A economia devastada
OESP
Fracasso
de ponta a ponta em seu primeiro mandato, a política econômica foi
assunto secundário no primeiro discurso da presidente Dilma Rousseff
logo depois de confirmada a reeleição. Numa rápida menção ao tema, ela
prometeu "dar impulso às atividades econômicas", em especial à
indústria. Terá de ser um impulso e tanto para desatolar a produção. A
economia crescerá este ano 0,9%, se estiver correta, pelo menos desta
vez, uma previsão do ministro da Fazenda, Guido Mantega (ele citou esse
número na semana passada). Confirmada a projeção, terá sido um
desempenho humilhante, se comparado com o de outros emergentes e até com
o de alguns países avançados, como os Estados Unidos.
Nesse
caso, a presidente Dilma só poderá exibir, depois dos primeiros quatro
anos de mandato, um crescimento acumulado de 7,28%, com ritmo anual
médio de 1,77%, um dos mais baixos em mais de um século de República.
Mas
poucos são bastante otimistas para apostar nesse resultado. Na
sexta-feira, dois dias antes da votação do segundo turno, a mediana das
projeções do mercado financeiro estava em 0,27%. No começo do mês, o
Fundo Monetário Internacional (FMI) havia anunciado sua nova estimativa
de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, de 0,3%. Na América
do Sul, só Argentina e Venezuela, em recessão, devem exibir números
piores neste ano.
Não haverá crescimento maior que o dos últimos
quatro anos sem expansão dos investimentos produtivos. Mas o setor
privado continua investindo pouco, assim como o governo, e neste ano
encolheram tanto a produção quanto a importação de máquinas e
equipamentos. Condição essencial para o empresário investir é a
confiança nas instituições e na condução da política econômica.
Essa
confiança, no caso brasileiro, é tão baixa quanto aquela evidenciada
pela evolução dos números do mercado de capitais. Ontem de manhã, o
Ibovespa, da bolsa paulista, chegou a cair 6%, enquanto ações da
Petrobrás despencavam quase 14%. Mas o impacto da reeleição pode até ser
moderado, nestes primeiros dias, porque as consequências da vitória
petista já estavam em parte incorporadas nos preços dos papéis.
No
caso da Petrobrás, a desconfiança continua refletindo os problemas
associados aos controles de preços de combustíveis, as perdas derivadas
de maus investimentos, os tropeços de uma administração prejudicada pelo
aparelhamento e, é claro, a percepção incompleta da extensão da
pilhagem ainda sob investigação.
Má administração, agravada por
decisões sujeitas a conveniências pessoais e político-partidárias,
também marcou a história dos bancos estatais nos 12 anos de governo
petista. Só uma cuidadosa auditoria - solução rejeitada em
pronunciamentos de campanha pela presidente Dilma Rousseff - mostrará a
gravidade real dos danos. Parte do quadro, incluídas algumas perdas mais
visíveis do BNDES, já é conhecida.
Problema especialmente
importante é a promiscuidade entre o Tesouro e os bancos federais. Além
de servir a políticas mal concebidas e mal executadas de estímulo ao
investimento, essa promiscuidade prejudicou a administração do
orçamento. Mas também serviu, ao mesmo tempo, à famigerada contabilidade
criativa das finanças públicas, por meio de manobras com dividendos.
Não
haverá recuperação de confiança nem se diminuirá o risco de
rebaixamento do crédito brasileiro pelas agências de classificação, sem
um esforço muito claro de correção da política orçamentária. Sem isso,
também será inútil qualquer discurso a respeito de combate à inflação.
Com as contas públicas em desordem, sobrará apenas um instrumento - os
juros elevados - para conter a expansão dos preços e conduzir a inflação
à meta de 4,5% ao ano. Para 2014, projeções de mercado apontam uma taxa
de 6,45%.
O emperramento da indústria e do investimento
reflete-se na piora das contas externas e na perda de qualidade dos
empregos criados. Nenhum desses problemas se resolve com inflação,
desordem fiscal e protecionismo. Nada, nas palavras e atitudes da
presidente, indica o aprendizado desses fatos.
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