Miguel Mora - El Pais
Oito meses depois de sua chegada ao Eliseu, a imagem de François Hollande é a de um presidente impávido sob a tormenta. Já não cai água, como no dia de sua posse, mas sim fogo cruzado. Pelo flanco esquerdo, Jean-Luc Mélenchon ataca o chefe de Estado dizendo que "está mais cego que Luis 16". Pela direita, a oposição esquartejada pelas primárias se divide: os católicos o acusam de sectário por apoiar o casamento gay, os liberais o criticam por uma política "assistencialista" que castiga as empresas, e os populistas o acusam de se submeter às receitas neoliberais. Os sindicatos e a ala esquerda do Partido Socialista pedem menos austeridade e mais firmeza, decepcionados porque o governo não nacionalizará, como propôs Arnaud Montebourg, os alto-fornos da Arcelor Mittal em Florange. As últimas pesquisas refletem o descontentamento crescente e o medo de que a crise do sul derrube a França.
As pesquisas colocam o segundo presidente socialista da história moderna e seu primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, como a dupla mais impopular da Quinta República. Uma pesquisa recente do "L'Humanité" revelou uma parte do problema: a indefinição ideológica. Para uma maioria de franceses, Hollande não é "suficientemente de esquerda".
O primeiro-ministro Ayrault, obrigado a aumentar sua presença midiática, acaba de negar que a política econômica do governo seja social e liberal. "Estamos fazendo uma política social republicana, e é sem dúvida a mais esquerdista dos países do euro", disse. "Praticamente todos os demais países baixaram os salários, as pensões, os benefícios sociais e nós não estamos fazendo isso". É difícil desmentir, mas a ironia é que para a esquerda da esquerda, que desconfia da Europa e da globalização, Hollande e Ayrault continuam representando uma esquerda morna, sem caráter para frear as repressões da chanceler Angela Merkel e o poder das multinacionais. O escritor Claude Martin dizia há alguns dias: "a Europa está voltando à Idade Média e nossos políticos se mostram cada dia mais incapazes de evitar isso".
Muito menos onipresente que seu antecessor, Hollande não perde a calma e aguenta as críticas sem levantar a voz. Se o desemprego continua batendo recordes, ele explica que a realidade da Europa é essa, promete que os resultados chegarão e recorda que seu mandato deve ser julgado ao final dos cinco anos. Se um dia afirma que os prefeitos poderão alegar problemas de consciência para não realizar casamentos gays, no dia seguinte recebe os coletivos menosprezados, reconhece seu erro e diz o contrário. Se Merkel impõe sua tese em Bruxelas, a resposta é que o importante é o acordo. E é assim com tudo. Ninguém discute que seu pragmatismo líquido relaxou a histeria oficial que marcou o quinquênio anterior. Mas muitos franceses se sentem confusos.
Os intelectuais, por exemplo, acham muito mais difícil definir o hollandismo do que o sarkozysmo. Laurent Bouvet, professor de Ciências Políticas na Universidade de Versalhes-Saint-Quentin-en Yvelines, tentou essa proeza num artigo do "Le Monde", que começava comentando a "perplexidade" que gera a política do chefe de Estado, elogiada "pelos mais entusiastas como uma revolução copernicana" e vista por seus detratores "como uma imobilidade radical-socialista a Henri Queuille", um gaulês de Corrèze (1884-1970) famoso por dizer que para resolver problemas é melhor não fazer nada.
Bouvet recordava que Emmanuel Todd formulou durante a campanha "a hipótese provocadora do hollandismo revolucionário", pressagiando que Hollande seria "o primeiro líder socialdemocrata à francesa, um grande presidente de esquerda que, graças à eficácia de sua política mais do que a seu sentido trágico da história, mudaria por fim a sociedade francesa, reorientando suas decisões econômicas, pesando mais sobre o destino europeu e garantindo uma maior igualdade".
Segundo Bouvet, a forma de governar de Hollande "se baseia no sentido do equilíbrio e em sua busca de uma síntese entre posições adversas, senão antagônicas. Assim, todas as interpretações são possíveis: sentido tático agudo, prudência excessiva, indecisão crônica...". Essa forma de entender o poder, forjada durante a década na qual Hollande foi primeiro-secretário do PS, prefigura o segundo elemento, "a rejeição a todo apriorismo ideológico, a toda posição doutrinária fixa."
É um pragmatismo sem cinismo, explica o autor do livro "Le Sens Du Peuple. La gauche, la démocratie, le populisme" [algo como "O Sentido do Povo. A esquerda, a democracia, o populismo"], porque se apoia num reformismo social-democrata de estilo nórdico e em um europeísmo convencido, como manda a dupla herança de François Mitterrand e Jacques Delors. Isso explicaria a incompreensão do "povo de esquerda", que percebe como "uma traição" todo reformismo pactado porque considera irrenunciável "o gesto ideológico", a espetacularidade tanto das renúncias como das promessas.
A terceira característica cunhada por Bouvet, "a nova sociologia do Estado", explica-se pela chegada ao poder de inúmeros ex-alunos da ENA (Escola Nacional de Administração) e de uma geração de cargos locais forjada nas vitórias eleitorais do PS. Um desses eleitos gerou o primeiro escândalo da era Hollande. Trata-se do ministro da Fazenda, Jérôme Cahuzac, paladino da luta contra a fraude fiscal. O site Mediapart revelou que ele tinha uma conta secreta na Suíça. É claro, Hollande e Ayrault deram seu apoio líquido ao ministro.
Tradutor: Eloise De Vylder
O primeiro-ministro Ayrault, obrigado a aumentar sua presença midiática, acaba de negar que a política econômica do governo seja social e liberal. "Estamos fazendo uma política social republicana, e é sem dúvida a mais esquerdista dos países do euro", disse. "Praticamente todos os demais países baixaram os salários, as pensões, os benefícios sociais e nós não estamos fazendo isso". É difícil desmentir, mas a ironia é que para a esquerda da esquerda, que desconfia da Europa e da globalização, Hollande e Ayrault continuam representando uma esquerda morna, sem caráter para frear as repressões da chanceler Angela Merkel e o poder das multinacionais. O escritor Claude Martin dizia há alguns dias: "a Europa está voltando à Idade Média e nossos políticos se mostram cada dia mais incapazes de evitar isso".
Muito menos onipresente que seu antecessor, Hollande não perde a calma e aguenta as críticas sem levantar a voz. Se o desemprego continua batendo recordes, ele explica que a realidade da Europa é essa, promete que os resultados chegarão e recorda que seu mandato deve ser julgado ao final dos cinco anos. Se um dia afirma que os prefeitos poderão alegar problemas de consciência para não realizar casamentos gays, no dia seguinte recebe os coletivos menosprezados, reconhece seu erro e diz o contrário. Se Merkel impõe sua tese em Bruxelas, a resposta é que o importante é o acordo. E é assim com tudo. Ninguém discute que seu pragmatismo líquido relaxou a histeria oficial que marcou o quinquênio anterior. Mas muitos franceses se sentem confusos.
Os intelectuais, por exemplo, acham muito mais difícil definir o hollandismo do que o sarkozysmo. Laurent Bouvet, professor de Ciências Políticas na Universidade de Versalhes-Saint-Quentin-en Yvelines, tentou essa proeza num artigo do "Le Monde", que começava comentando a "perplexidade" que gera a política do chefe de Estado, elogiada "pelos mais entusiastas como uma revolução copernicana" e vista por seus detratores "como uma imobilidade radical-socialista a Henri Queuille", um gaulês de Corrèze (1884-1970) famoso por dizer que para resolver problemas é melhor não fazer nada.
Bouvet recordava que Emmanuel Todd formulou durante a campanha "a hipótese provocadora do hollandismo revolucionário", pressagiando que Hollande seria "o primeiro líder socialdemocrata à francesa, um grande presidente de esquerda que, graças à eficácia de sua política mais do que a seu sentido trágico da história, mudaria por fim a sociedade francesa, reorientando suas decisões econômicas, pesando mais sobre o destino europeu e garantindo uma maior igualdade".
Segundo Bouvet, a forma de governar de Hollande "se baseia no sentido do equilíbrio e em sua busca de uma síntese entre posições adversas, senão antagônicas. Assim, todas as interpretações são possíveis: sentido tático agudo, prudência excessiva, indecisão crônica...". Essa forma de entender o poder, forjada durante a década na qual Hollande foi primeiro-secretário do PS, prefigura o segundo elemento, "a rejeição a todo apriorismo ideológico, a toda posição doutrinária fixa."
É um pragmatismo sem cinismo, explica o autor do livro "Le Sens Du Peuple. La gauche, la démocratie, le populisme" [algo como "O Sentido do Povo. A esquerda, a democracia, o populismo"], porque se apoia num reformismo social-democrata de estilo nórdico e em um europeísmo convencido, como manda a dupla herança de François Mitterrand e Jacques Delors. Isso explicaria a incompreensão do "povo de esquerda", que percebe como "uma traição" todo reformismo pactado porque considera irrenunciável "o gesto ideológico", a espetacularidade tanto das renúncias como das promessas.
A terceira característica cunhada por Bouvet, "a nova sociologia do Estado", explica-se pela chegada ao poder de inúmeros ex-alunos da ENA (Escola Nacional de Administração) e de uma geração de cargos locais forjada nas vitórias eleitorais do PS. Um desses eleitos gerou o primeiro escândalo da era Hollande. Trata-se do ministro da Fazenda, Jérôme Cahuzac, paladino da luta contra a fraude fiscal. O site Mediapart revelou que ele tinha uma conta secreta na Suíça. É claro, Hollande e Ayrault deram seu apoio líquido ao ministro.
Tradutor: Eloise De Vylder
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