Os líderes do Congresso nos EUA precisam alcançar um acordo em breve com o governo Obama em torno de medidas para a redução do déficit.
Os EUA têm mais em comum com os países altamente endividados do sul da Europa do que gostariam de admitir. Se o país não alcançar um acordo sobre medidas para a redução do déficit em breve, as similaridades podem se tornar impossíveis de se ignorar. O abismo fiscal está se aproximando, e não apenas os EUA estão ameaçados.
Os EUA finalmente votaram, e as visões sombrias do futuro dos EUA transmitidas pela televisão em todo o país – e mais intensamente nos Estados indecisos – acabaram. Defensores de Barack Obama e de Mitt Romney apresentaram cenários de apocalipse para o que aconteceria se o oponente vencesse. Os anúncios advertiam que, se fossem dados mais quatro anos a Obama, isso resultaria em um puro socialismo. Já uma presidência de Romney exploraria brutalmente as classes média e baixa.
Contudo, após a reeleição de Obama, os americanos estão enfrentando um cenário de horror muito mais real: em apenas algumas semanas, milhares de crianças podem ficar sem vacinas; programas escolares financiados pelo governo federal podem ser interrompidos; adultos podem ser forçados a ficar sem seus testes de HIV, e os cupons de aluguel subsidiado podem secar. Até o trabalho dos controladores de tráfego aéreo, do FBI, guardas de fronteira e militares pode ser drasticamente reduzido.
Tudo isso e mais pode acontecer daqui a pouco, de acordo com a Casa Branca, se for permitido que o país salte para o “abismo fiscal” do início do ano que vem. A expressão, cunhada pelo diretor do Federal Reserve, Ben Bernanke, refere-se à ampla variedade de cortes de gastos e aumentos de impostos que entrarão automaticamente em vigor se os republicanos e democratas não conseguirem concordar com medidas para cortar o déficit orçamentário norte-americano.
No total, os cortes podem somar até US$ 1,2 trilhão (em torno de R$ 2,4 trilhões) nos próximos nove anos, sendo metade em sacrifícios dos orçamentos militares e metade de outros programas do governo. Só no primeiro ano, seriam US$ 65 bilhões em cortes. Essas medidas viraram lei com o Lei de Controle do Orçamento de 2011, que também aumentou o teto da dívida. Apesar de ter sido estabelecido um prazo limite para o dia 2 de janeiro de 2013, a ideia era que as medidas nunca entrassem em vigor. O plano de cortes profundos em todos os setores deveria levar democratas e republicanos a chegarem a um acordo em um plano de longo prazo para reduzir o enorme déficit orçamentário dos EUA.
Não seria uma coisa ruim?
A série de medidas do “abismo fiscal” também inclui o fim do corte de impostos para os ricos, originalmente aprovado pelo presidente George W. Bush e estendido por Obama. Essa eliminação do alívio tributário resultaria em US$ 221 bilhões de receita extra só em 2013, de acordo com o Escritório de Orçamento do Congresso. Também expiraria a redução temporária do imposto de renda em 2%, o que levaria outros US$ 95 bilhões para os cofres do governo no ano que vem.
O que não parece uma coisa ruim. Afinal, os EUA estão afundando sob uma pilha monumental de dívida e podem começar a enfrentar os tipos de dificuldades que levaram várias economias da zona do euro a entrarem em crise. É um ponto de vista partilhado pelas agências de classificação de risco: há um ano, a Standard & Poor`s retirou a classificação máxima dos EUA, justificando a medida pela batalha sem fim sobre o teto da dívida. A agência observou que “a estabilidade política e a governança dos EUA estão menos estáveis, menos eficazes e menos previsíveis do que se acreditava, e a atitude política temerária dos últimos meses confirma isso”.
De longe, é difícil contra-argumentar; a batalha constante entre democratas e republicanos diante de um orçamento horrivelmente desequilibrado parece catastroficamente absurda. Enquanto o país se dirigia para a beirada do abismo, os congressistas preferiam debater se batata frita ou pizza deveriam ser consideradas legumes.
Ainda assim, um elemento significativo na briga é um conflito fundamental que não é estranho aos europeus. Quanta austeridade é austeridade demais?
Queda brusca do crescimento
Por melhor que possa soar um corte instantâneo de metade do déficit do orçamento, a aterrissagem após o mergulho no abismo fiscal seria dura. Se os impostos fossem elevados ao mesmo tempo em que programas do governo fossem cortados, isso teria um enorme efeito sobre a economia. De acordo com o Escritório de Orçamento do Congresso, o crescimento de 2013 cairia imediatamente em quatro pontos percentuais, tornando inevitável uma recessão. O número de desempregados seria dois milhões mais alto do que sem os cortes.
É uma eventualidade que não enche de temor apenas os corações dos americanos. Em seu relatório anual sobre os EUA, o Fundo Monetário Internacional (FMI) referiu-se ao abismo fiscal como o maior risco atual para os EUA. Os investidores já estão mais cautelosos diante dos cortes no horizonte. Se os políticos não concordarem com um plano razoável para reduzir a dívida norte-americana, poderão prejudicar a credibilidade do dólar como moeda de reservas. O FMI, em seu relatório do Cenário Econômico Mundial, publicado em outubro, diz que os cortes drásticos “infligiriam grandes consequências para os principais parceiros comerciais dos EUA”. Em outras palavras, a Europa, que já está frágil, se tornaria ainda mais fraca.
Assim, a Alemanha não será o único país a acompanhar de perto enquanto o Congresso norte-americano tenta fechar um acordo nas próximas semanas. Se a economia norte-americana tiver uma queda radical no próximo ano, “no atual ambiente de incerteza, poderá resultar em uma perda mundial de confiança que levaria a um colapso do investimento no mundo todo”, de acordo com o relatório anual dos altos assessores econômicos alemães, divulgado na quarta-feira (07). Ainda assim, os especialistas advertem que simplesmente adiar as medidas para lidar com os problemas da dívida e do déficit de orçamento “também teria custos de longo prazo, na forma de uma dívida soberana ainda mais alta”.
O modelo grego?
Qual, então, é a solução? No final, os EUA chegariam a um meio termo similar ao que parece estar se formando na Grécia: medidas de austeridade combinadas com mais tempo para atingirem as metas de redução do orçamento. Os cortes drásticos que estão atualmente no horizonte são essencialmente uma espécie de freio da dívida, mas têm uma flexibilidade interna. O economista norte-americano Denis Flower propôs, em uma entrevista ao “Spiegel Online”, que Washington deveria introduzir uma lei exigindo a redução da dívida no longo prazo, mas que permitisse maiores déficits em tempos de crise.
Sem dúvida que os políticos norte-americanos não gostariam de ver seu país ser comparado com a Grécia. Afinal, a nação altamente endividada da zona do euro foi usada durante a campanha presidencial como caricatura dos horrores do socialismo europeu. Mas suas finanças atuais não são dissimilares, com o agravante que os EUA não podem contar com ajuda externa como os gregos receberam.
Ainda não se sabe como os políticos norte-americanos vão abordar o problema. Os republicanos, tendo defendido sua maioria na Câmara dos Deputados, poderiam simplesmente deixar seu país mergulhar do abismo na esperança que a culpa recaia sobre Obama. Ou, por outro lado, sua disposição em fechar um acordo pode ter sido inflamada com a perda das eleições presidenciais. O líder republicano da Câmara, John Boehner, prometeu na quarta-feira (7) trabalhar de perto com a Casa Branca nas negociações. Ele disse que os congressistas não serão capazes de resolver os problemas do país da noite para o dia, mas disse: os eleitores “nos deram um mandato para trabalharmos juntos pelo melhor para o nosso país”.
Os problemas econômicos da Grécia e os pacotes de austeridade resultantes levaram o país a cinco anos de recessão. A Alemanha, a Europa e o mundo esperam que o futuro não reserve o mesmo destino para os EUA.
Tradutor: Deborah Weinberg
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