor à Ucrânia as condições de seu desmantelamento pela Rússia só será uma das etapas.
Os acordos de Minsk 2, assinados no dia 12 de fevereiro, não dão à Ucrânia as garantias necessárias para garantir sua soberania e sobretudo o controle de sua fronteira com a Rússia. Eles não são suficientemente restritivos para Moscou e parecem ter sido assinados somente para forçar a Ucrânia a ceder.
Se não quisermos defender a União Europeia e também a nós mesmos, que deixemos pelo menos os ucranianos terem armas para se defender.

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