domingo, 22 de janeiro de 2012

EUROPA: DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS NUMA ÉPOCA DE CRISE É UM MAU SINAL

Europa desperdiça um terço dos alimentos
Ricardo Martínez de Rituerto - El País
São 179 kg de comida em perfeito estado por ano e por cidadão
Os europeus, que estão entre as populações mais privilegiadas na ordem mundial, podem ter a sensação de que o mundo desenvolvido consome, destrói e desperdiça sem parar. Agora poderão pôr um número nessa impressão: cada habitante da UE atira anualmente no lixo 179 quilos de produtos alimentícios em perfeito estado de consumo, segundo um estudo da Comissão Europeia. Visto de outro modo, quase 50% de produtos saudáveis e comestíveis são perdidos nas diferentes fases do processo que leva da produção à mesa (e à lata de lixo) do consumidor.
O Parlamento Europeu discutiu o fenômeno na quinta-feira (19) e sugeriu diversas medidas para combater o desperdício, entre elas que os rótulos tenham uma dupla data: a do limite de venda e a do limite de consumo do produto em questão.
A última palavra sobre como proceder será da Comissão, com uma potencial nova diretriz, e as autoridades responsáveis dos países para introduzir racionalidade no consumo. O debate de quinta-feira não era obrigatório, só um toque na consciência dos europeus, despachado em apenas 20 minutos de intervenções em uma Eurocâmara quase vazia.
O conteúdo do relatório, elaborado pelo socialista italiano Salvatore Caronna, e aprovado em uma votação de mãos levantadas, está salpicado de dados surpreendentes, um dos quais é que "18% dos europeus não compreendem a frase 'a consumir preferencialmente antes de...'". O próprio relatório explica que isso se refere à qualidade, enquanto indicações do tipo data de vencimento se referem à inocuidade, à segurança alimentar.
O documento pede que a Comissão fomente medidas para reduzir o desperdício, como os rótulos com dupla data e as vendas com desconto de alimentos próximos à data de vencimento ou danificados.
Segundo dados da Comissão, os 179 quilos per capita que os europeus jogam fora hoje - meio quilo por dia e com grandes variações por países e setores; 40% a mais em 2020 se não forem tomadas medidas - se perdem em todos os escalões da cadeia agroalimentar, embora a maior parte corresponda às residências, com 42% das perdas (aparentemente evitáveis em 60%). Seguem-nas de perto os produtores, com 39%; o setor de comidas preparadas, com 14%, e com 5% os comerciantes.
O desperdício tem causas diversas: excesso de produção, mau acondicionamento do produto (tamanho ou forma mal concebidos), deterioração do gênero ou do recipiente, normas de comercialização (problemas de aspecto ou recipiente defeituoso) e má gestão de existências ou estratégias comerciais inadequadas.
A Europa rica e consumista também tem muitos bolsões de pobreza, nos quais vivem 79 milhões de pessoas, 15% dos europeus com rendas inferiores a 60% da renda média de seu país de residência, e entre eles há 16 milhões que recebem ajuda de órgãos de beneficência, segundo o estudo. Diante desse panorama, "é indignante que quase 90 milhões de toneladas de alimentos em perfeito estado de consumo acabem no lixo", clamou uma eurodeputada. Daí o pedido de que sejam distribuídos de forma generalizada entre as pessoas menos favorecidas da união produtos que vão precipitadamente para o lixo, como já fazem alguns países.
O documento também chama a atenção para o fato de que em alguns países é proibida a venda de alimentos abaixo do preço de custo, o que priva os comerciantes de oferecer a menor preço no final do dia alimentos frescos não vendidos, com o consequente desperdício da cadeia alimentar.
O relatório pede que a Comissão analise com profundidade as diversas facetas do fenômeno e tome medidas, pedido que também é feito aos Estados. Antonio Tajani, vice-presidente do Executivo comunitário, prometeu que a Comissão apresentará vários projetos legislativos.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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