Ross Douthat - NYT
Newtown, em Connecticut, fica cerca de 20 quilômetros da cidade onde minha esposa cresceu. É o tipo de lugar que recompensa os passeios à toa por New England: há velhos casarões vitorianos dos lados da rua principal, uma colina com um enorme mastro de bandeira no centro da cidade e um grande pasto logo abaixo, com estradas laterais sombreadas irradiando a partir do gramado, e fazendas de cavalo nas colinas próximas.
Qualquer adulto sabe que essa inocência de cidade pequena é ilusória, e que o que parece intocado para as pessoas de fora pode ser obscurecido pelo sofrimento como em qualquer outro lugar onde seres humanos vivem juntos, e sozinhos.
Mesmo assim, a ilusão tem um poder real, principalmente porque o sonho da vida numa cidade pequena vida faz o universo inteiro parecer de certa forma mais amável e aconchegante. Se Bedford Falls ou Stars Hollow ou Mayberry existissem em algum lugar, tendemos a sentir – em New England ou Nebraska, no presente ou no passado – que talvez haja alguma esperança para o resto de nós também. Talvez o universo tenha sido criado para ser um lar para a humanidade, e não só um cosmos cegamente cruel no qual o destino de uma criança de seis anos é importante para seus pais, mas em termos absolutos não é mais importante do que o de uma concha que se parte ou de uma estrela que se extingue.
Mas se o ideal de um Lugar Bom, o Éden perdido ou a Arcádia, pode despertar um resíduo de esperanças religiosas mesmo nos materialistas empedernidos, a realidade do que aconteceu na verdadeira Newtown há mais de duas semanas – o assassinato a sangue frio de 20 crianças pequenas – pode transformar até os mais devotos em Ivans Karamazovs.
No famoso romance de Fiódor Dostoievski, Ivan é o irmão Karamazov que coleciona histórias de crianças torturadas, espancadas, mortas – bebês capturados na ponta das baionetas dos soldados, um menino serviçal atropelado pelos cães de seu patrão, uma criança de cinco anos trancada num banheiro externo no frio congelante por seus pais.
Ivan invoca esses inocentes num discurso que continua sendo uma das críticas mais poderosas à ideia de um Deus amoroso e onisciente – um discurso que aceita a possibilidade de que a história cristã do livre arbítrio que conduz ao sofrimento e em seguida à redenção pode ser verdadeira, mas que de qualquer forma rejeita seu Autor, alegando que o preço de nossa liberdade é muito grande.
"Você é capaz de entender", pergunta a seu irmão mais religioso, "por que uma pequena criatura, que não consegue nem mesmo entender o que estão fazendo com ela, deve bater em seu pequeno coração machucado com seu punho diminuto, no escuro e no frio, e chorar suas lágrimas mansas e sem ressentimento para que o querido e bondoso Deus a proteja? (…) Você entende por que essa infâmia existe e é permitida? Sem ela, dizem-me, o homem não poderia existir na Terra, pois não saberia a diferença entre o bem e o mal. Por que ele deveria conhecer esse diabólico bem e mal se isso custa tanto?"
Talvez, Ivan admite, exista alguma harmonia final, na qual cada lágrima é secada e cada desgraça humana é revelada como insignificante diante das glórias da eternidade. Mas tal reconciliação seria conquistada a "um preço muito alto". Mesmo a esperança do céu, diz ele a seu irmão, não vale "as lágrimas daquela criança torturada".
É significativo que Dostoievski, ele próprio um cristão, não tenha oferecido uma refutação teológica direta ao discurso de seu personagem. O contraponto a Ivan em "Os Irmãos Karamazov" é fornecido por outros personagens que dão um exemplo de amor cristão que transcende o sofrimento, e não através de uma justificativa retórica da bondade de Deus.
Assim, o romancista russo estava sendo fiel ao espírito do Novo Testamento, que também procura estabelecer a bondade de Deus através da narrativa e não da argumentação, uma revelação da sua solidariedade com a dificuldade humana em vez de uma prova filosófica de sua benevolência.
Da mesma forma, a única coisa que minha tradição religiosa tem a oferecer para os enlutados de Newtown – além de um testemunho apropriadamente respeitoso de sua terrível tristeza – é uma versão dessa história, e do realismo sobre o sofrimento que ela contém.
Pode ser difícil ver esse realismo na época de Natal, quando o lado sentimental da fé toma o centro do palco. Mas a história de Natal não se resume à manjedoura, os pastores e o menino Jesus, meigo e tranquilo.
A fúria de Herodes também está lá, e os inocentes massacrados de Belém, e a mirra que preparou os corpos para a sepultura. A cruz paira atrás do estábulo – a sombra da violência, agonia e morte. Nas montanhas sem verde do oeste do Connecticut, este é o único espírito do Natal que faz sentido agora.
Tradutor: Eloise De Vylder
Quando você vive numa cidade agitada e supostamente importante, é fácil romantizar uma cidade como Newtown, e talvez imaginar fugir para lá um dia, com as crianças a tiracolo. A última vez que passamos por lá já faz mais de um ano: foi num entardecer de verão, e havia famílias ao ar livre por toda parte – crianças de bicicleta, multidões ao redor da barraca de sorvete, as imagens de inocência da pequena cidade passando reluzentes pelas janelas do carro como slides num projetor.
Mesmo assim, a ilusão tem um poder real, principalmente porque o sonho da vida numa cidade pequena vida faz o universo inteiro parecer de certa forma mais amável e aconchegante. Se Bedford Falls ou Stars Hollow ou Mayberry existissem em algum lugar, tendemos a sentir – em New England ou Nebraska, no presente ou no passado – que talvez haja alguma esperança para o resto de nós também. Talvez o universo tenha sido criado para ser um lar para a humanidade, e não só um cosmos cegamente cruel no qual o destino de uma criança de seis anos é importante para seus pais, mas em termos absolutos não é mais importante do que o de uma concha que se parte ou de uma estrela que se extingue.
Mas se o ideal de um Lugar Bom, o Éden perdido ou a Arcádia, pode despertar um resíduo de esperanças religiosas mesmo nos materialistas empedernidos, a realidade do que aconteceu na verdadeira Newtown há mais de duas semanas – o assassinato a sangue frio de 20 crianças pequenas – pode transformar até os mais devotos em Ivans Karamazovs.
No famoso romance de Fiódor Dostoievski, Ivan é o irmão Karamazov que coleciona histórias de crianças torturadas, espancadas, mortas – bebês capturados na ponta das baionetas dos soldados, um menino serviçal atropelado pelos cães de seu patrão, uma criança de cinco anos trancada num banheiro externo no frio congelante por seus pais.
Ivan invoca esses inocentes num discurso que continua sendo uma das críticas mais poderosas à ideia de um Deus amoroso e onisciente – um discurso que aceita a possibilidade de que a história cristã do livre arbítrio que conduz ao sofrimento e em seguida à redenção pode ser verdadeira, mas que de qualquer forma rejeita seu Autor, alegando que o preço de nossa liberdade é muito grande.
"Você é capaz de entender", pergunta a seu irmão mais religioso, "por que uma pequena criatura, que não consegue nem mesmo entender o que estão fazendo com ela, deve bater em seu pequeno coração machucado com seu punho diminuto, no escuro e no frio, e chorar suas lágrimas mansas e sem ressentimento para que o querido e bondoso Deus a proteja? (…) Você entende por que essa infâmia existe e é permitida? Sem ela, dizem-me, o homem não poderia existir na Terra, pois não saberia a diferença entre o bem e o mal. Por que ele deveria conhecer esse diabólico bem e mal se isso custa tanto?"
Talvez, Ivan admite, exista alguma harmonia final, na qual cada lágrima é secada e cada desgraça humana é revelada como insignificante diante das glórias da eternidade. Mas tal reconciliação seria conquistada a "um preço muito alto". Mesmo a esperança do céu, diz ele a seu irmão, não vale "as lágrimas daquela criança torturada".
É significativo que Dostoievski, ele próprio um cristão, não tenha oferecido uma refutação teológica direta ao discurso de seu personagem. O contraponto a Ivan em "Os Irmãos Karamazov" é fornecido por outros personagens que dão um exemplo de amor cristão que transcende o sofrimento, e não através de uma justificativa retórica da bondade de Deus.
Assim, o romancista russo estava sendo fiel ao espírito do Novo Testamento, que também procura estabelecer a bondade de Deus através da narrativa e não da argumentação, uma revelação da sua solidariedade com a dificuldade humana em vez de uma prova filosófica de sua benevolência.
Da mesma forma, a única coisa que minha tradição religiosa tem a oferecer para os enlutados de Newtown – além de um testemunho apropriadamente respeitoso de sua terrível tristeza – é uma versão dessa história, e do realismo sobre o sofrimento que ela contém.
Pode ser difícil ver esse realismo na época de Natal, quando o lado sentimental da fé toma o centro do palco. Mas a história de Natal não se resume à manjedoura, os pastores e o menino Jesus, meigo e tranquilo.
A fúria de Herodes também está lá, e os inocentes massacrados de Belém, e a mirra que preparou os corpos para a sepultura. A cruz paira atrás do estábulo – a sombra da violência, agonia e morte. Nas montanhas sem verde do oeste do Connecticut, este é o único espírito do Natal que faz sentido agora.
Tradutor: Eloise De Vylder
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