sábado, 15 de dezembro de 2012

Japão quer um governo forte para enfrentar a poderosa nação chinesa
Georgina Higueras - El Pais
O nacionalismo que envolve as eleições que se realizam no domingo (16) no Japão não tem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. Depois de duas décadas de estancamento que o levaram a perder para seu vizinho o lugar de segunda potência econômica mundial, os japoneses querem um governo forte em meio à crescente sombra projetada pela emergência da China. Para muitos, o declínio é propiciado pela classe política: nos últimos sete anos o país teve seis primeiros ministros, e com o que ganhar no domingo serão sete.
O ambiente eleitoral foi animado por Shintaro Ishihara, 80, e governador de Tóquio desde 1999, que em outubro passado apresentou sua demissão para concorrer nas legislativas. Ishihara, um escritor transformado em político para dar voz à extrema-direita nacional, prometeu devolver ao Japão seu "orgulho pisoteado", e embora tenha poucas possibilidades de ganhar seu populismo patriótico contagiou toda a campanha eleitoral. Anticomunista visceral, apoia a ruptura de relações diplomáticas com a China e forçou o governo de Yoshihiko Noda a comprar as disputadas ilhas Senkaku (em japonês) e Diaoyu (em chinês) para impedir que ele as comprasse e as utilizasse como plataforma de sua verborreia, provocando um incêndio impossível de apagar.
O PLD (Partido Liberal Democrata) - que governou o país de forma quase ininterrupta desde sua fundação em 1955 até sua arrasadora derrota em 2009 - parte como favorito nestas eleições. É liderado pelo ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, 58, um dos principais falcões do PLD e filho de uma das grandes dinastias políticas do Japão.
Tudo indica que depois destas eleições o Japão porá fim ao pacifismo que abraçou depois de sua derrota em 1945. Ishihara defende que o país tenha armas nucleares, como possuem seus vizinhos - Rússia, China, Coreia do Norte e, do outro lado do Pacífico, os EUA. Abe é contrário a essa opção, que desataria uma perigosa corrida armamentista na Ásia, mas aprova que o Japão transforme suas forças de autodefesa em exército, o que exige reformar o artigo 9º da Constituição.
Já em 2006, Abe deu passos importantes nesse sentido, mas seu governo durou apenas um ano e não pôde levar a cabo uma reforma apoiada por boa parte da classe política, já que a atual Constituição foi imposta em 1946 pelos EUA como potência ocupante. A crescente presença naval da China nas águas dos mares de seu entorno, onde mantém disputas com diversos países - Japão, Filipinas, Brunei, Malásia e Vietnã - por vários conjuntos de ilhas e o aumento exponencial do orçamento militar do país vizinho dispararam os alarmes em Tóquio. "Para garantir sua segurança, o Japão pretende ter forças de autodefesa combinadas com outra potência com a qual compartilhe valores, como os EUA", afirma Satoru Sato, embaixador de Tóquio em Madri.
Segundo Sato, "o Japão está tentando se reinventar" para enfrentar seus fortes desafios econômicos e sociais - uma população decrescente. Muitos especialistas consideram que essa reinvenção passa por uma nova abertura ao exterior, como a realizada em 1868, durante a chamada Restauração Meiji.
Abe assumiu o clamor da sociedade sobre a necessidade de um governo forte, que dê estabilidade ao país e permita pôr em ação toda uma bateria de reformas para tirar a economia do abismo em que afundou. Os últimos dados econômicos confirmam a urgência de tomar medidas para aliviar a crise. Entre julho e setembro, o Produto Interno Bruto caiu 3,5% anuais e 0,9% com relação ao trimestre anterior.
O primeiro-ministro Noda e seus dois antecessores do Partido Democrático do Japão (PDJ) não conseguiram rentabilizar a ânsia de mudança da sociedade japonesa que propiciou a virada eleitoral que os levou ao governo em 2009. Yukio Hatoyama foi obrigado a deixar o cargo aos oito meses, quando compreendeu que não poderia cumprir sua principal promessa eleitoral, a de fechar a impopular base aérea americana de Futenma, em Okinawa.
A tragédia do tsunami e o consequente acidente na central nuclear de Fukushima, em março de 2011, acabaram com Naoto Kan. E Noda foi vítima do sistema bicameral que, com eleições separadas no tempo, causa com frequência o bloqueio do Executivo, cujas leis a Câmara baixa aprova e a Câmara alta rejeita, na qual agora o PLD tem maioria. As últimas pesquisas situam o PDJ com apenas 20% das intenções de voto.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Nenhum comentário: