sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Mísseis iranianos usados em Gaza dão ânimo ao governo em Teerã
Thomas Erdbrink* - TNYT                    
Acima da movimentada via Niayesh no oeste da capital iraniana, um imenso outdoor está pendurado em um viaduto para lembrar aos motoristas sobre a capacidade dos mísseis iranianos. Os carros passam sob a imagem de um míssil verde em um lançador e um texto em persa dizendo “Destino: Tel Aviv”.
Poucos notam o outdoor, já que os iranianos comuns estão ocupados demais lidando com a alta dos preços e a escassez ocasional provocada por uma economia em dificuldades. Mas os mísseis e a tecnologia de armas do Irã estão recebendo bastante atenção centenas de quilômetros de distância, em Gaza, o que dá aos clérigos que governam o país raras boas notícias naquele que tem sido um longo e péssimo ano.
O ataque israelense contra a faixa costeira palestina, e a retaliação pelo Hamas com mísseis fornecidos pelo Irã que colocam as grandes cidades de Israel ao alcance pela primeira vez, representaram uma virada de mesa para a República Islâmica. Com a declaração de cessar-fogo em Gaza, e com o presidente do Egito, Mohammed Morsi, recebendo aplausos por mediar o acordo, parte da euforia em Teerã foi contida. Mas os ganhos diplomáticos para o Irã provenientes do combate permanecerão.
Antes de Gaza, o Irã estava cambaleando devido a uma série de reveses, e não apenas pelo endurecimento recente das sanções do Ocidente, que cortaram as exportações de petróleo e provocaram forte desvalorização da moeda nacional.
Os clérigos tiveram que suportar a indignidade de Morsi, que, ao falar em uma conferência em Teerã, praticamente esmagou os sonhos há muito desejados de uma parceria estratégica. Morsi criticou o apoio do Irã à sua única aliada regional, a Síria, em sua condenação brutal de sua guerra civil.
Até mesmo o Hamas, um antigo parceiro ideológico do Irã, deu abertamente as costas a Teerã e Damasco e ficou do lado da aliança de reinos muçulmanos sunitas contra o governo sírio. Países mais novos e mais dinâmicos, como o Qatar e o Egito, despontaram para assumir a liderança nos assuntos na Síria e em Gaza, fazendo com que a mensagem de resistência sem concessões do Irã parecesse estagnada.
Então, há uma semana, quando Israel respondeu aos foguetes e mísseis disparados de Gaza, todos os agentes regionais foram devolvidos mais ou menos aos seus papéis tradicionais, começando por Morsi, que liderou o esforço de cessar-fogo como o país sempre fez quando Hosni Mubarak era o presidente. O emir do Qatar, o xeque Hamad bin Khalifa Al Thani, que em outubro fez uma visita sem precedente à Faixa de Gaza se apresentando como novo benfeitor do Hamas, aguardou quatro dias para fazer uma declaração sobre os combates entre Israel e os palestinos.
Ao longo de toda a batalha, os mísseis projetados pelo Irã, os Fajr-3 e os Fajr-5, que permitiram ao Hamas e outro movimento baseado em Gaza, a Jihad Islâmica, atingirem o interior de Israel, fizeram os israelenses fugirem para abrigos antibombas. Apesar de apoio político e dinheiro ajudarem, disseram os líderes palestinos, a tecnologia de armas do Irã ajuda muito mais.
“As armas da resistência, incluindo essas do Hamas, são iranianas, da bala ao míssil”, disse Ziad al Nakhla, vice-líder da Jihad Islâmica, para a TV “Al Manar” libanesa no Cairo, na terça-feira (20). “Se não fosse por essas armas, as armas do exército israelense teriam passado por cima dos corpos de nossas crianças”, ele acrescentou, elogiando os “grandes sacrifícios” feitos pelo Irã para o “envio” dessas armas para Gaza.
As autoridades iranianas não se intimidaram em receber os créditos pelas mudanças no campo de batalha, apesar de analistas terem notado que o reconhecimento da transferência de armamento pode levar a represálias.
“Nós dizemos com orgulho que apoiamos os palestinos, militar e financeiramente”, disse o chefe do Parlamento iraniano, Ali Larijani, aos repórteres locais nesta semana. “O regime sionista precisa perceber que o poderio militar palestino vem do poderio militar iraniano.”
Larijani até mesmo mencionou os outros problemas enfrentados pelo Irã, que de repente pareceram perder importância.
“Nós podemos ter inflação, desemprego e outros problemas econômicos em nosso país”, ele disse. “Mas estamos mudando a região, e isso será uma grande realização.”
O mais alto comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, Mohammad Ali Jafari, foi ainda mais direto.
A tecnologia de mísseis, ele disse, “foi transferida para a resistência e um número ilimitado desses mísseis está sendo fabricado”.
Mas os analistas dizem que a celebração em Teerã pode não durar muito. Os líderes do Hamas não pouparam elogios a Morsi por seu papel na mediação do cessar-fogo, dizendo que ele representou bem os interesses do grupo. E o Egito poderia fechar os túneis usados para o contrabando dos mísseis para Gaza.
Todavia, eles disseram, o combate ajudou bastante a reparar os danos à imagem regional do Irã causados pelo conflito sírio.
“Esta guerra uniu novamente o Irã e o Hamas, e o debate em torno da questão síria acabou”, disse Hamid-Reza Taraghi, que chefia o departamento internacional do influente Partido da Coalizão Islâmica.

No final, os líderes do Irã acreditam que o poderio militar é a única medida de sucesso, e eles têm pouca fé que acordos de cessar-fogo e diplomacia conseguirão algo duradouro. Para os iranianos comuns, entretanto, o programa de mísseis do Irã e os eventos em Gaza são problemas distantes, e muitos disseram que o triunfo pode ter vida curta.
“Talvez a curto prazo o Irã aumente sua influência entre os palestinos, mas a política muda rápido atualmente”, disse Allahgoli Abbaspour, um lojista de 53 anos. “Os palestinos precisam de sua independência, mas eu duvido que eles algum dia a conseguirão. Não que os iranianos comuns tenham algo a dizer a respeito.”
*Ramtin Rastin contribuiu com reportagem
Tradutor: George El Khouri Andolfato 

Nenhum comentário: