segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

'Não vamos substituir nossas canetas por armas'; professoras aprendem a atirar para se defender
Ismail Khan - NYT 
A Majeed/ AFP
Professoras aprenderam a manejar armas após ataque que massacrou 150 em escola Professoras aprenderam a manejar armas após ataque que massacrou 150 em escola
Fatima Bibi disparou três tiros, atingindo um alvo de cada vez. Em seguida, ela baixou a pistola Glock, voltou-se para seus colegas professores e sorriu. Seu instrutor estava sorrindo também. "Essas senhoras são melhores atiradoras do que alguns dos nossos homens", disse Abdul Latif, instrutor de armas de fogo da polícia. "Elas aprenderam a lidar com uma arma em apenas dois dias. Seu nível de confiança é notável".
Tempos perigosos exigem medidas incomuns no noroeste do Paquistão, onde a polícia está treinando professores escolares e universitários no manuseio de armas de fogo, desde que o Taleban massacrou 150 pessoas em uma escola de Peshawar, em dezembro.
Bibi era uma das oito professoras da faculdade Frontier para Mulheres, uma escola de pós-graduação que participou de um curso de dois dias no campo de tiro da polícia provincial, na semana passada. Elas aprenderam a carregar, mirar e disparar armas que vão desde pistolas até rifles de assalto; elas também discutiram técnicas de autodefesa e como defender seus alunos se o Taleban invadir uma aula.
"A tragédia de 16 de dezembro nos mostrou que precisamos aprender a cuidar de nós mesmas e de nossos alunos", disse Naheed Hussain, uma professora assistente que fez o curso ainda usando seu vestido de ensino preto. "Nós não vamos substituir nossas canetas por armas. Mas pode surgir uma situação em que sejamos obrigadas a servir o nosso país".
A iniciativa das aulas de tiro surgiu do governo e das autoridades policiais da província de Khyber Pakhtunkhwa, como parte de um esforço para aumentar a segurança nas escolas. A província tem sido vítima da maior parte dos ataques do Taleban no Paquistão ao longo dos anos.

Apreensão

A posse de armas é comum em todo o noroeste do Paquistão, que é em grande parte povoado pela etnia pashtun e inclui distritos tribais inquietos. Mas o advento dos professores armados deixou muitos pais apreensivos, que alegam que é responsabilidade do Estado e não dos professores a de proteger escolas e universidades.
Particularmente, a ideia de professoras armadas provocou consternação em toda a conservadora sociedade pashtun, levantando uma tempestade de protestos que, segundo as autoridades, pode ameaçar todo o projeto. "Como podemos ensinar com uma arma em uma mão e um livro na outra?", perguntou Malik Khalid Khan, presidente da Associação de Professores de Escolas Primárias.
Abaseen Yusufzai, chefe do departamento pashtun da Universidade Islâmica, disse: "esta é a coisa mais estúpida e mais ilógica que aconteceu na memória viva da sociedade pashtun". "As mulheres prestam apoio moral, alimentos e água para nossos guerreiros", continuou Yusufzai. "Mas nunca em nossa história elas foram obrigadas a pegar em armas. Isso sugere que os homens perderam os brios e a coragem para lutar".
Especialistas em segurança expressaram ceticismo sobre a capacidade dos professores em conter militantes do Taleban, que muitas vezes estão drogados quando empreendem ataques suicidas. Mas o governo da província de Khyber Pakhtunkhwa, que é controlado pelo partido político da oposição Imran Khan, diz que tem pouca escolha a não ser usar medidas drásticas.
Mushtaq Ghani, ministro da Educação e da Informação da província, disse que seus 65 mil policiais não são suficientes para garantir a segurança das suas 45.000 escolas, faculdades e universidades. "Este é um momento extraordinário", disse ele a repórteres na semana passada. "Nós não queremos que os professores peguem em armas, mas é necessário, nestas circunstâncias".
Além da possibilidade de professores armados, as autoridades ordenaram que as escolas erguessem muros e contratassem seguranças armados --medidas caras que muitas escolas dizem não ter como custear.
No entanto, Muhammad Atif, ministro do ensino fundamental, disse que o governo estava redirecionando para as novas medidas de segurança US$ 15 milhões (em torno de R$ 40 milhões) em verbas destinadas às instalações sanitárias e água potável nas escolas. "Há 4.700 escolas nesta província que não têm muros", disse ele. "Então, vamos construir muros primeiro e pensar nos banheiros e na água potável mais tarde".
Os próprios professores se dizem em conflito: que não estão confortáveis com a perspectiva de carregar uma arma de fogo, mas ao mesmo tempo são assombrados pelas lembranças do derramamento de sangue na Escola Pública Exército em dezembro, quando sete militantes fortemente armados avançaram pelos corredores jogando granadas e atirando nos alunos.
"Quando eu segurei a arma e atirei, comecei a suar, pensando que eu deveria ter uma caneta na mão e não uma arma", disse Akhtar Nagina, professora de física na faculdade Frontier para as Mulheres. "Mas depois me lembrei do que os terroristas tinham feito. E percebi que eu deveria pelo menos ter uma arma na minha bolsa, para minha própria proteção".
16.dez.2014 - Um soldado acompanha dois estudantes que foram resgatados da escola pública do Exército atacada nesta terça-feira (16) por homens armados do Taleban, em Peshawar, no Paquistão. Ao menos 100 pessoas, na maioria crianças, morreram no ataque contra o colégio para filhos de militares, de acordo com as autoridades locais. O grupo responsável alega vingança pelos combatentes mortos em uma ofensiva militar na região Leia mais Khuram Parvez/ Reuters 
Tradutor: Deborah Weinberg

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