quinta-feira, 29 de maio de 2014

Importante facção se separa do Taleban paquistanês
Ismail Khan e Declan Walsh - NYT
Após meses de disputas internas violentas, uma facção influente do Taleban paquistanês disse nesta quarta-feira (28) que estava se separando, por causa de divergências com o líder do Taleban, Maulana Fazlullah, no que foi visto como um grande estímulo aos esforços paquistaneses de dividir o mais forte grupo militante do país.
Azam Tariq, um porta-voz da facção liderada por Khan Sayed, que é conhecido como Sajna, disse em uma declaração que o grupo estava rompendo com o Tehrik-e-Taleban do Paquistão porque "a atual liderança perdeu o rumo" –com a sugestão de que grupos de inteligência estrangeiros têm influência indevida sobre Fazlullah.
Para o Taleban paquistanês, que matou milhares de pessoas em ataques suicidas por todo o país desde que foi oficialmente formado em dezembro de 2007, a divisão é uma evidência formal de uma disputa profunda entre facções. E a decisão provavelmente sacudirá a rede de alianças operacionais e de arrecadação de fundos que tornou o Waziristão do Norte em um centro formidável de militância islâmica internacional.
O cisma também representa o provável fim, ao menos por ora, dos esforços do primeiro-ministro Nawaz Sharif de acabar com a insurreição do Taleban por meio de negociação. Uma tentativa de processo de paz iniciada em fevereiro já tinha sido suspensa em meio às tensões com a liderança militar em torno de como melhor proceder. Uma série de ataques aéreos na semana passada, contra alvos militantes em Miram Shah e Mir Ali, as principais cidades no Waziristão do Norte, uma região tribal que serve de base para muitos militantes, sugere que os militares perderam a paciência com as negociações.
A natureza pública da divisão foi motivo de celebração para as autoridades de segurança e inteligência paquistanesas, que vinham discretamente fomentando a divisão nas fileiras do Taleban há meses.
"A divisão terá um impacto extenso, no Waziristão e em outros lugares", disse um alto oficial de segurança em Peshawar, falando sob a condição de anonimato.
De modo mais geral, a divisão é o sinal mais significativo de que os militantes podem estar brigando por divergências estratégicas sobre como proceder, tanto na guerra afegã, onde as tropas americanas estão se retirando, quanto na luta contra o governo e forças armadas do Paquistão.
E é um duro golpe pessoal para Fazlullah, o militante-chefe baseado no Afeganistão que luta para manter o grupo unido desde que assumiu o controle no ano passado, após um ataque americano com drone ter matado seu antecessor, Hakimullah Mehsud.
Apesar de Fazlullah, que vem do Vale de Swat do Paquistão, ser visto como um comandante relativamente fraco, o Taleban esperava ser capaz de conter a disputa violenta entre facções rivais da tribo Mehsud. Mas as disputas internas apenas se intensificaram nos últimos meses, colocando combatentes leais a Sayed contra os de outro comandante, Shehryar Mehsud. Combates estouraram no Waziristão do Sul e do Norte, à medida que grupos rivais atacavam bases e emboscavam uns aos outros, levando à morte de dezenas de combatentes.
A violência toma lá, dá cá, também vazou para as células do Taleban que atuam na cidade portuária de Karachi, onde os militantes estão cada vez mais poderosos nos bairros de etnia pashtun nos últimos 18 meses.
Tariq, o porta-voz militante, realizou uma coletiva de imprensa no Waziristão do Norte e então emitiu uma declaração de duas páginas expondo as queixas do grupo de Sajna com Fazlullah e uma facção rival da tribo Mehsud. A declaração disse que o rompimento foi motivado em parte pela briga com outro grupo Mehsud –Fazlullah foi visto como tendo ficado do lado do rival deles– mas também pela forma como estava conduzindo o Taleban. O movimento militante caiu sob controle de "mãos invisíveis", disse o grupo –uma provável referência à inteligência afegã, que vinha discretamente apoiando Fazlullah em sua base nas montanhas da província de Kunar, no leste do Afeganistão.
O efeito mais imediato da divisão pode ser mais lutas internas dentro do campo Mehsud. Um assessor sênior de Shehryar Mehsud, falando por telefone de Miram Shah, no Waziristão do Norte, sob a condição de anonimato, por não ser um porta-voz nomeado, destacou que seu grupo permanece leal a Fazlullah.
"Nós esperávamos isso de Sajna, porque o grupo dele há muito vinha violando as decisões da shura central", disse o assessor, referindo-se ao conselho de governo do Taleban paquistanês. "Nós ainda fazemos parte do Tehrik-e-Taleban do Paquistão e continuaremos trabalhando sob nosso emir, Fazlullah."
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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