Pablo de Llano - El País
"Oxalá eu ficasse sem material para escrever. Valeria a pena", diz Daniel Samper Pizano, jornalista colombiano que escreveu dois romances, ambos sobre ditaduras da segunda metade do século 20: "Impávido colosso", sobre a do Brasil, e "Jota, caballo y rey", em torno da de Gustavo Rojas Pinilla, na Colômbia. Ele vê a América Latina com um otimismo relativo: "Há poucas décadas isto era um parque temático de ditaduras genocidas. Progredimos um pouco".
O desafio de compreender também é salientado pelo escritor Juan Gabriel Vásquez, de Bogotá. "A América Latina continua interrogando os romancistas. A realidade se apresenta cada dia como uma grande incógnita sem fundo." Seu país, a Colômbia, representa uma das perguntas imediatas: o governo chegará a um acordo de paz com as Farc?
O assunto ocupa conversas e capas. O colunista colombiano Antonio Caballero adverte que se chega ao extremo de que "tudo gira em torno disso", o que segundo ele encerra o país ainda mais em si mesmo. E isso apesar da repercussão internacional do processo de paz: "Que a Colômbia desperte interesse no mundo não quer dizer que a Colômbia se interesse pelo mundo".
O jornalista e editor Sergio Dahbar desenha um panorama sombrio de seu país, a Venezuela. "Estamos isolados e sem possibilidades. Sem papel, sem tintas. Fazer um livro lá é quase um ato de magia. O clima econômico e político é terrível, afeta os direitos humanos fundamentais." Na última quinta-feira, primeiro dia do Hay de Cartagena de Indias, o diretor da revista colombiana "Semana" perguntou a Jon Lee Anderson se em 2015 o regime de Nicolás Maduro "se quebraria ou daria uma volta de parafuso sob seu controle".
O jornalista americano afirmou que o chavismo não é uma estrutura monolítica e que a maneira de escapar de uma explosão social seria que o governo apostasse em uma "reconciliação nacional".
Outro polo de crise é o México, que ainda tenta metabolizar a chacina de 43 estudantes. "Afeta especialmente a nós, escritores, porque passamos por certa decomposição e perda de esperança. Justamente por isso, nosso trabalho se torna importante", afirma Juan Villoro.
O jornalista John Carlin, que passou parte de sua infância na Argentina e viveu no México, em Nicarágua e El Salvador, destaca que na América Latina há "uma energia e uma amplidão maior de imaginação que na velha Europa". E se na América Latina existe um desafio maiúsculo para a imaginação, este é saber o que vai acontecer em Cuba agora que abriu com os EUA um processo para voltarem a se aproximar.
Wendy Guerra é uma romancista cubana que permaneceu na ilha apesar de suas críticas ao governo. Mostra-se otimista diante do futuro: "Rompemos o ostracismo e parece que estamos encontrando uma saída para o mundo. Recebemos cada vez mais informação. Espero que logo eu possa publicar lá todos os meus livros, que percebam que não sou um inimigo. Se estamos recebendo o inimigo com fanfarra..."
A América Latina tem desafios peremptórios, mas entrou em uma era mais estável, na qual já não funciona aquele "parque temático" de ditaduras que enterrava ou expulsava sua gente. O fotógrafo argentino Daniel Mordzinski é testemunha: "Pertenço a uma geração de jovens latino-americanos que pôde escolher pouquíssimas coisas. Uma delas foi aonde ir, onde se refugiar, para onde escapar. No meu caso foi Paris".
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