quarta-feira, 22 de abril de 2015

Palestinas se esforçam para manter judeus fora de local sagrado contestado
Diaa Hadid - NYT
Sebastian Scheiner/AP
O topo da mesquita de Al Aqsa, localizada em Jerusalém (Israel), coberto de neve O topo da mesquita de Al Aqsa, localizada em Jerusalém (Israel), coberto de neve
As mulheres, cobertas da cabeça aos pés, cercaram o grupo judeu que caminhava por um lugar sagrado contestado em Jerusalém. "O Exército de Maomé está vindo!" gritaram as mulheres.
Uma mulher cobriu seu rosto com um poncho enquanto cantava contra a polícia israelense, que protegia um grupo de judeus religiosos que visitava o amplo complexo que os judeus chamam de Monte do Templo e os muçulmanos chamam de Al Aqsa, ou o "Nobre Santuário". Outra mulher escondeu seu rosto com uma estola de pele. Os turistas desapareceram rapidamente.
A cena caótica, que esta se tornando rotineira no local sagrado, foi liderada por um grupo de mulheres conhecidas em sua comunidade como soldadas da guarnição muçulmana, ou mourabitat. Elas dizem que é o papel delas proteger a integridade do Nobre Santuário dos judeus religiosos, que querem rezar em um local contestado que é considerado sagrado por ambos.
"Nós somos as guardiãs por amor a Deus", disse uma mulher de 57 anos chamada Mona, que, como as outras, não disse seu sobrenome por temer ser presa.
"Todos devem proteger Al Aqsa, para que os judeus não o tomem", disse a mulher, usando óculos ao estilo de John Lennon, com seu lenço de cabeça castanho-avermelhado firmemente preso. "Eles estão de olho nele."
As mulheres são o elemento mais chamativo do esforço palestino para fortalecer seu domínio do complexo. Eles temem que Israel tente tomar ou dividir a propriedade, e não confiam nas garantias do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de que continuará proibindo não-muçulmanos de orar ali.
O complexo de 15 hectares na Cidade Velha murada de Jerusalém é sagrado para os muçulmanos, que acreditam que a jornada mística do Profeta Maomé o levou de Meca a Al Aqsa, e dali ao céu. E para os judeus é o local do Primeiro e Segundo Templo. Israel tomou o complexo –juntamente com o restante da Cidade Velha da Jordânia na guerra de 1967– mas devolveu a supervisão administrativa à Jordânia. Israel manteve a segurança e a proibição de oração por não-muçulmanos.
Um pequeno grupo de judeus religiosos há anos busca orar no local, e mais judeus o tem visitado nos últimos anos, aumentando as tensões que explodiram em violência no final do ano passado. Em uma medida rara, Israel fechou o complexo por um dia, levando a Jordânia a chamar de volta seu embaixador, que voltou apenas em fevereiro.
Reforçando a reivindicação dos muçulmanos pelo local, em 2010 uma organização chamada Movimento Islâmico, com sede em Israel, começou a transportar de ônibus milhares de palestinos para orações, a encorajar excursões escolares e pedindo aos muçulmanos para se casarem em Al Aqsa. Ela também iniciou grupos de estudos sobre as plataformas de pedra espalhadas por todo o local, pagando aos participantes US$ 300 por mês para manterem vigília o dia todo.
Com Israel restringindo o acesso de homens jovens em momentos de tensão, os grupos foram abertos às mulheres em 2012. Centenas se inscreveram.
Durante as aulas, as estudantes cantam alto quando judeus aparecem. Israel fechou em setembro a organização que promovia os grupos de estudos, disse seu ex-diretor, Hikmat Naamnih, mas as mulheres continuam vindo.
"É como se Deus tivesse nos dado um presente, um local para montarmos guarda", disse Hayat, 40 anos, cujos sete filhos mais velhos cuidam de seu bebê enquanto ela está em Al Aqsa. "Você então sente quanto valor você tem."
Em uma manhã recente, várias dezenas de mulheres estavam reunidas nas escadas de pedra próximas da entrada para turistas de Al Aqsa. Elas passavam chá umas às outras e pão com sementes de gergelim, ignorando os visitantes, muitos deles com lenços envolvendo suas pernas em uma tentativa apressada de exibir modéstia.
Elas ficavam de olho nos judeus vestidos de modo religioso, geralmente uma minoria minúscula entre as centenas de turistas não muçulmanos que vêm todo dia.
De repente, uma mulher gritou –"Colonos!"– referindo-se aos judeus religiosos.
"Deus é grande!" cantaram as mulheres, levantando os lenços e livros para formar um coral sem rosto. Cerca de 10 saíram em perseguição. Aproximadamente 10 homens se juntaram e cercaram os judeus. "A comunidade de Maomé não se ajoelha!" eles gritavam em árabe.
Um visitante judeu sorridente filmou os palestinos. Policiais filmaram as mulheres e uma mulher também os filmou.
Cantando, as mulheres e homens seguiram o grupo por todo o complexo. Alguns turistas correram para sair do caminho. Outros não paravam de tirar fotos.
"É sempre assim aqui? É uma loucura!" disse um turista para um policial.
"Eles acreditam que judeus não podem visitar", ele deu de ombros.
Após o confronto, as mulheres voltaram ao seu grupo. Uma mulher oferecia doces às demais. Outra continuou tricotando um poncho amarelo para sua neta.
Mona disse que se não tivesse se juntado ao grupo de estudos, ela não teria nada para fazer. "Eu preciso de duas horas para limpar a casa. E então faço o quê?" ela disse.
Ela disse que gosta do canto dos pássaros e da tranquilidade com cheiro de pinheiros do complexo. "Eu nunca relaxo, exceto aqui", disse Mona, beijando seus dedos em um sinal de gratidão. "Este é o portal para o paraíso."
Asya, 27 anos, uma mãe solteira de um filho de 4 anos, disse que se juntou ao grupo de estudos porque "Al Aqsa é o único lugar onde meu pai me deixa vir". Mas ela não gostou de terem zombado dos policiais. "Talvez os tenhamos ofendido e os afastado do Islã."
As mulheres cantaram várias vezes ao longo do dia. Uma mulher mais velha, em particular, chamou os judeus de porcos e macacos.
Asya e Hayat saíram mais cedo para irem ao casamento de uma amiga em uma mesquita próxima, com os vitrais das janelas suavizando a luz.
Um som vinha de longe: uma mulher estava gritando contra um novo grupo de visitantes judeus.

Nenhum comentário: